Estatísticas indicam que volumes importantes de óleo diesel estão sendo comercializados com menos biodiesel do que deveriam
“Tem diesel sendo vendido no Brasil que não está respeitando o teor de biodiesel”, diz o diretor de economia da Abiove e presidente da Câmara Setorial de Biodiesel do MAPA, Daniel Amaral. “É o que tanto as estatísticas [de produção e de entregas] quanto os relatórios de fiscalização da ANP vêm mostrando”, prossegue o economista, sem, no entanto, arriscar dimensionar o tamanho do problema.
Um dos sinais de que há algo estranho acontecendo no mercado vem do balanço entre a produção das usinas e a demanda das distribuidoras. Desde a adoção do B14 em março passado, o mercado vem acumulando déficits, o que fez com que faltassem mais de 62,1 mil m³ de biodiesel para fechar as contas do primeiro semestre.
O setor levou um susto e tanto quando, na semana passada, a ANP sinalizou para um déficit maior, que alcançou 88,4 mil m³ apenas no mês de julho. Parte dessa má impressão se desfez alguns dias mais tarde, quando surgiram pistas de que esses números não incluíam as 4 usinas da Cargill.
Esse sentimento de que algo não está indo muito bem para o setor é reforçado pelos dados do Programa de Monitoramento da Qualidade dos Combustíveis (PMQC), que mostram um salto no número de amostras de óleo diesel não conformes nos meses seguintes à adoção do B14 – quase 13% de reprovações em abril. “A maior parte das não conformidades do diesel B vem de amostras com teor de biodiesel menor. (...) Esse é um fato que a própria ANP reconhece”, afirma Daniel.
“Tem diesel sendo vendido no Brasil que não está respeitando o teor de biodiesel”, diz o diretor de economia da Abiove e presidente da Câmara Setorial de Biodiesel do MAPA, Daniel Amaral. “É o que tanto as estatísticas [de produção e de entregas] quanto os relatórios de fiscalização da ANP vêm mostrando”, prossegue o economista, sem, no entanto, arriscar dimensionar o tamanho do problema.
Um dos sinais de que há algo estranho acontecendo no mercado vem do balanço entre a produção das usinas e a demanda das distribuidoras. Desde a adoção do B14 em março passado, o mercado vem acumulando déficits, o que fez com que faltassem mais de 62,1 mil m³ de biodiesel para fechar as contas do primeiro semestre.
O setor levou um susto e tanto quando, na semana passada, a ANP sinalizou para um déficit maior, que alcançou 88,4 mil m³ apenas no mês de julho. Parte dessa má impressão se desfez alguns dias mais tarde, quando surgiram pistas de que esses números não incluíam as 4 usinas da Cargill.
Esse sentimento de que algo não está indo muito bem para o setor é reforçado pelos dados do Programa de Monitoramento da Qualidade dos Combustíveis (PMQC), que mostram um salto no número de amostras de óleo diesel não conformes nos meses seguintes à adoção do B14 – quase 13% de reprovações em abril. “A maior parte das não conformidades do diesel B vem de amostras com teor de biodiesel menor. (...) Esse é um fato que a própria ANP reconhece”, afirma Daniel.
Entre outubro de 2023 e março de 2024, o programa Cliente Misterioso do Instituto Combustível Legal (ICL) identificou que quase um quarto das amostras de diesel coletado tinha menos biodiesel do que deveria.
Números desencontrados
Apesar desses indícios, fica difícil cravar o que está acontecendo no mercado e em qual grau. Além de problemas mais pontuais – como a falta dos números da Cargill –, o setor convive há muito tempo com bases de dados que nem sempre estão na mesma página.
“Os números da ANP apresentam certas inconsistências”, avalia Daniel. “O balanço de oferta e demanda [de biodiesel] tem certas incoerências e não é de hoje. (...) Os dados de produção de biodiesel, por exemplo, não batem com os da produção por matéria-prima”, exemplifica o economista, acrescentando que seria importante que a agência avançasse em sua política de integração de dados.
O caso da produção de julho é um exemplo dessa desarticulação. Como os dados sobre a produção de biodiesel não são desagregados por Região, o setor só foi informado sobre o atraso nos números da Cargill alguns dias depois, quando a ANP atualizou as planilhas sobre as entregas de biodiesel. Nem sempre foi assim. Poucos anos atrás, a ANP fornecia dados sobre a produção de biodiesel individualizados para cada usina autorizada a operar.
Depois que o biodiesel deixou de ser comercializado via leilões públicos, contudo, houve uma redução no nível de transparência do setor, muito embora essa mesma informação conste – indiretamente – de outras bases de dados divulgadas pela própria ANP.
Grupo de Trabalho
Mesmo com essa dificuldade de diagnosticar o tamanho do problema, em junho foi formado um grupo de trabalho dentro da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Oleaginosas e Biodiesel com o objetivo de discutir os problemas com o nível de mistura de biodiesel no óleo diesel. “Estamos trabalhando com diversas entidades da cadeia. Além das três representações do setor de biodiesel [Abiove, Aprobio e Ubrabio], também estamos trabalhando com o ICL e o IBP”, conta Daniel.
Embora o GT ainda não tenha concluído suas atividades, Daniel lembra que durante muitos anos havia uma regra que impedia distribuidoras que não tivessem comprado biodiesel suficiente de continuar adquirindo óleo diesel mineral das refinarias e/ou importadores. ”Era uma regra dos tempos dos leilões que era bem executada. Entendemos que é necessário retomar esse mecanismo (...) porque é mais eficaz controlar o problema logo na origem, antes dele ser pulverizado por milhares de postos”, diz.
“Não faz sentido permitir que uma distribuidora que não está retirando biodiesel em volumes suficientes para fazer a mistura continue a receber diesel A (...) isso vai contra todo o processo de descarbonização que nós estamos implementando há tanto tempo”, lamenta.
Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com