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Os EUA deveriam liderar as energias renováveis

Depois do 11 Setembro, o Governo Bush desperdiçou a oportunidade de levar adiante uma verdadeiramente séria política energética para nos encaminhar pela estrada de uma maior independência energética;
Revista Eco21 - Hillary Clinton 15 min de leitura
por Hillary Clinton, senadora dos EUA.

A dependência do petróleo externo ameaça a economia dos EUA e enfraquece a nossa segurança nacional.  A importação de petróleo soma um terço de nosso déficit comercial.  Para garantir o fluxo de petróleo vindo do Oriente Médio, gastamos $50 bilhões por ano enviando tropas ao Golfo Pérsico e dando assistência militar aos países dessa região.  Isto não inclui as vidas e os dólares que estamos gastando no Iraque.

Se tudo isto não fosse suficiente, a nossa dependência do petróleo está acelerando as ameaças provocadas pelas mudanças climáticas globais.  A produção de energia e seu uso no transporte geram mais de três quartos das emissões de gases Efeito Estufa dos EUA.  Está claro, então, que temos que arregaçar as mangas e achar uma solução.

O país que colocou o Homem na Lua pode ser líder na busca de novas formas de energia mais limpa.  Nossa nação precisa disto.  Nosso Planeta precisa disto.  Os resultados não irão somente encher os tanques de nossos carros, eles irão encher o tanque de nossa economia e estimular potencialmente milhões de novos empregos.  A revolução da energia pode ser tão grande e importante quanto a Revolução Industrial e a explosão da Era da Informação.  E eu acredito que com os investimentos certos e incentivos, os EUA podem liderar esta revolução.

As mais inteligentes empresas estadunidenses já estão liderando em tecnologia energética e eficiência, e gerando lucro!  No Estado de Nova Iorque, corporações como a Corning e a IBM são lideres mundiais em economia de energia e dinheiro.

Em apenas um ano a IBM cortou seu consumo de energia em 7% e economizou $38 milhões.  Se a demanda por eficiência e energia alternativa for alta, esta será encontrada.  A GE espera que a tecnologia das energias limpas seja lucrativa nesses próximos anos.  A Ford anunciou recentemente que aumentaria sua capacidade de produção híbrida para 250.000 carros no ano 2010.  Finalmente, NY é um centro para a indústria da pilha combustível graças ao trabalho de empresas como a Plug Power, GM, Delphi e Kodak.  Mais de 90% dos estadunidenses querem carros mais limpos para dirigir e eles querem que o Governo os ajude para que isso aconteça.

Mais de 85% querem investimentos em energia solar, eólica e outras formas renováveis de energia.  Eles querem que os EUA liderem o caminho, não que fique atrás.  No Congresso temos trabalhado no sentido de levar adiante propostas para um futuro energético melhor.  Aprovamos - apesar de não ser tanto quanto gostaríamos - um padrão de 10% de energia renovável no Senado, mas a Casa Branca rejeitou o projeto.

Depois do 11 Setembro, o Governo Bush desperdiçou a oportunidade de levar adiante uma verdadeiramente séria política energética para nos encaminhar pela estrada de uma maior independência energética; em vez disso o Governo fez o contrário: forçou uma política com alguns pontos certos, mas que ignora amplamente as difíceis questões enquanto entrega favores a empresas petroleiras e outras.  Tanto o Katrina quanto o Rita mostraram o que propõe a política do Governo Bush: usar um guarda-chuva para se proteger do furacão.  Desde a discutível capacidade de nossas refinarias até as listas de espera contadas em meses para adquirir novos carros híbridos e painéis solares, o problema central é claro: nossa nação sofre de falta de investimentos e de imaginação em ambos os setores: público e privado que conduzam para um futuro energético estratégico.

O nosso mercado energético está quebrado.  No coração do mercado do petróleo cru está instalado um cartel comandado por um punhado de países, e uma cadeia de suprimento global comandado por um punhado de companhias.  O mercado está certamente funcionando para as empresas de petróleo.  Em 2004, as dez maiores companhias petroleiras do mundo obtiveram lucros de $100 bilhões.  Em 2005, os lucros foram ainda maiores.  A verdade é que as políticas atuais de Washington são nitidamente inadequadas para a crise de longo prazo que enfrentamos.  E o mercado, assim como está atualmente estruturado, é inadequado para produzir investimentos em novas tecnologias que nós, e o resto do mundo, precisamos.

Penso num plano para garantir que nós reinvistamos a grande drenagem que os altos preços de energia estão exigindo das famílias de classe média e da economia, num futuro energético melhor.  Não acredito que os consumidores devam pagar por isso com impostos sobre a energia ou que nós devemos deixar o mercado agir por si só.  A estratégia que proponho é solicitar às companhias de petróleo que obtiveram esse surpreendente lucro a reinvesti-lo em nosso futuro energético para reduzir a dependência do petróleo.

Essas empresas passariam a contribuir com o "Fundo Estratégico de Energia", o qual incentiva empresas ou consumidores que queiram ser parte da solução para a nossa energia.

Precisamos estipular às petroleiras um imposto de desenvolvimento de energia alternativa, a ser depositado nesse "Fundo".  Devemos fazer com que essa taxa seja usada somente fora dos lucros não-antecipados dos elevadíssimos preços do petróleo e garantir que não seja repassada aos consumidores.  Ela pode gerar mais de US$ 20 bilhões por ano para ajudar a remodelar nossa economia e desenvolver novas energias estratégicas.  A usaremos para fazer com que os poluidores paguem sua limpeza através do Superfundo.

Precisamos que as empresas de petróleo dividam a responsabilidade de tirar os EUA da crise energética.  Não é um novo imposto para o consumidor, é o redirecionamento do imposto "escondido" que a classe média já paga para a OPEC e para as empresas petroleiras sob a forma de preços elevados e aproveitá-lo para assegurar o futuro de nossa energia.  Tal medida pode ser temporária, durando apenas até que se tenha dado o pontapé inicial para o mercado de energia alternativa que nós todos sabemos que existe.  A British Petroleum e a Shell já estão dando passos corajosos nessa direção.  Mas, as empresas petroleiras, no nosso país, nos transformaram no maior consumidor de energia do mundo e no maior emissor de gases de Efeito Estufa.

O "Fundo Estratégico de Energia" ajudará os consumidores a arcar com os custos de energia que hoje estão em disparada; promoverá a adoção entre a já existente energia limpa e as tecnologias de conservação e estimulará a pesquisa e o investimento pelo setor privado para permitir o crescimento da nova geração das tecnologias energéticas.  No curto prazo, entretanto, milhões de consumidores precisarão de ajuda para pagar suas contas de energia neste inverno.  O preço do gás natural triplicou em 12 meses.  Famílias do Nordeste e Centro-Oeste que dependem de óleo para aquecer suas casas podem esperar um gasto de 30 a 40% maior em aquecimento neste inverno.  Famílias do Oeste e do Sul, que dependem de eletricidade para aquecimento, podem esperar pagar até 49% a mais.

Mas o problema é que as nossas casas e negócios não são tão suficientes em energia como poderiam e deveriam ser.  O Presidente Bush pede que os estadunidenses conservem energia.  Conservação, usando simplesmente menos energia, é importante.  Porém, ser mais eficiente em energia - ter mais usando menos energia - é muito mais importante.  Temos uma oportunidade para forçar uma energia eficiente nos próximos anos, e nós devemos fazer isso.

Os estadunidenses precisam de ajuda para descobrir como podem usar energia mais eficientemente e o Presidente deve financiar o custo dos programas atraindo o setor privado.  Apenas para dar um simples exemplo, porque não pedimos às empresas petroleiras que coloquem placas em seus postos de gasolina para encorajar as pessoas a manterem seus pneus adequadamente cheios?  A maioria dos motoristas não o faz, o que poderia economizar combustível em mais de 3% em media.  O Governo, o setor privado e as ONGs poderiam montar uma campanha efetiva para promover a eficiência energética e nós devemos cumprir esta tarefa com urgência.

Para isso menciono três prioridades: ter carros mais eficientes nas estradas; adotar tecnologias alternativas já existentes e que sabemos que serão aceitas e arcáveis no mercado, e iniciar a nossa pesquisa tecnológica para reconquistar a liderança de mercado.  Primeiro devemos tratar do transporte que consome 70% do combustível.  Colocar outra substancia diferente da gasolina nos tanques é a chave para reduzir a dependência em petróleo.  Embora esse fato seja claro, estamos num impasse político há 20 anos sem saber como resolver o problema.  A eficiência do combustível dos carros e caminhões leves estadunidenses está no seu nível mais baixo.  Queremos manter os nossos fabricantes de carros e os bem-pagos empregos das fabricas.  Queremos carros híbridos, a diesel limpo e a nova geração de carros com combustível eficiente a serem construídos aqui nos EUA.  Também sabemos dos altos custos dos fabricantes, o que torna difícil o reinvestimento em remodelamento de suas fabricas.  É hora de a Administração Bush mostrar a sua liderança.

A Administração Clinton convocou os fabricantes de carros numa "Parceria para a Nova Geração de Veículos" para trabalharem numa estratégia coordenada de curto ou longo prazo para aumentar a economia do combustível.

Fizemos algum progresso, mas muito trabalho ainda se mantém parado.  Por isso chamei o Presidente George W. Bush para convidar os fabricantes de carro e provedores para uma cúpula na Casa Branca.  Ele deve descobrir o que eles precisam para fazer real progresso nos veículos de energia eficiente e prometer provê-los disso.  As idéias estão aí, como oferecer aos fabricantes alívio no legado de saúde e custos de pensão em troca do comprometimento na produção de carros mais eficientes, pesquisa acelerada e dar treinamento aos funcionários.

Obter mais quilômetros por litro é o ponto mais importante para diminuir a nossa dependência do petróleo.  Podemos também substituir a gasolina e o diesel por etanol e biodiesel.  Uma vez que só os Estados do Centro-Oeste obtém tal recurso, essa indústria está se expandindo para outras direções.  Etanol e biodiesel já estão alterando a nossa economia rural.  Um compromisso sério com esses combustíveis alternativos poderia ajudar a nossa independência e liderar um renascimento da área rural dos Estados Unidos.  Perto de Nova Iorque, empresários estão planejando converter uma cervejaria ociosa numa fábrica integrada de biocombustiveis que produzirão ambos, etanol e biodiesel.

Quando estiver funcionando, será a maior fabrica de etanol do NE, produzindo 450 milhões de litros por ano de etanol, e 22 milhões de litros por ano de biodiesel.  A fábrica começará a fazer etanol a partir do milho, mas planeja trocar para etanol celulósico a partir de árvores de crescimento rápido.  Esse é exatamente o tipo de projeto que devemos patrocinar, e o Presidente deve prover fundos para os programas de biodiesel na conta de energia que ele assinou como Lei.

Na medida em que expandirmos a nossa capacidade de produção de biodiesel, também precisaremos de mais veículos de combustível flexível que possam queimar 85% de misturas de etanol.  Atualmente temos cerca de 5 milhões desses carros nas estradas, mas poderíamos facilmente ter mais.  O custo da transferência de tecnologia por veiculo é baixo: US$ 100 ou menos.

Os benefícios potenciais são enormes, particularmente quando combinados com a tecnologia híbrida.  Um híbrido com consumo de 21 km/litro está efetivamente aproveitando mais de 127 km por cada litro de gasolina no tanque.  A indústria deveria acelerar a produção de tecnologia de combustível flexível para que em 5 anos todos os novos carros sejam de combustível flexível.

Nós também temos uma crise de gás natural em nossas mãos.  A maneira mais rápida de sair dessa crise é reduzir a demanda de gás natural através da eficiência crescente.  Também significa que devemos nos esforçar em ter uma geração de energia proveniente de outras fontes, como carvão limpo e sistemas renováveis.  Devemos adotar o uso de energia mais eficiente em equipamentos de geração de energia, aparelhos domésticos, motores industriais, e aparelhos de ar condicionado em prédios novos e já existentes.

Se cada casa estadunidense trocar suas lâmpadas incandescentes por lâmpadas compactas e fluorescentes, que duram dez vezes mais e consomem um terço de eletricidade, a energia que usamos para iluminação seria cortada pela metade.

Mesmo com os altos custos das lâmpadas de luz eficiente, os consumidores economizariam de 25 a 40% por ano.  Também deveríamos maximizar outras fonte de calor e energia, como o metano capturado dos pântanos ou aterros sanitários e usar as grandes vantagens da geotérmica.  A cidade de Auburn, Nova Iorque, converteu sua Prefeitura - um prédio histórico - para geotermal.  A economia dos custos possibilitou a instalação de um sistema de ar condicionado e mesmo assim, diminuíram as suas contas de aquecimento e resfriamento.

Podemos fazer muito mais para usar energia solar e eólica.  Em NY, estamos construindo a maior fazenda eólica do NE, um projeto de 300 megawatts.

A Alemanha produz 12.000 megawwatts de energia eólica, 2 vezes mais que o total dos EUA.  A Dinamarca já tem 18% de sua eletricidade através do vento.  Por causa de avanços na engenharia, alguns contratos recentes de energia eólica são assinados a 3 centavos por KW/hora, mais barato que nuclear, carvão, e até mesmo de gás natural.  Se dobramos a nossa capacidade eólica a cada ano durante 7 anos, o vento produzirá 650.000 MW de energia tornando-se a fonte mais importante de eletricidade.  O investimento requer, mais ou menos, 90 bilhões de dólares por ano, menos que a metade do que os estadunidenses gastam por ano em gasolina.  Podemos fazer isso e mais ainda se pensarmos que a capacidade de geração de energia eólica está aumentando 30% ao ano.

Painéis solares instalados em prédios também têm um enorme potencial de crescimento.  Hoje, geramos 32 MW de eletricidade solar, menos do que a metade do Japão hoje.  Meu marido (o ex-presidente Bill Clinton) instalou cerca de 300 painéis solares na biblioteca de sua Fundação, cortando as despesas de energia num terço.  Atualmente, a energia solar é mais cara do que a eólica e do que a carbonífera, mas os preços caem 20% toda vez que a capacidade é dobrada.  As vendas crescem 30% ao ano.  Poderíamos facilmente dobrar isso, fazendo a solar tão barata quanto a eólica em pouco tempo.  Ainda mais, uma vez que as residências ou as grandes empresas e os pequenos negócios instalarem painéis solares, a energia será gratuita para o resto da vida das instalações.

Em locais de muito sol, quando a energia produzida é maior do que a necessária, as empresas de energia absorvem o excedente para colá-lo na rede e devolvem seu valor em créditos para o consumidor, quando necessário.

Evidentemente precisamos de mais incentivos para aumentar o uso de energia solar e eólica.  Elas cortarão os custos, aumentarão a nossa independência em energia e a nossa segurança nacional, além de reduzir as conseqüências do aquecimento global.

Há verdadeiramente um grande potencial a ser aproveitado.  E nós estaremos aptos a maximizar essas tecnologias em caminhos nunca antes imaginados.  Por exemplo, com o acontecimento do Katrina, podemos transformar New Orleans, e outras cidades do golfo, nas primeiras cidades verdes estadunidenses.  Para realizar isto, porém, temos que dar certeza aos nossos investidores.  Os aumentos, ano após ano, do imposto à produção não cria os incentivos que precisamos, muito pelo contrário, precisamos de um padrão de energias renováveis para obter que 20% da produção nacional provenham de recursos renováveis até 2020.

Além dos incentivos das taxas que estimulam o uso da tecnologia existente, os EUA precisam resgatar a liderança em tecnologia de ponta em energia, fundamentada em pesquisas serias do setor público.  Sabemos que os investimentos em pesquisas do setor público funcionam, foi o que nos conduziu para os Projetos Manhattam e Apollo, e a Era da Informação, da Internet ao Google e outros.

Esta é uma nação inovadora, quando nos concentramos para isso.  Somos líderes no desenvolvimento de todo tipo de tecnologia, do telefone à lâmpada elétrica, do PC às novas medicinas.  Podemos ser líderes na Revolução da Energia.  Podemos fazer isso.  Se quando o Presidente Roosevelt se deu conta da quantidade de equipamento que seria necessário para vencer a Segunda Guerra Mundial ele dissesse: "tentaremos usar o mínimo possível, vamos enviar menos equipamentos e convidar o povo estadunidense a poupar"?  É claro que assim ele nunca teria vencido a Guerra.  Mas Roosevelt convenceu os estadunidenses que todos estávamos no mesmo barco.  E o surto industrial que ele iniciou não só venceu a Guerra, como superou a Grande Depressão e gerou as bases para a próspera geração que a seguiu.  Nós temos a chance hoje para mudar o futuro da energia.  Podemos nos transformar no maior fornecedor mundial de novas tecnologias de energia, não só o maior consumidor mundial de petróleo.  E isto criará milhares de novos empregos de alta-tecnologia, o tipo de emprego que faz inveja ao resto do mundo.  Temos o know-how e os recursos.  O que precisamos é ter a vontade de criar esse futuro energético que é o melhor dos negócios para o Planeta.
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