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Pesquisa com pinhão-manso avança mesmo com apoio reduzido

Embrapa mantém ativo o trabalho de aprimoramento genético da oleaginosa alternativa e acumula vitórias importantes.

BiodieselBR.com 7 min de leitura

“A gente está tendo que ‘se virar nos 30’ e sermos criativos”, admite Bruno Laviola, pesquisador da Embrapa Agroenergia responsável por coordenar dos trabalhos relacionados ao aprimoramento genético do pinhão-manso. Segundo ele, em tempos de vacas magras secaram as fontes de financiamento público para bancar novas pesquisas sobre uma oleaginosa alternativa que – poucos anos atrás – era apontada como o futuro do setor de biodiesel. Apesar disso, um grupo pequeno de cientistas se mantém obstinado e vai, aos poucos, vencendo a distância ainda falta para obter uma cultivar viável.

“A gente está tendo que ‘se virar nos 30’ e sermos criativos”, admite Bruno Laviola, pesquisador da Embrapa Agroenergia responsável por coordenar dos trabalhos relacionados ao aprimoramento genético do pinhão-manso. Segundo ele, em tempos de vacas magras secaram as fontes de financiamento público para bancar novas pesquisas sobre uma oleaginosa alternativa que – poucos anos atrás – era apontada como o futuro do setor de biodiesel. Apesar disso, um grupo pequeno de cientistas se mantém obstinado e vai, aos poucos, vencendo a distância ainda falta para obter uma cultivar viável.

Cinco anos atrás, a situação era bem diferente. Com um orçamento de R$ 7 milhões, o projeto BRJatropha congregava os esforços de 22 instituições de pesquisa – entre unidades da Embrapa, centros de pesquisa e universidades – reunindo mais de 80 pesquisadores. “[Nessa época] nós avançamos bastante em termos de conhecimento relacionado ao pinhão-manso”, resume Bruno.

O pinhão-manso foi mais uma das febres que acometeu o setor de biodiesel em seus primeiros anos. Com elevado potencial para a produção de óleo e capaz de ser cultivada em terras marginais e sob condições climáticas pouco hospitaleiras, esse arbusto originário da América Central despertou paixões que não foi capaz de corresponder prontamente. A euforia inicial acabou virando desilusão a medida em que ficou claro que seriam necessários muitos anos de pesquisa até que a espécie fosse devidamente domesticada.

Como esse desânimo do setor privado coincidiu com o agravamento da crise econômica brasileira, os projetos ligados ao pinhão-manso perderam espaço e toda a rede de pesquisa formada para o BRJatropha acabou desarticulada. Além do próprio Bruno, atualmente apenas outros cinco pesquisadores da Embrapa desenvolvem trabalhos na área tentando aumentar a produtividade. “A cultura era uma prioridade e, hoje, não é mais. Mas como houve esse grande investimento público inicial, a gente, até por uma questão de responsabilidade, não podia simplesmente descontinuar a pesquisa”, reconhece.

Erros do passado

O maior medo de Bruno é ver se repetir uma situação que aconteceu nos anos 1980 quando o país chegou a desenvolver pesquisas com o pinhão-manso. Contudo, os resultados acabaram se perdendo conforme o interesse oficial esfriou.

“Eles simplesmente destruíram todo o material depois de encerrado o projeto”, lamenta. Laviola acrescenta que se naquela época, alguém tivesse tido o cuidado de preservar adequadamente os resultados obtidos provavelmente nós já teríamos uma cultivar comercial pronta na época em que o setor privado começou a demonstrar interesse por oleaginosas alternativas. “Não teríamos tido toda aquela frustração que aconteceu lá no começo quando tentaram plantar variedades silvestres de pinhão-manso”, especula.

Foco no melhoramento

Com menos material humano e recursos com que trabalhar, o foco foi direcionado principalmente ao melhoramento genético. Resumindo muito, o que eles têm feito é: selecionar as plantas mais produtivas de uma geração e cruzá-las entre si para gerar plantas ainda mais produtivas na geração seguinte. Com isso eles formaram aquilo que chama de “população de melhoramento” para o pinhão-manso.

Apesar do escopo mais reduzido, há vitórias a relatar. Segundo Bruno, sua equipe conseguiu multiplicar a produtividade do pinhão-manso por quatro! “Quando começamos, a média de produção de grãos por planta era de 160 gramas. Com o melhoramento chegamos a 700 gramas por planta”, comemora. Convertendo esse número para uma escala um pouco mais familiar, seriam pouco mais de 5.000 quilos de grão para cada hectare cultivado.

A meta, contudo, ainda está longe de ser alcançada. Pelas contas dos pesquisadores, para que o pinhão-manso realmente se viabilize como uma matéria-prima para a indústria de biodiesel seria preciso superar a média de 4.000 quilos de óleo para cada hectare plantado. Isso exigiria uma produtividade – em grãos – por volta dos 11.500 kg/ha antes que seja possível selecionar uma cultivar e disponibilizá-la ao mercado.

Ainda há um longo caminho pela frente, portanto, e Bruno não diz não saber quando será possível atingir a marca. “É impossível dar uma dada como ‘daqui cinco anos ou daqui a dez anos’ porque isso vai depender muito da resposta da própria planta à seleção”, explica.

Bioeconomia

Uma alternativa para fazer com que o pinhão-manso chegue ao campo mais rapidamente seria encontrar algo mais para fazer com seu óleo além de biocombustíveis. “Queremos trabalhar o pinhão-manso mais no sentido da bioeconomia encontrando outros destinos para seu óleo e resíduos além da produção de biodiesel e bioquerosene”, explica. Se for possível agregar mais valor aos produtos seria possível viabilizar cultivares comercias antes de atingir a meta de 4.000 quilos de óleo.

Segundo Bruno, recentemente foi iniciado um processo de revisão da literatura científica para tentar identificar novos usos potenciais sinalizando que o óleo do pinhão-manso tem características que podem torná-lo uma opção muito boa para produtos de elevado valor agregado como fármacos, biolubrificantes e bioplásticos. “É uma oportunidade para o desenvolvimento da bioeconomia no país”, pontua.

Boas notícias

Se a produtividade ainda é um problema a ser solucionado, outras barreiras ao cultivo do pinhão-manso parecem já estar se resolvidos.

Uma questão que sempre atormentou quem tentou plantar a oleaginosa era a falta de uniformidade na maturação dos frutos. Isso obrigava os produtores a fazerem a colheita manualmente e por períodos muito longos de tempo fazendo com que os custos da produção decolassem. Mas, de acordo com Bruno, o problema é menos grave do que poderia parecer uma vez que ele só acontece em plantas jovens quase desaparecendo a partir do quarto ano de idade. “Em plantas adultas o florescimento é bem ordenado o que permite uma colheita mais concentrada em certas épocas”, diz contando que nos campos experimentais da Embrapa em Brasília, a colheita é feita toda de uma vez ao longo de 15 de janeiro a 15 de fevereiro.

Também foram feitos avanços significativos em mecanização. Tanto com um sistema semimecanizado desenvolvido durante o projeto BRJatropha que permite uma colheita três vezes mais rápida do que o processo manual. Além deste, Bruno relembra que no auge o entusiasmo pelo pinhão-manso um grupo espanhol chegou a apresentar uma colheitadeira de café especialmente adaptada para a colheita do pinhão-manso que se mostrou capaz de obter os frutos maduros sem causas danos às plantas.

“Em minha opinião, a gente não teria dificuldades tecnológicas para colocar uma colheitadeira mecânica para pinhão-manso. Eu não vejo isso mais como um problema”, assegura.

Um outro salto veio com a identificação de exemplares atóxicos do pinhão-manso. Nos exemplares selvagens da planta substâncias tóxicas em seus frutos e sementes impedem que, depois de prensados para a obtenção de óleo, a torta resultante pudesse ser aproveitada na alimentação animal. Dessa forma, o óleo sozinho precisava compensar os custos da produção dificultando a viabilidade econômica da lavoura.

A Embrapa conseguiu resolver esse problema ao identificar acessos atóxicos em seu banco de germoplasma. “Testamos a torta desses materiais em animais ruminantes em substituição ao farelo de soja e o resultado foi perfeito”, destaca Bruno.

Novo impulso

Embora sem as dimensões do BRJatropha, há um novo impulso surgindo no horizonte. Este ano, a Finep aprovou o repasse de R$ 1 milhão para um projeto chamado Núcleo de Excelência em Melhoramento Genético, Biotecnologia de Matérias-Primas Oleaginosas para a Produção de Energia – ou, para resumir, NextBio – que vai contemplar pesquisas com pinhão-manso ao lado de trabalhos relativos à macaúba, canola e microalgas.

Além desse apoio, Bruno também vê com bons olhos o potencial de colaboração entre a Embrapa e a iniciativa privada. “Hoje as parcerias público-privadas são cada vez mais importantes e efetivas para o desenvolvimento de pesquisas no país. A Embrapa está aberta”, provoca.

No mais, ele continua comprometido em atingir realizar o potencial do pinhão-manso. “No futuro, não tenho dúvida que essa planta vai ter um espaço importante”, encerra.

Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com

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