O representante da Abiove, Leonardo Zilio, trouxe à Conferência BiodieselBR posição dos processadores de oleaginosas sobre a oferta de matérias-primas.
BiodieselBR.com ··6 min de leitura
Texto
Primeiramente, se munir de argumentos para, só depois, dar respostas às questões que afligem o setor. Essa foi a abordagem escolhida pelo economista Leonardo Zilio, representante a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) – principal representante do setor de processamento de oleaginosas no país –, para sua palestra na 10ª edição da Conferência BiodieselBR.
Primeiramente, se munir de argumentos para, só depois, dar respostas às questões que afligem o setor. Essa foi a abordagem escolhida pelo economista Leonardo Zilio, representante a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) – principal representante do setor de processamento de oleaginosas no país –, para sua palestra na 10ª edição da Conferência BiodieselBR.
No que tange a indústria do biodiesel, a grande pergunta é sobre a disponibilidade – e o preço – das matérias-primas. Para tentar responder essa questão Zilio repercutiu a projeção do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) para a safra mundial de soja em 2014/2015, que aponta para uma colheita de 311 milhões de toneladas. Dentro desse contexto de ampla oferta, o economista prevê um cenário de manutenção com viés de baixa de preços, o que “pode ser interessante para o setor nacional de biodiesel”.
Zilio também observou que, ao contrário do que ocorre com o mercado de petróleo e de minerais, cujos volumes de produção anuais costumam ser razoavelmente fixos o ano todo, no setor de processamento de soja o mercado é mais sazonal. “Existem épocas do ano em que se processa mais soja. E temos uma utilização da capacidade instalada de processamento menor no período de entressafra”, comentou.
Na opinião do palestrante, a pouca disponibilidade de óleo de soja – principal matéria-prima usada na produção de biodiesel – em função da entressafra, foi uma das causas apontadas por agentes do mercado para a oferta acanhada no último leilão de biodiesel (L39).
Previsibilidade O economista também apresentou a primeira projeção da Abiove para o processamento de soja em 2015. A entidade estima que, no próximo ano, sejam processadas 38,3 milhões de toneladas da oleaginosa no país, o que deve colocar no mercado interno 7,4 milhões toneladas de óleo. “Dessa forma, nós salientamos que existe disponibilidade [de óleo] para o mercado compulsório de B7”, afirmou Zilio ressaltando que o processamento tende a responder aos aumentos da mistura obrigatória.
O economista destacou ainda a importância da previsibilidade para o setor de processamento. Segundo Zilio, essa indústria depende um horizonte para fazer seus planejamentos em termos de investimentos. “A previsibilidade a longo prazo de aumentos compulsórios da mistura ou de medidas de incentivo ao uso do biodiesel pautarão parte dos investimentos em processamento”, frisou. “Isso é histórico. Se mantém hoje e se manterá agora”, afirma.
Para o economista da Abiove, essa conjuntura formada por uma probabilidade de safras recordes de soja – tanto no Brasil como nos EUA, dois principais países produtores –, e a tendência de manutenção ou queda das cotações dos óleos vegetais nos mercados internacionais fazem de 2015 um ano promissor para o setor de biodiesel. Para completar esse quadro favorável há uma tendência de alta nos preços do diesel fóssil. “O ministro Guido Mantega autorizou o Conselho da Petrobras a elevação o reajuste de preços. Isso impacta de alguma forma a relação de preço biodiesel-diesel (...) da mesma forma, a mídia especializada circula a notícia da retomada da CIDE, o que também impacta de certa forma o setor de biodiesel e diesel”, pontuou o palestrante.
Preços Não bastasse isso, os preços do biodiesel têm mantido uma tendência clara de queda. De acordo com análise produzida pelo economista da Abiove, o preço médio do biocombustível em 2013 caiu 12,7% em relação ao ano anterior. Neste ano, a queda foi mantida chegando a 5,7%, segundo os cálculos de Zilio. “Essa tendência de queda nos preços (...) tem sido um ponto positivo para amadurecido e correto desenvolvimento do setor”, concluiu.
Outro exercício estatístico efetuado pelo economista Abiove revela uma retração ainda mais substancial nos preços do biodiesel. Zilio demonstrou que, de julho de 2008 a outubro 2014, houve um recuo de 45% nos preços reais de biodiesel. E de janeiro de 2010, quando passou a viger o B5, até os patamares atuais de mistura [B7], a redução observada é de 36%, o que para o economista “mostra amadurecimento do setor, uma maior competitividade e eficiência tanto por parte de quem produz matéria-prima como quem produz biodiesel”.
Usos alternativos Uma das principais entidades representativas do setor de biodiesel, que congrega usina de grande porte como a ADM e a Cargill, a Abiove possui duas propostas para ampliar o uso de biodiesel, que foram defendidas por Zilio. Propostas estas que, segundo o economista, “merecem reflexão”.
Uma delas é o B20 Metropolitano, que preconiza o uso de uma mistura de 20% de biodiesel ao diesel pelo sistema de transporte público de cidades situadas em regiões metropolitanas. De acordo com as estimativas da associação, haveria 41 municípios com população superior os 500 mil habitantes aptos a serem contemplados com a iniciativa. “Pelas nossas primeiras estimativas, essa proposta incluiria ao mercado algo em torno de 215 milhões de litros de biodiesel por ano”, salientou Zilio.
A outra é o BX Opcional, que se pauta pela utilização livre de percentuais acima da mistura obrigatória [B7] até atingir o teto de 10% de biodiesel ao diesel. Facultando às distribuidoras a decisão de aumentar a mistura sempre que isso se mostre economicamente viável. “Acreditamos que as distribuidoras poderiam ser livres, dependendo da disponibilidade técnica, econômica e logística, para fazer a compra do B7, do B8, B9 e até B10”, defendeu questionando o porquê de se fazer a restrição do uso adicional “se ele é um uso racional?”.
De acordo com o economista, o BX poderia ser aplicado em todo o território nacional. Contudo, Zilio acredita que o êxito da proposta seria maior em regiões que concentre muita capacidade produtiva de biodiesel e de suas matérias-primas. Caso do Sul e o Centro-Oeste.
Leilões O economista também trouxe sugestões de aprimoramento para o setor. Uma delas é em relação a um aspecto polêmico dos leilões – os Preços Máximos de Referência (PRMs). Segundo o palestrante, durante o Leilão 39, os valores estipulados pela ANP para determinadas regiões deixaram algumas usinas insatisfeitas. Fator que teria contribuído para reduzir o volume colocado à venda.
A Abiove propõe que seja criado um preço de referência em substituição ao PRM. Esse valor serviria para balizar o mercado, mas não seria obrigatório. “Na nossa concepção, esse pequeno ajuste poderia trazer ao setor condições de mercado mais interessantes”, avaliou.
Outra proposta defendida pela associação – reflexo de uma discussão bastante antiga promovida no setor – versa sobre a possibilidade das usinas terem que se habilitar apenas uma vez ao ano para os leilões de biodiesel. De acordo com o economista, em dezembro ou janeiro, as unidades produtoras apresentariam todo o arcabouço documental necessário, ficando automaticamente habilitadas para os seis certames do ano. Periodicamente, prestariam suas contas cadastrais à agência, o que, segundo Zilio, poderia ser feito fora do período do leilão.
“Acreditamos que isso apararia algumas arestas necessárias e traria algum conforto para o setor”, finaliza Zilio.