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As demandas do setor produtivo

CBBR2014 MarcoBoff_BAIXAO vice-presidente da Ubrabio, Marcos Merlin Boff, apresentou as demandas do setor produtivo para o público da Conferência BiodieselBR 2014.
BiodieselBR.com 9 min de leitura
Embora o setor de biodiesel ainda esteja comemorando os mais recentes aumentos da mistura obrigatória – o B6 veio em julho e o B7 chegou em novembro – as empresas do segmento não planejam aliviar a pressão sobre o governo brasileiro em busca de medidas capazes de aumentar a demanda pelo produto. Esse é o resumo da palestra ministrada por Marcos Merlin Boff, vice-presidente técnico da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio) e diretor da Oleoplan, no primeiro dia da Conferência BiodieselBR 2014.

CBBR2014 MarcoBoff_BAIXA
Embora o setor de biodiesel ainda esteja comemorando os mais recentes aumentos da mistura obrigatória – o B6 veio em julho e o B7 chegou em novembro – as empresas do segmento não planejam aliviar a pressão sobre o governo brasileiro em busca de medidas capazes de aumentar a demanda pelo produto. Esse é o resumo da palestra ministrada por Marcos Merlin Boff, vice-presidente técnico da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio) e diretor da Oleoplan, no primeiro dia da Conferência BiodieselBR 2014.

“Estamos num momento de comemoração e preocupação com o desafio pela frente”, resume o palestrante para quem o “programa [do biodiesel] veio numa evolução bastante sofrida” desde 2010. Foi nesse ano que o atual marco regulatório do setor chegou ao teto com a adoção do B5 como mistura obrigatória deixando as empresas do setor sem um norte claro para a continuidade de seus investimentos. 

A situação só foi – ao menos parcialmente – revertida com os novos aumentos de mistura decretados esse ano por meio da Medida Provisória 647/2014 editada no final de maio passado. Embora reconheça que com o “B6 e o B7 [nós do setor] temos novas oportunidades” ele ainda critica a ausência de uma previsibilidade maior para o biodiesel. 

Para tentar contornar essa carência, a Ubrabio está colocando peso político por trás de uma série de propostas que, no entender da entidade, poderiam fazer a produção do setor deslanchar nos próximos anos. A primeira delas diz respeito a adoção de um novo marco regulatório para o setor que adote um cronograma de novos aumentos na mistura obrigatória que leve o país ao B10 a partir de 2018. 

Fora da curva
Embora reconheça que os problemas relacionados ao Leilão 39 – quando as ofertas do setor produtivo ficaram aquém do que seria necessário para que o lançamento do B7 acontecesse sem sustos –, Marcos assegura que ele foi um “ponto fora da curva”. “O L39 acendeu um alerta para o governo. O que acabou gerando consequências importantes, com um leilão bastante atípico e com a adoção do leilão complementar. Mas a gente espera que esse tenha sido um ponto fora da curva e que a coisa vá caminhar sem sobressaltos a partir de agora”, tranquiliza.

Para minimizar os riscos, Marcos recomendou que, a partir de agora, qualquer novo aumento ocorra de forma sincronizada com a colheita da soja. Dessa forma, ele espera que as usinas possam fazer um planejamento melhor em suas compras de matérias-primas. “O B7 chegou no começo da entressafra que é um período mais desafiador para a indústria”, justificou.

Outros pleitos
Embora a maior ambição para o que a Ubrabio batizou de fase 2 do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB) seja mesmo a adoção de um cronograma para novos aumentos da mistura, a Ubrabio também defende outras duas propostas: o B20 Metropolitano, o B+ e o B Agro.

Não é de hoje que a Ubrabio defende B20 Metropolitano que, de forma resumida, tornaria obrigatório o uso de 20% de biodiesel pelas empresas de transportes coletivos em todas as cidades brasileiras com mais de 500 mil habitantes. Isso levaria o B20 a 38 municípios brasileiros gerando externalidades positivas consideráveis em relação à qualidade do ar e para a saúde das populações.

Inicialmente, a Ubrabio defendida que essa proposta tivesse sido adotada esse ano nas cidades sede da Copa do Mundo do Brasil e fosse nacionalizada a partir de março do ano que vem. “Teríamos uma experiência mais ampla, agora caberia alguma revisão quanto aos prazos”. 

Segundo projeções da Ubrabio, com o novo marco regulatório e o B20 Metropolitano, o mercado brasileiro de biodiesel chegaria a 2018 rondando os 8 bilhões de litros anuais.

Facultativo
A entidade também vê potencialidades em mercados facultativos. São duas as propostas nesse caso: o B+ que permitiria às distribuidoras dobrarem a mistura de biodiesel em estados onde a mistura maior fosse financeiramente vantajosa e o B Agro que permitiria o uso de B30 em máquinas e implementos agrícolas.

Segundo Marcos, ambas essas propostas poderiam beneficiar especialmente os estados do interior do país que tem grande produção de biodiesel mas que precisam trazer o diesel fóssil de refinarias distantes. “Ele seria adotado onde tivesse produção de biodiesel consistente e fiquem distantes da produção de diesel, pois tem um maior custo logístico”, explica.

Nesses dois mercados, a Ubrabio vê uma demanda adicional rondando a casa dos 1,5 bilhão de litros.

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Para mostrar que há espaço para fabricar os praticamente 9,5 bilhões de litros de biodiesel necessários para atender todas as propostas da Ubrabio, Marcos desfiou os números da safra de soja 2013/14 que colheu 88 milhões de toneladas de soja em grão. 

Segundo ele, na safra passada, metade da soja colhida no país foi exportada sem qualquer processamento adicional. Se fosse processado internamente essa soja renderia 9,5 bilhões de litros de óleo – o bastante para garantir o crescimento do mercado. “Tem a oportunidade de uma parte maior desse grão ficar no país e agregar valor aqui gerando um novo ciclo de estímulo à indústria esmagadora”, defende. Ele garante que o impacto nas contas externas do país seria amenizado graças ao aumento no potencial de exportação de farelo de soja que tem maior valor agregado do que o da soja in natura. 

“A gente teria ganho no valor agregado”, completa. Acrescenta ainda que a mudança no perfil de exportação aumentaria as receitas externas do complexo soja em US$ 4 bilhões por ano. Especialmente se levarmos em conta que o biodiesel fabricado internamente deslocaria parte das importações de óleo diesel.

Mesmo sem mexer nas exportações de soja, há uma boa margem de manobra. Segundo ele, hoje, a produção de biodiesel absorve 29% da produção nacional de óleo de soja. Outros 47% seguem para o mercado de alimentação e 24% são exportados – se as exportações fossem desviadas para o mercado interno já seria possível aumentar a produção de biodiesel em 2,2 bilhões de litros. 

O aumento também teria impactos positivos sobre o sebo bovino. Marcos lembrou que, antes do biodiesel, a gordura animal era um resíduo que acabava virando um passivo ambiental. “Hoje, o sebo tem valor referenciado no preço do óleo de soja. Em 2014, vamos consumir mais de 615 mil toneladas de sebo”, comemorou relativizando que a profissionalização no setor de sebo bovino ainda é muito irregular no território brasileiro. “Tem lugares onde o sebo ainda é um passivo. Em Manaus, por exemplo, não tem colocação para o sebo”, pontua. Ressaltou também o potencial da indústria do biodiesel em catalisar outras atividades virtuosas como a coleta dos óleos de fritura usados.

Dados da ANP mostram que entre 2010 e 2013, a produção de biodiesel a partir de óleo de gorduras pós-consumo se multiplicaram por 5. No final de 2013 mais de 25 milhões de litros de biodiesel já estavam sendo produzidos a partir de óleo reciclado.

E essas, segundo Marcos, são apenas duas matérias-primas promissoras. Embora ainda não estejam sendo convertida em biodiesel, Marcos lembrou que há uma série de investimentos na produção de palma-de-óleo no Brasil tocados pela Vale, pela Petrobras Biocombustível e pela Palmaplan – subsidiária do Grupo Oleoplan controlado por sua própria família. 

Embora ainda mais distantes, ele lembrou ainda do potencial das microalgas, pinhão-manso, macaúba e dos recentes avanços na biologia sintética.

Produção 
Segundo Marcos, uma maior previsibilidade na demanda poderia destravar novos investimentos na capacidade produtiva gerando ciclo virtuoso para o setor. Segundo as projeções da Ubrabio, o cenário de aumento da demanda para 9,5 bilhões de litros ao ano desencadearia investimentos que elevariam a capacidade instalada da indústria dos atuais 7,75 bilhões para mais de 13 bilhões de litros por ano. Com isso, a ociosidade da indústria que, atualmente, ronda os 60% cairia para próximo dos 30% em 2018.

“Havendo previsibilidade o empresário voltaria a investir”, garante. Contudo, no debate subsequente, Marcos ressaltou que essa retomada nos investimentos está relacionada à adoção dos pleitos da Ubrabio. Sozinho, o B7 não conseguiria destravar o crescimento. “O B7 recompõe a viabilidade do negócio”, diz acrescentando, no entanto, que o setor corre o risco de voltar a ter problemas se a mistura ficar represada em 7% durante muito tempo.

Paradigma
Em sua argumentação, Marcos também lembrou que aumentar a aposta no biodiesel ajudaria também na transição rumo a uma matriz energética mais limpa. “O petróleo tem inviabilizado as fontes renováveis, precisamos de uma decisão política que viabilize essa aposta”, destacou. Notou que, apesar se sair mais barato nas bombas, os combustíveis fósseis têm externalidades negativas importantes do ponto de vista da saúde pública, acidentes ambientais graves, aumenta nossa dependência externa e resulta em mudanças climáticas perigosas.

Para Marcos, se quisermos evitar que aconteça o pior precisaremos redobrar os esforços. O palestrante reforçou o alerta feito pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) que, em seu mais recente relatório, recomendou que as emissões de gases do efeito estufa sejam cortadas pela metade até 2050 e zeradas até 2100. “O biodiesel emite 70% menos gases de efeito estufa em sua produção. O B7 emite 5% menos gases de efeito estufa que o diesel puro”, dispara.

Ele também destaca que recentemente a Organização Mundial de Saúde (OMS) elevou o grau de alerta sobre os poluentes emitidos com a queima do diesel. “Eles foram de potenciais causadores de câncer para causadores de câncer”, destaca. Um recente estudo indicou que, nos últimos 6 anos, as cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro registraram 135 mil mortes por problemas de saúde relacionados à poluição do ar.

Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com
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