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Glicerina: de patinho feio a cisne

CBBR2014 MoisesGarcia_191114A glicerina foi o tema da palestra de Moisés Garcia da Rocha, diretor executivo Prisma Brazil durante o primeiro dia da Conferência BiodieselBR 2014.
BiodieselBR.com 6 min de leitura
O principal coproduto da indústria do biodiesel – a glicerina – foi o tema da palestra de Moisés Garcia da Rocha, diretor executivo da trading de produtos oleoquímicos Prisma Brazil. Intitulada “O crescimento mundial da oferta de glicerina”, a fala aconteceu no primeiro dia da Conferência BiodieselBR 2014.

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O principal coproduto da indústria do biodiesel – a glicerina – foi o tema da palestra de Moisés Garcia da Rocha, diretor executivo da trading de produtos oleoquímicos Prisma Brazil. Intitulada “O crescimento mundial da oferta de glicerina”, a fala aconteceu no primeiro dia da Conferência BiodieselBR 2014.

Moises lembrou que foi preciso algum tempo para que a comercialização da glicerina se profissionalizasse. “Alguns anos atrás, a glicerina era considerada o patinho feio. Isso foi em 2008 quando o biodiesel vivia uma realidade nova enquanto a glicerina era um produto a descobrir. (...) Em 2013, a glicerina tinha virado cisne porque o biodiesel estava com margens prejudicadas enquanto a glicerina ganhou importância”, explicou.

Contudo, o executivo alerta que não há garantias que, no momento atual, a glicerina mantenha seu bom desempenho. “Em 2015, a gente ainda não sabe se a ela [a glicerina] vai continuar sendo um cisne imponente ou voltar a ser patinho feio”, alerta. O problema, segundo ele, são as incertezas que os recentes aumentos na produção de biodiesel em diversos países importantes trazem para o mercado deste coproduto. O Brasil implantou o B7, a Argentina retomou a produção e a Indonésia também sinalizou com aumentos de mistura e a Europa vive um momento de sobreoferta que a levou ao mercado exportador.

Moises lembra que a atual abundância de glicerina no mundo ainda é uma novidade. Foi só com a expansão da produção de biodiesel no começo deste século que a oferta de glicerina coproduto começou a aumentar. Antes disso, a substância era um produto feito em rotas industriais independentes através da cisão por hidrólise dos óleos vegetais resultado em glicerol e ácidos graxos – esse processo já foi responsável pelo abastecimento de dois terços do mercado global. 

Esse processo ainda é praticado em alguns locais do mundo, mas está rapidamente se tornando irrelevante. “Hoje, em torno de 80% da glicerina no mundo é fabricada pela indústria do biodiesel”, explica. Pelos grandes volumes fabricados, a indústria de biodiesel acabou se tornando a referência de preços para o segmento.

Cenário
Essa mudança nos fundamentos do setor tem estado na base de todas as turbulências pelas quais o mercado vem passando nos últimos anos. Inclusive no ano atual. “Eu chamaria de tempestade perfeita o que está acontecendo no cenário do mercado de glicerina”, analisa. 

Hoje, a glicerina é uma commodity mundial e, embora a demanda tenha se mantido estável nos principais países consumidores, há um claro excesso de oferta puxado pelo aumento de produção de biodiesel no mundo. Segundo o palestrante, hoje há grandes compradores com estoques equivalentes a seis meses de consumo o que praticamente garante que os preços da glicerina bruta deverão se manter abaixo dos US$ 300 por tonelada ainda durante vários meses. “Pode ser que haja uma surpresa porque temos projetos de novas aplicações que hoje estão engavetados a espera de viabilidade financeira que os novos patamares de preço podem trazer”, explica.

No caso da indústria brasileira, a China é o grande importador de glicerina – o país é o segundo maior fornecedor para o mercado chinês, atrás apenas da Indonésia – onde ela é usada basicamente para na fabricação da epicloridrina (ECH) que vem a ser uma das matérias-primas usadas na fabricação resinas epóxi que, por sua vez, é um mercado de US$ 18 bilhões por ano. “A epicloridrina não é feita somente com a glicerina, existem rotas alternativas de produção. Mas ela se tornou uma aplicação bastante importante”, diz.

É graças à produção de ECH na China que a glicerina brasileira tem encontrado mercado certeiro. Segundo as estimativas da Prisma, esse ano as exportações do coproduto deverão chegar a 218 mil toneladas e saltar para cerca de 300 mil toneladas a partir do ano que vem. E a fome dos chineses pelo produto continua crescendo ano a ano com perspectivas da demanda anual ultrapassar a marca de um milhão de toneladas em mais “dois ou três anos”.

Refinada
O palestrante ressalta que mais recentemente havia uma mudança no perfil das exportações brasileiras com um crescimento nas vendas de glicerina refinada de maior valor agregado. “Esse é um dado relevante porque, até 2012, não tínhamos players de biodiesel envolvidos na produção de glicerina refinada, o que existia eram umas empresas de saboaria que faziam exportações realmente inexpressivas. Com a entrada de empresas de biodiesel na glicerina refinada temos um outro cenário”, diz. Até setembro, as projeções para as exportações do produto são de 27 mil toneladas – dez vezes mais que em 2013.

Apesar desse crescimento inicial, o Brasil ainda é um player muito pequeno na glicerina refinada. “A grande vantagem é que o produto refinado tem mercados mais diversificados. Uma boa parte ainda vai para a china, mas também tempos países como a Malásia e o Egito comprando”, pontua. Lembra ainda que a glicerina refinada pode ser tratada muito mais um produto de marca do que a versão bruta, que se comporta mais como uma commodity. Isso acontece porque a refinada entra na formulação de produtos que vão diretamente para o consumidor final como pastas de dentes, cosméticos e tintas. E há novos polos de demanda surgindo para o produto refinado. Como na Rússia, que vem usando cada vez mais glicerina como anticongelante.

De qualquer forma antes de se tornar um grande exportador, Moises destaca que as usinas de biodiesel que estão refinando seu coproduto ainda têm espaço para crescer no mercado interno. No ano passado, o país importou 19,2 mil toneladas; volume que deverá despencar para menos de 12 mil toneladas até o final deste ano. “A glicerina refinada vive esse processo de formação de mercado brasileiro. O volume de importação tem diminuído o que mostra que tem havido um bom trabalho dos players de biodiesel. Mas ainda tem mais mercado a ser explorado pois o Brasil consume entre 70 e 100 mil toneladas por ano de [glicerina] refinada”, comenta. 

Moises não acredita que as importações sumam completamente porque há nichos que não gostam de trabalhar com glicerina oriunda do biodiesel. “São produtos para o mercado alimentício e de cosméticos que evitam a glicerina de biodiesel porque eles têm muito medo de contaminação por metanol. Eu também teria preocupação se fabricasse para o consumidor final”, diz.

Exportar mais glicerina refinada para um número maior de parceiros comerciais pode ajudar o Brasil a diminuir a dependência em relação ao mercado chinês, onde tem encontrado dificuldades para competir com a glicerina vinda da Indonésia e da Malásia. “O tempo de trânsito que a glicerina leva para ir de navio aqui do Brasil até a China assusta um pouco com compradores. Eles não querem, num mercado volátil, ficar até 60 dias com carga a chegar. Enquanto a Malásia coloca a glicerina na China em 10 dias”, finaliza.

Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com
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