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‘Enferrujadas’, refinarias da Venezuela são velharias difíceis de ressuscitar


Reuters - 07 ago 2026 - 08:30

O Centro de Refino Paraguaná, no oeste da Venezuela, já foi símbolo da riqueza petrolífera do país e de suas ambições de transformar as enormes reservas de petróleo locais em combustível e receita externa. O complexo, no Estado de Falcón, era capaz de produzir 955 mil barris por dia. Hoje, usa uma pequena parte da capacidade de processamento, em declínio que se materializa há décadas, sem relação com os terremotos que assolaram o país em junho.

Nos meses anteriores aos tremores, a Reuters visitou a área em torno das refinarias de Amuay e Cardón, que integram o complexo Paraguaná, além de uma das duas outras refinarias operacionais na Venezuela, e fez cerca de 50 entrevistas com funcionários, prestadores de serviço, moradores e especialistas.

Um trabalhador da refinaria de Amuay, cuja capacidade de processamento era de 645 mil barris diários, disse que as instalações parecem “feias e enferrujadas”. Os poços de resíduos a céu aberto estão quase cheios. Vazamentos deixam oleodutos e estações de válvulas escorrendo. Segundo funcionários, anos de falta de investimentos, falhas em equipamentos e escassez de peças fazem com que Paraguaná tenha dificuldades para produzir os combustíveis tão necessários ao país.

A reportagem constatou profunda deterioração e pouca manutenção nas três refinarias, o que salienta o tamanho dos desafios da Venezuela para recuperar a infraestrutura petrolífera em benefício dos cidadãos, mesmo depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter prometido US$ 100 bilhões em investimentos de petrolíferas estrangeiras.

Apesar de as refinarias estarem entre os ativos mais importantes para os venezuelanos, também estão entre os mais dilapidados. Ainda assim, figuram entre os que têm menos chance de receber investimento estrangeiro no curto prazo, disseram executivos e analistas.

A necessidade de trabalhar na recuperação do país após os dois terremotos, que mataram mais de 5 mil pessoas e causaram destruição generalizada, complicou a perspectiva para as refinarias, segundo o analista venezuelano Oswaldo Felizzola, especializado no setor de petróleo e gás.

“Nesse momento, a prioridade claramente parece ser reconstruir o país e lidar com toda a devastação que os terremotos causaram”, disse. Segundo ele, qualquer investimento de grande porte no setor de refino deverá ser postergado para ao menos 2027, uma vez que o governo decidiu concentrar os esforços na produção de petróleo.

Restaurar integralmente a capacidade de refino exigiria no mínimo US$ 20 bilhões, disse Felizzola, em estimativa corroborada por outros especialistas do setor entrevistados pela Reuters.

Depois que os EUA destituíram o presidente Nicolás Maduro em operação realizada em 3 de janeiro, algumas petrolíferas americanas e multinacionais manifestaram interesse na Venezuela. Porém, as empresas têm poucos incentivos para recuperar as refinarias locais, já que os EUA têm instalações de refino capazes de processar o difícil petróleo da Venezuela, pesado e de alto teor de enxofre.

A situação deixa o governo da presidente interina, Delcy Rodríguez, com pouca esperança de restaurar as refinarias locais com dinheiro estrangeiro ou das próprias unidades, que abastecem o mercado interno com combustíveis vendidos a valores muito abaixo do custo operacional - em razão de políticas públicas de longa data, aprofundadas nos governos socialistas.

As condições locais são péssimas. Na refinaria de Amuay, unidade de flexicoque, que antes transformava resíduos pesados de baixo valor em combustíveis de melhor qualidade e baixo teor de enxofre, está desativada e escurecida pela deterioração, segundo funcionários atuais e um engenheiro recém-aposentado.

O engenheiro disse que a unidade foi desmontada para o aproveitamento de peças, e que já não tem condições de ser recuperada. “Se precisávamos de uma bomba, procurávamos lá. Se precisávamos de um duto ou instrumento, também procurávamos por ali”, ressaltou.

As grandes petrolíferas continuam cautelosas em investir até nos segmentos mais atraentes, como a produção de petróleo e gás natural. A Exxon Mobil e a ConocoPhillips deixaram a Venezuela em 2007, depois que o então presidente Hugo Chávez expropriou seus projetos no país.

Muitas empresas estrangeiras assinaram memorandos de entendimento relacionados a projetos de exploração e produção, mas as conversas com o governo para os contratos definitivos avançam a passos lentos, mesmo após a reforma da legislação do setor de petróleo e gás.

Perguntado sobre as refinarias venezuelanas, um porta-voz da Casa Branca disse que os EUA não estão envolvidos em sua reconstrução e destacou que as exportações de petróleo da Venezuela atingiram recentemente o maior patamar em sete anos.

Normas aprovadas em julho, com base na recente reforma da lei de hidrocarbonetos, criaram um sistema de licenciamento que permite às empresas privadas operarem refinarias - até então, domínio exclusivo da estatal PDVSA - e a venderem o combustível produzido. O modelo, contudo, não é atraente o suficiente para os investidores, segundo analistas, em parte porque também aplica um novo imposto, de até 5%, sobre a receita bruta das refinarias.

Apesar de possuir algumas das maiores reservas de petróleo do mundo, a PDVSA encontrou dificuldades ao longo dos últimos dez anos até para produzir combustível suficiente para atender à demanda interna, hoje em torno de 250 mil barris por dia.

O complexo de Paraguaná não recebeu grandes reparos neste ano, segundo trabalhadores e firmas que prestam serviços às refinarias, depois de a chinesa Jiazhan Shaelion reduzir suas operações no local. A empresa, uma das principais fornecedoras de serviços de refino para a PDVSA, está concluindo um projeto pendente, mas ainda não conseguiu chegar a acordo com a estatal para novo contrato, segundo um funcionário da Jiazhan Shaelion.

O governo Trump, ao renovar neste ano as licenças americanas concedidas a empresas estrangeiras interessadas em expandir ou retomar operações na Venezuela, excluiu firmas de países considerados adversários, como Rússia, China, Irã, Coreia do Norte e Cuba.

Representantes da PDVSA, do governo venezuelano e dos escritórios da Jiazhan Shaelion na Venezuela não responderam a pedidos para comentar o assunto.

Nas refinarias menores da PDVSA, de Puerto La Cruz, com capacidade nominal de 187 mil barris por dia, e de El Palito, de 146 mil barris por dia, fornecedoras locais vêm realizando, desde 2025, reparos constantes em uma unidade de craqueamento catalítico defeituosa e no sistema de abastecimento de energia das instalações, segundo cinco funcionários ouvidos pela Reuters.

O grande reparo mais recente em El Palito foi executado por empresas estatais iranianas até o início de 2024. Trabalhos posteriores para garantir eletricidade suficiente para que a refinaria opere de forma independente da rede elétrica não foram suficientes para lidar com a situação emergencial provocada pelos terremotos de junho. Houve falhas em uma importante linha de transmissão que abastecia a refinaria, provocando sua paralisação por cerca de duas semanas.

A refinaria voltou a operar em julho, mas será paralisada de novo nas próximas semanas para um grande trabalho de manutenção, que incluirá inspeções para avaliar os impactos dos terremotos.

Alguns projetos menores, de reparo anteriores, já haviam permitido às refinarias de El Palito e Amuay recuperarem, cada, cerca de 20 mil barris por dia de capacidade de processamento, disse o vice-presidente de Refino da PDVSA, Jovanny Martínez, em uma conferência em abril.

Os problemas na área de refino contrastam com o aumento da produção de petróleo. Desde janeiro, o controle americano sobre as receitas das vendas de petróleo permitiu uma recuperação da produção. As exportações aumentaram de menos de 800 mil para cerca de 1,2 milhão de barris por dia.

O setor de refino, contudo, tem recebido pouca atenção. “No atual ambiente político, o governo dos EUA estará interessado em ver que esse petróleo seja exportado”, disse Eric Smith, diretor associado do Instituto de Energia da Universidade Tulane.

Projetos maiores, como os de modernização das refinarias, receberão atenção apenas quando a Venezuela se tornar “estável” e tiver “capacidade creditícia”, acrescentou Smith.

Em junho, o secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, disse a jornalistas que as refinarias americanas são capazes de processar o petróleo venezuelano. “Uma grande quantidade desse petróleo venezuelano está indo para refinarias americanas”, disse. “Quando essas refinarias foram construídas, a Venezuela era a maior exportadora de petróleo do mundo. Nossas refinarias estão ajustadas para usar esse petróleo venezuelano.”

Um dos principais obstáculos para reparar as refinarias é o baixo preço de venda da gasolina. As refinarias estatais da Venezuela abastecem os postos de combustível, também controlados pelo governo, a preços definidos pelo governo socialista, o que resulta em uma das gasolinas mais baratas do mundo.

A receita obtida com a venda de combustíveis no mercado interno poderia ser a tábua de salvação do governo de Delcy, mas apenas se ela tomar a decisão impopular de elevar os preços. É improvável que isso ocorra tão cedo, uma vez que as tensões sociais já alcançaram ponto de ebulição: muitos sentem que a resposta do governo aos terremotos foi inadequada.

Mircely Guanipa, Tibisay Romero e Deisy Buitrago – Reuters