

Saiba o que o mercado achou do resultado do 31º Leilão de Biodiesel da ANP.

Nada atraiu mais comentários no Leilão 31 do que os preços baixos praticados pelas usinas. Nem o volume maior do que o esperado – mais de 515 milhões de litros foram comprados –, conseguiu tirar o foco dos R$ 1.987,94, valor médio do metro cúbico apurados no certame que vai abastecer de B5 o mercado brasileiro durante o 3º trimestre.
Essa foi a segunda vez consecutiva que o preço médio final de um leilão de biodiesel ficou abaixo de R$ 2 por litro e as pequenas e médias usinas vêm chamando cada vez mais atenção para uma situação que, para elas, é insustentável. “Os preços que estamos comercializando são horríveis para um investimento desse porte. A cada leilão que passa, mais empresas estão ficando sem vender ou vendendo volumes irrisórios”, reclama o gerente administrativo da Fiagril, Francisco Flores.
O setor atribui essa queda tendencial ao fato da oferta da indústria de biodiesel ser muito maior do que a demanda. Para o presidente do Sindicato das Indústrias de Biodiesel no Estado de Mato Grosso, Silvio Rangel, os preços praticados não foram motivados por viabilidade econômica ou ganhos financeiros. “As ofertas acabam sendo feitas como forma de garantir a venda de volumes que fossem suficientes para que o prejuízo de ficar parado se tornasse menor do que estar em operação”, justifica.
O volume comercializado, apesar de ofuscado pelos preços em baixa, também superou expectativas. “A surpresa do 31º Leilão foi o volume vendido, já que todos esperavam algo um pouco inferior as 500 mil m³”, comenta o diretor executivo da Cesbra, Carlos Omar Polastri.
Elcio de Angelis, gerente comercial para biodiesel da Cargill
O volume comercializado foi superior à minha expectativa, considerando que a Petrobras deixou de comprar para adquirir o estoque de segurança depois. Quanto aos preços, é a mesma coisa que o leilão passado: margens reduzidas e disputas para vender, bom para o governo, mas péssimo para o setor. É preciso haver competição, mas não nos níveis que estamos vendo, algumas usinas terão dificuldade de rentabilizar a produção.
Fica cada vez mais evidente que o governo pode contribuir para um mercado mais estável e sadio se permitir uma maior inclusão do biodiesel ao diesel mineral, para que haja um melhor equilíbrio entre oferta e demanda de forma a permitir que as empresas possam seguir suas estratégias de crescimento sem reduzir a competitividade do setor. Eu espero que o novo marco seja anunciado em breve, como tenho ouvido. A meu ver isso seria bom também para o governo uma vez que a importação do diesel segue pressionando a balança comercial brasileira. O governo poderia fomentar a indústria nacional e melhorar o PIB ao mesmo tempo em que reduz o fluxo cambial negativo.
Silvio Rangel, presidente do Sindicato das Indústrias de Biodiesel no Estado de Mato Grosso (Sindibio-MT)
Do ponto de vista da quantidade comprada, os patamares ficaram dentro das nossas previsões e aqui no Mato Grosso, como previsto, a participação ficou muito abaixo do seu potencial e capacidade produtiva.
No geral, os preços de referência dariam às usinas do estado, na maioria pequenas e médias, condições de participar ativamente do L31, mas o excesso de ofertas tira toda capacidade de continuidade no mercado das empresas de menor porte. Afirmamos com clareza, que estes patamares de preços são insustentáveis para a continuidade da pulverização do setor.
Em resumo, o intuito foi vender a qualquer custo e prender a respiração esperando ter fôlego, o problema é que a cada leilão não se está conseguindo renovar o ar dos pulmões. O que restará serão pouquíssimas empresas, não puramente produtoras de biodiesel e que podem a qualquer momento mudar o foco do seu negócio.
Carlos Omar Polastri, diretor executivo da Cesbra
O alto volume deste leilão foi uma surpresa. Já os preços praticados, não foram nenhuma novidade para ninguém. O que prevaleceu foi a política de degradação de mercado praticada pelas empresas verticalizadas que detém o poder de manipulação dos custos internos e estratégicos de suas matérias primas, o que obriga as demais usinas a acompanhá-las para que não fiquem de fora do mercado.
Sobra uma questão: cremos que tais empresas foram criadas com a intenção de agregar valor à sua matéria-prima produzida. Então por que vendem biodiesel mais barato que o preço de mercado desta matéria-prima?
Sergio Di Bonaventura, vice-presidente da Araguassú
Os preços abaixo de R$2 não cobrem os custos operacionais das pequenas usinas, visto que hoje só o preço do óleo bruto degomado (principal matéria-prima para a produção do biodiesel) na nossa região está acima de R$2 FOB.
Vejo esse mercado de biodiesel extremamente frágil diante de uma viabilidade econômica questionável. No atual panorama, não visualizo condições favoráveis para o aumento de mistura de B5 para o B10.
Francisco Flores, gerente administrativo da Fiagril
O resultado do L31 foi péssimo, porém já era esperado. E será assim até que se aumente o percentual de biodiesel adicionado ao óleo diesel, pois hoje a oferta é muito maior que a demanda. Isso força as empresas a ofertar com preço muito baixo para poder rodar a fábrica.
A 4ª etapa do leilão é a última chance que se tem de escolher entre vender para rodar a planta ou ficar parado. É aí que entra a decisão dos gestores do negócio, se assume todo o custo fixo ou se vende com preços muitas vezes abaixo do custo de produção.
Ricardo Gullo Chernicharo, supervisor de trading da Alesat
O resultado desse leilão foi bem parecido com o anterior, com uma estratégia de vendas semelhante e apenas um aumento do volume vendido. Eu acreditava que neste leilão os preços ficariam em linha com o leilão anterior, ou que até mesmo pequenos aumentos poderiam acontecer, mas na prática tivemos pequenas reduções na maioria dos produtores em relação ao certame anterior. Acho que essas pequenas variações nos preços se manterão no próximo leilão.
Acredito que a quedas de preços na etapa 4 sempre ocorrerá, pois é o momento que o produtor que já está satisfeito com as vendas na etapa anterior tem para fazer ofertas mais agressivas e buscar uma fatia maior do mercado. Assim, também é o momento que o produtor que teve um resultado insatisfatório tem para revisar sua estratégia e tentar alcançar o seu objetivo de vendas planejado. Como o mercado tem conhecimento do volume médio que será vendido, isso passa a ser um sinalizador para as estratégias de preços na etapa 4.
Patricia Herman – BiodieselBR.com