Demanda fraca dos EUA por etanol faz Brasil buscar alternativas
O Brasil terá de encontrar outros mercados para o álcool que não o norte-americano para pelo menos repetir na próxima safra as exportações verificadas na atual temporada, que serão recordes, afirmaram corretores do setor.
Os Estados Unidos foram o principal mercado para o produto brasileiro neste ano. O petróleo mais caro e o álcool relativamente barato estimularam vários Estados dos EUA a adotarem o produto como substituto do MTBE na adição à gasolina --o MTBE foi condenado por poluir lençóis freáticos.
Mas a demanda praticamente evaporou nos últimos meses, especialmente devido à queda dos preços locais da gasolina, com a baixa nas cotações do petróleo.
Alguns corretores chegam a cogitar que os EUA poderão até exportar o combustível em 2007, inclusive para o Brasil, dependendo dos preços.
"Foi espetacular, após a alta do açúcar (no começo do ano), ver a demanda por etanol a preços inimagináveis... Mas a ressaca já veio", disse Tarcilo Rodrigues, diretor da Bioagência, empresa comercializadora de álcool.
O preço do etanol na bolsa de Chicago chegou a cerca de 4 dólares por galão e está atualmente em cerca de 1,80 dólar por galão. Com a tarifa de 0,54 centavo de dólar por galão imposto sobre o produto importado, a venda direta de álcool brasileiro para os EUA fica inviável, segundo os corretores.
Mas apesar da retração dos EUA, Rodrigues acredita ser possível manter as exportações, redirecionando produto para mercados como os da União Europeia e os do CBI (Caribbean Basin Initiative) --novas plantas de desidratação estão entrando em operação na região.
Um corretor de São Paulo concorda com a possibilidade. Contudo afirma que existem obstáculos à frente.
"A UE é um mercado possível (para 2007), mas há ameaças de medidas protecionistas. E muitas usinas brasileiras vão ter de se adaptar para atender os europeus, porque as especificações são diferentes", afirmou.
A UE exige um álcool mais concentrado, e nem todas as usinas brasileitas têm hoje condições técnicas para fornecer.
"Ou seja, o preço tem que estar compensando, senão melhor fazer o padrão brasileiro e vender aqui mesmo", acrescentou.
EXPORTAÇÕES DOS EUA?
Alguns corretores acreditam que a queda do preço da gasolina nos EUA deve desestimular a adição de álcool, já que a mistura ainda não é obrigatória. Isso poderia levar até a uma exportação de álcool dos EUA, que acabaria concorrendo no mercado internacional com o produto brasileiro.
"Se o álcool fica muito barato nos EUA, aí a mistura aumenta... houve isso temporariamente. Mas isso agora não compensa", avaliou Michael McDougall, vice-presidente da Fimat USA, que acredita na possibilidade de exportações dos EUA já em 2007.
De maio até agosto, os EUA compraram quase o dobro do volume de álcool brasileiro adquirido em toda a safra 2005/06, quando já haviam sido o principal destino.
As vendas para os EUA em todo o ano comercial passado (maio/05-abril/06) somaram 427,5 milhões de litros, ante 878,7 milhões de maio até agosto de 2006.
O Brasil exportou 2,5 bilhões de litros de álcool em 2005/06 e pretende embarcar cerca de 2,9 bilhões em 2006/07.
"Para a próxima safra, temos de buscar uma manutenção deste volume", disse Rodrigues, da Bioagência.
Ele ressaltou que também a Petrobras está trabalhando em parcerias com Nigéria e Venezuela, que podem render frutos já em 2007, além das conversas que a estatal mantém há anos com o Japão.
Rodrigues não acredita em exportações dos EUA para o próximo ano.
"Hoje você ainda tem como manobrar a demanda nos EUA. Antes de exportar a preço baixo, você tem como aumentar a demanda... novos Estados podem misturar, pode aumentar a mistura", disse.
"Existe uma produção grande chegando (nos EUA), mas existe um potencial que está na mão do próprio governo norte-americano", acrescentando que a situação é diferente no Brasil, que já tem um amplo mercado interno.
Por Inaê Riveras


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