A conquista da autonomia
Arrancada do fundo do mar à custa de bilhões de dólares e décadas de trabalho duro, a auto-suficiência brasileira em petróleo deve ser oficialmente anunciada nesta semana.
Tornar-se auto-suficiente significa extrair no país uma quantidade de petróleo igual ou maior do que a consumida em combustíveis e derivados. Nesta semana, a plataforma P-50 entra em operação e vai assegurar produção superior a 1,8 milhão de barris ao dia. Importante em qualquer fase, a façanha ganha relevo por ocorrer no momento em que os preços internacionais do óleo desafiam recordes históricos.
A seguir neste especial você verá:
- Porque a auto-sufiência não terá muito impacto em nossas vidas.
- A produção da petrobrás desde a década de 50
- Crise do gás
- Críticas aos atuais preços da gasolina
- As alternativas ao petróleo
- Entrevista com o presidente da Petrobrás
Auto-suficiência na melhor hora
A conquista da autonomiaO jornal Zero Hora mostra como o Brasil chega à auto-suficiência do petróleo e como se prepara para enfrentar um mundo com menos óleo.
Arrancada do fundo do mar à custa de bilhões de dólares e décadas de trabalho duro, a auto-suficiência brasileira em petróleo deve ser oficialmente anunciada nesta semana.
Ainda que mude pouco o dia-a-dia dos brasileiros, a conquista é histórica.
Tornar-se auto-suficiente significa extrair no país uma quantidade de petróleo igual ou maior do que a consumida em combustíveis e derivados. Nesta semana, a plataforma P-50 entra em operação e vai assegurar produção superior a 1,8 milhão de barris ao dia. Importante em qualquer fase, a façanha ganha relevo por ocorrer no momento em que os preços internacionais do óleo desafiam recordes históricos.
- Ser auto-suficiente com petróleo a US$ 70 é melhor do que com a cotação em US$ 20. O país dispõe de uma riqueza que vale muito - destaca Jean Paul Prates, diretor da Expetro e um dos mais reconhecidos especialistas do setor no país.
Ao exportar mais petróleo do que importa, ressalta Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura, o país ganha controle sobre a inflação, facilidade para gerar superávit primário e capacidade para absorver choques passageiros de preço.
- Se o barril chegar aos US$ 100, não precisaremos gastar nossas reservas para manter o país funcionando, como nos anos 80 - lembra.
Mas não significa que se poderá esbaldar nas bombas de combustível. A conta do abastecimento, diz Eli Pellin, pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), dependerá da política do governo. Um preceito das economias de mercado reza que o preço interno deve acompanhar a oscilação externa.
- Vamos ter gasolina à vontade, mas talvez não no preço que gostaríamos - resume.
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Especialista rechaça queda de preço por motivo eleitoreiro
Com custos médios de extração de um barril de petróleo na faixa de US$ 15 e preços internacionais superiores a US$ 65, a Petrobras tem um lucro polpudo na operação. Como vai produzir quase 2 milhões de barris por dia, não poderia usar essa folga para aliviar o bolso do cidadão?
- É a pior coisa que poderia acontecer se, por motivos eleitoreiros, o governo reduzir o preço da gasolina - reage Giuseppe Bacoccoli, pesquisador da Coppe e ex-funcionário da Petrobras.
Num cálculo simplificado, projeta Bacoccoli, o consumo nacional de 1 bilhão de barris ao ano representaria desbaste de 10% das reservas:
- Sem a manutenção do nível de exploração, que precisa de investimento, vamos exaurir as reservas.
A política de preços aplicada pela Petrobras tem provocado confusão. Embora em tese esteja conectada com a cotação internacional, no ano passado a estatal não repassou a alta para os preços internos.
- A estratégia não está clara, é a pior situação. Para o mercado e para o consumidor, o melhor é a certeza - critica Pellin.
O pesquisador da Fipe explica que a flutuação interna é um instrumento de defesa para a preocupação de Bacoccoli com as reservas:
- O preço é um bom conservacionista. Se há desequilíbrio entre oferta e demanda, a alta do preço desestimula o consumo.
Prates considera legítima a preocupação de não assustar o consumidor, reajustando a cada recorde.
- Nesse caso, é importante deixar claro que está usando uma política artificial. Hoje, a Petrobras faz isso, sem soluções ou mecanismos para se livrar do ônus dessa política.
Permitir a flutuação da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico seria a saída, indica. Em vez de um valor fixo, como é hoje, o tributo baixaria quando as cotações subissem para se recompor quando caíssem. Além de apontar um caminho mais seguro para investidores, a medida poderia ajudar a desenvolver o refino, um ponto sensível na maioridade brasileira em petróleo.
| Marcas de cada década |
| A produção diária da Petrobras, em barris: |
| 1954 - 2.662,9 Anos 50 - 65 mil Anos 60 - 100 mil Anos 70 - 150 mil Anos 80 - 500 mil Anos 90 - 1 milhão Em 2006 - 1,85 milhão |
Campanha polêmica nas comemorações
Embalada por uma campanha de R$ 37 milhões, com participação da agência de Duda Mendonça, a auto-suficiência expôs o governo a novas críticas, entre as quais a de que queria monopolizar o mérito. Segundo Jean Paul Prates, diretor da Expetro, a antecipação da data da conquista, projetada para 2008/2009, ocorreu no lado do consumo:- Houve forte desaceleração em 2001, que ainda não recuperamos. O que trouxe a auto-suficiência para 2006, infelizmente para o setor, não é uma coisa tão alvissareira.
Após participar do cinqüentenário da Petrobras, o ex-funcionário Giuseppe Bacoccoli teme a badalação:
- A Petrobras gastou demais com os 50 anos. Teve espetáculo no Municipal no Rio e, depois, festa no Museu de Belas Artes, em frente. Colocaram um tapete vermelho para cruzar a rua. Fiquei chocado.
Dependência de gás é desafio
Enquanto festeja a auto-suficiência na produção de petróleo, o Brasil atravessa uma crise no gás natural. A Bolívia responde por 48% do abastecimento interno. Até um plano de racionamento foi preparado, abortado na undécima hora.
- Metade do gás que o Brasil consome vem do Exterior e, pior ainda, do mesmo lugar. Deveríamos ter cuidado melhor disso, e me incluo como responsável, como ex-gerente de exploração - diz Giuseppe Bacoccoli, atualmente pesquisador da Coppe.
Menos severo, Jean Paul Prates, diretor da Expetro, descarta erros de cálculo na questão:
- Apostamos na dependência crendo que o país vizinho teria maturidade. Acredito que não chegará a radicalizar. Em algum momento, vai perceber que, ao cassar o investimento privado, não terá recursos para desenvolver nada.
Embora admita certa "decepção" com o comportamento do governo boliviano, em que vê "retrocessos revisionistas", Prates ainda considera possível uma negociação que distribua melhor os ganhos com a exploração do combustível.
Na avaliação de Prates, o Brasil respeitou o cenário de dificuldades políticas com "paciência de Jó". Ainda que aposte numa solução "fora dos palanques", orientada pelos objetivos econômicos, o diretor da Expetro destaca que não se pode patinar na incerteza.
- Aí, não haverá outra saída se não postergar os planos de implantação do gás na matriz energética brasileira - projeta.
Ainda assim, diante do caos que essa situação criará, acredita que a Bolívia não tardará mais de 12 meses em voltar atrás. Para desenvolver as reservas descobertas em 2004 na Bacia de Santos, pondera Prates, precisa tempo.
- A Petrobras conversa com outras empresas, como a Repsol e a Shell. É uma tentativa de juntar financiamento e tecnologia para acelerar o máximo possível. Não deixa de ser um bom back up (amparo) para esperar que a situação política na Bolívia se equacione.
O petróleo é nosso
MARÇAL ALVES LEITEA autonomia na exploração do petróleo confrontou "nacionalistas" e "entreguistas" durante seis anos até culminar com a criação da Petrobras. Em boa parte, foi provocada pela campanha O Petróleo é Nosso, que pedia uma estatal para explorar as reservas do país.
- A participação popular no debate foi tão grande como na mobilização das Diretas Já, em 1984 - compara o coronel da reserva Pedro de Arbues Martins Alvarez, que participou da campanha.
Alvarez, atualmente com 87 anos, chegou a ser preso em Santana do Livramento, onde nasceu e servia, na época, como aspirante oficial no 7º Regimento de Cavalaria de Infantaria, depois de uma palestra sobre o movimento. Acabou sendo apenas repreendido. Estudantes e operários, principalmente os ferroviários, eram os grupos com maior força na campanha, lembra.
O militar chegou a ser eleito suplente de deputado estadual. Cassado pela ditadura militar, ficou exilado durante 14 meses em Montevidéu, retornando ao Brasil disfarçado com uma peruca comprada pelo ex-presidente João Goulart.
- A auto-suficiência é a mostra de que valeu ter enfrentado as classes dominantes, mas não há razão para a estatal manter os preços dos combustíveis tão elevados, como se ainda dependesse de importações. Todos os brasileiros precisam ser favorecidos - defende.
No azul profundo
O mergulho do Brasil à caça da auto-suficiência tem conexões com a campanha O Petróleo é Nosso, nos anos 50, mas só se transformou em meta perseguida com tenacidade depois do segundo choque do petróleo, em 1979.- O primeiro choque não foi levado muito a sério - relata Giuseppe Bacoccoli, ex-gerente da Petrobras.
Na época, o preço do petróleo triplicou do dia para a noite, levando o Brasil ao aprofundamento da dívida externa para não ficar sem energia. Três providências foram tomadas: a criação do Proálcool, a duplicação dos investimentos em exploração e produção no Brasil e o aumento da prospecção no Exterior.
- Houve críticas, se dizia que petróleo não é como chuchu. Só deu certo porque tínhamos uma Bacia de Campos novinha nas mãos. A auto-suficiência nasceu ali, nos campos de águas profundas - conta Bacoccoli.
Notáveis, os números falam por si. Em 1979, o Brasil produzia 14% do petróleo que consumia. Em 1985, havia chegado à metade.
- Os méritos são da persistência e da tenacidade do pessoal de produção e exploração do Brasil, um dos poucos países subdesenvolvidos que domina essa tecnologia - entusiasma-se Bacoccoli.
No dia da festa, a abertura de um prosecco
Perfurar o solo submarino em profundidades que chegam a 2 mil metros, encontrar petróleo e conseguir instalar nessas condições uma estrutura que permita fazer a extração com segurança e eficiência é motivo de orgulho para brasileiros e para todos que participaram dessa história.
Nascido na Itália, Bacoccoli planeja abrir um prosecco - espumante típico do seu país - no dia do anúncio da conquista.
Alternativas ao petróleo - Plantando combustível
A conquista da autonomia: o jornal Zero Hora do RS, mostrou a busca do país por novas alternativas de energia. veja a seguir:por MARTA SFREDO
Projeções de que as reservas de petróleo se esgotariam em todo o mundo em poucas décadas não são novas. Até agora, todas foram ultrapassadas por novas descobertas.
Mesmo assim, a consciência de que um dia os poços vão secar, a cotação que não pára de subir e a necessidade de reduzir danos ambientais se combinam para estimular a busca por um substituto do petróleo. E também nesse caminho, o Brasil avançou muito.
- Sem ufanismo, o Brasil está bem posicionado no desenvolvimento de combustíveis alternativos, até porque esse setor transita bem com pouca intervenção. Conseguimos equacionar a auto-suficiência em petróleo e somos líderes em tecnologia de produto e de uso - destaca Jean Paul Prates, diretor da Expetro.
Com o etanol brasileiro disputado pelo governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, e pelos japoneses, os carros multicombustível invadindo as ruas e o biodiesel ganhando corpo, o país ganhou respeito também nessa área.
- Poucos países têm o potencial do Brasil, com grande área agricultável para plantar combustível - diz Prates, brincando com o novo destino de cultivos como mamona, dendê, girassol, babaçu, soja e amendoim.
Mesmo contando com o entusiasmo de especialistas em energia, o programa do biodiesel está longe da unanimidade. Admitindo que suas restrições podem ser atribuídas à sua condição de "petroleiro velho de guerra", Giuseppe Bacoccoli, pesquisador da Coppe, pondera:
- O álcool parece ter provado sua competitividade, mas não o biodiesel. Comparam seu custo de produção com o preço do petróleo, dizendo que o petróleo a US$ 70 torna viável a produção de biocombustíveis.
Para Bacoccoli, é preciso tomar o custo de produção de um barril de petróleo sem tributação, participações especiais e royalties e compará-lo com o biodiesel. O pesquisador adverte que a maioria dos óleos vegetais, como soja e girassol, têm um mercado tradicional que lhes assegura valor mais alto:
- Ainda é melhor negócio vender como comestíveis do que como combustíveis. É pena queimar dentro de motores um produto que no mercado alimentício tem valor alto.
Mesmo que seja necessário avançar na redução de custo, a pesquisa com biodiesel literalmente planta as sementes para um futuro ainda mais autônomo em energia para o Brasil.
- Se o país souber manter esse linha, pode ser um grande provedor e exportador de energias baseadas em tecnologias renováveis - diz Prates.
Abastecimento depende do refino
Mesmo com a auto-suficiência garantida, o Brasil continuará a importar petróleo. Como o óleo extraído no país é do tipo pesado, que exige um processo mais complexo para se transformar em gasolina e diesel, as refinarias seguem precisando de uma parcela de produto leve para equilibrar sua operação e abastecer os motoristas brasileiros.
Na semana passada, o presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, admitiu preocupação com um déficit de refino que o Brasil poderá ter em 2010, se novos projetos não forem realizados. Nos últimos anos, a Petrobras investiu pesado na conversão do parque de refino nacional - um exemplo é a ampliação de US$ 1,1 bilhão da Refap SA, de Canoas.
Além de aumentar em 50% a capacidade de processamento da refinaria gaúcha, a obra permitirá inverter a relação atual de 80% de óleo leve e 20% de óleo pesado. A partir de julho, a Refap estará pronta para usar 80% de pesado, reduzindo a dependência de óleo leve para 20%.
Anunciada em 2000, a mega-obra só estará com toda sua capacidade de produção disponível em agosto. A demora e os atrasos acabaram gerando boatos e desconfianças de que a ampliação tenha trazido problemas para a refinaria, que tem 30% de participação da espanhola Repsol.
- A luta para ter preço competitivo nas contratações muitas vezes nos custou prazo, acabamos sacrificando um pouco o cronograma por conta disso - explica o presidente da Refap SA, Hildo Henz.
Obras em Canoas estão na fase final
Segundo o executivo, o que inflou o valor final foi principalmente o custo em reais, porque tem de ser corrigido pela inflação e novamente transformado em dólares. Com a conclusão, a capacidade da Refap saltará de de 20 milhões para 30 milhões de litros ao dia. Além de unidades especiais para processar o petróleo pesado, explica Henz, foi necessário um cuidado extra com os equipamentos, porque o óleo nacional também é mais ácido.
- As obras estão na fase final. Montagem de tubulação praticamente não tem mais. Boa parte do pessoal que trabalha aqui está envolvido com isolamento e pintura, ou seja, acabamento mesmo - afirma.
Refap exporta gasolina
Desde que o projeto da Refap foi concebido, o mercado mudou muito, admite o presidente da refinaria, Hildo Henz. Estava previsto um excedente de óleo diesel, mas a produção de gasolina deveria ficar perto do consumo do Estado. Com o aumento do preço e da participação do álcool, a capacidade final de gasolina da Refap ficará acima das necessidades. Por isso, a empresa busca no Exterior mercados para o produto.
- Para isso, todo o nosso sistema logístico está sendo modificado, com mais US$ 50 milhões de investimentos da Transpetro para alterar o sistema de dutos e de tancagem, no terminal marítimo e na Refap. Isso só estará pronto em fevereiro de 2007. Até lá, a Refap não conseguirá operar a plena carga. Vamos ficar entre 85% e 90% - prevê Henz.
Na reta final, a Refap parou uma de suas unidades de destilação por 60 dias - quase três vezes a duração da manutenção normal. Por isso, a ampliação só estará operando com todas as unidades em agosto. A última será a de coqueamento retardado, que transforma em diesel 40% do que seria usado como óleo combustível, menos nobre.
- Estamos entrando em operação no momento em que o refino no mundo ficou na ordem do dia. Os acionistas da Refap vão ficar felizes - assegura Henz, rebatendo dúvidas sobre a oportunidade da ampliação.
Entrevista com o Presidente da Petrobrás
A seguir veja a entrevista concedida ao jornal Folha de S. Paulo:
Para José Sérgio Gabrielli, companhia não pode descolar seus valores de petróleo do mercado internacional
Auto-suficiência não muda preço, diz Petrobras
PEDRO SOARES
O presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, 55, afirma que a auto-suficiência em petróleo, a ser atingida na sexta-feira, reduz a vulnerabilidade brasileira no mercado de petróleo, regulado pela força do dinheiro e até pela força militar. "Ser auto-suficiente é tornar o país menos vulnerável a esse cenário de dificuldades de fornecimento de um insumo básico do crescimento", declarou em entrevista à Folha.
Gabrielli diz que, de imediato, nada muda na política de preços da companhia. Ele descartou o reajuste dos combustíveis no curto prazo. "A Petrobras não vai fazer ajuste pontual no mercado brasileiro." E justamente ontem o petróleo fechou cotado a US$ 70,40 em Nova York, encerrando pela primeira vez um pregão acima de US$ 70 o barril desde que os contratos futuros foram lançados pela Bolsa de futuros de Nova York, a Nymex, em 1983.
Gabrielli afirmou ainda que retomou negociações com o governo boliviano -depois de um período de interrupção na tratativas e de declarações que de autoridades bolivianas que desagradaram à estatal.
Folha - Em que a auto-suficiência beneficiará a Petrobras e o país?
José Sérgio Gabrielli - A auto-suficiência é um fenômeno muito raro no mundo hoje e chega num momento muito adequado porque as perspectivas para os próximos anos apontam para uma situação no mercado de petróleo bastante difícil, com praticamente um equilíbrio entre oferta e demanda mundial. Chega num momento em que a questão da segurança energética e da perspectiva da garantia de suprimento e de fornecimento de matéria-prima para o transporte e para a [geração de] energia passam a ser dominantes na economia mundial. Os Estados Unidos são um país fortemente dependente da importação de petróleo. A expectativa é que dois terços do petróleo americano sejam importados em 2010. Para enfrentar a garantia do suprimento e a segurança energética, os países usam suas reservas de dólar, de moeda externa. É o caso da China, que tem enormes reservas decorrentes do comércio exterior e da entrada de capitais. Usam o tamanho de suas economias como forma de viabilizar a atração e a manutenção de contratos de longo prazo de fornecimento de petróleo. Usam a força militar e política. Nesse contexto é que o Brasil é auto-suficiente.
Folha - Quando o sr. fala em uso da força, refere-se aos EUA?
Gabrielli - Sim, aos Estados Unidos, claro. Continuando, ser auto-suficiente é tornar o país menos vulnerável a esse cenário de dificuldades de fornecimento de um insumo básico do crescimento [econômico]. O petróleo é um insumo básico não só para automóveis. Não é só para transporte.
Folha - E a questão do preço?
Gabrielli - O fato de o país ser auto-suficiente em petróleo não quer dizer que o preço do país é independente do do mundo. Veja café, laranja, trigo, soja, aço. O que coloca o preço independente é a economia ser fechada, não permitir importação e exportação. Não é o caso do Brasil.
Folha - Não se pode adotar no Brasil o modelo venezuelano, por exemplo, pelo qual o preço é mais baixo e não é referenciado ao mercado externo?
Gabrielli - O modelo venezuelano não é comparável porque a Venezuela destina só 15% da sua produção ao mercado doméstico e 85%, à exportação. No Brasil, é exatamente o oposto: 85% para o Brasil e 15% em vendas externas. Se ficarmos com o preço muito tempo abaixo e muito abaixo do mercado internacional, o que vai acontecer? Agentes vão comprar da Petrobras e vender no mercado externo, exportar [o petróleo e derivados produzidos pela Petrobras. Se nós não fizermos isso e mantivermos os preços altos por muito tempo, acima dos do mercado internacional, o que vai acontecer? Agentes vão importar [petróleo e derivados, mais baratos lá fora] e substituir [os produtos da Petrobras] no mercado. Portanto, no médio prazo, o mercado tende a convergir para preços internacionais.
Folha - Qual é a vantagem prática da auto-suficiência para o consumidor final?
Gabrielli - A auto-suficiência permite administrar a transmissão dos preços internacionais nos domésticos, diminuindo a volatilidade, a flutuação e a intensidade e a velocidade das flutuações [dos preços]. A economia brasileira pode ser mais estável em termos de preço. Porém não pode descolar do preço internacional.
Folha - A julgar pela oscilação atual dos preços, há necessidade de aumento neste ano eleitoral?
Gabrielli - Não é possível dizer isso. Não é possível responder a essa pergunta, mas não constitui novo patamar, não.
Folha - Mas estava a US$ 60 no ano passado, quando a Petrobras corrigiu os preços pela última vez.
Gabrielli - Nossos preços estão aqui, em US$ 68,90 [o barril, em média].
Folha - O benefício da auto-suficiência irá se irradiar para o resto da cadeia produtiva trazendo investimentos ao país?
Gabrielli - Claro, porque a garantia de suprimento é uma decisão fundamental para a decisão de investimentos. Do ponto de vista do conjunto da economia, nós temos também um grande efeito. Vamos sair de uma situação de déficit para uma situação de superávit.
Folha - Já neste ano? De quanto será o superávit?
Gabrielli - Neste ano, sim. Talvez em US$ 3 bilhões.
Folha - Quando o PT era oposição, uma das críticas era a internacionalização da Petrobras. Agora, o sr. anuncia aquisição de refinaria nos EUA e compra de ativos da Shell na América do Sul. A visão mudou depois da chegada ao poder?
Gabrielli - Não mudou. Depois de alcançar a auto-suficiência, o crescimento da companhia depende da expansão internacional. E, de fato, a Petrobras está se internacionalizando cada vez mais. A lógica é que já atingimos a capacidade de produção brasileira. Do ponte de vista interno, estamos quase no limite da capacidade de utilizar o petróleo brasileiro. Então, intensificar o refino internacional de petróleo pesado é adicionar valor à produção de petróleo passado, depois de atendido o mercado brasileiro.
Gabrielli - As negociações foram retomadas, mas não vamos falar pela imprensa.
Nacionalização deve cair em 2006
Promessa de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o conteúdo nacional nas compras da Petrobras avançou desde 2003, mas neste ano deve retroceder em razão de preços menos competitivos da indústria nacional.
Naquele ano, o percentual ficou em 57%. Passou para 62,23% em 2004. Avançou ainda mais e bateu em 70,36% em 2005 -em todos os anos, ficou em linha ou acima da meta do Prominp (Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural), instrumento de política industrial coordenado pelo Ministério de Minas e Energia com participação da Petrobras. Para 2006, entretanto, a estimativa aponta para 59,46% de compras de bens e serviços produzidos no Brasil.
Em 2003, a Petrobras passou a medir sistematicamente o conteúdo nacional (produtos com mais de 60% de componentes feitos no Brasil) em suas encomendas, provocada pela missão dada pela administração petista de rever os editais das licitações das plataformas P-51 e P-52, que passaram a exigir conteúdo local médio de 60%.
As duas unidades ajudarão a sustentar a auto-suficiência a ser alcançada neste mês, com a entrada em operação da P-50.
Para a Petrobras, o recuo está relacionado a um potencial aumento de preços detonado pelo aquecimento do setor.
"Acho até que a gente vai realizar mais [do que o previsto], mas a redução tem a ver com subida de preço, com aquecimento [da indústria do petróleo], com competitividade. Se fixarmos um conteúdo na capacidade máxima da indústria, pode gerar problema sério de competitividade. É como se fosse uma reserva de mercado", disse Pedro Barusco, diretor interino de Serviços da Petrobras.
Em valores absolutos, porém, a indústria nacional absorverá mais encomendas neste ano, já que os investimentos da Petrobras serão maiores. No ano passado, as encomendas locais somaram US$ 3,38 bilhões. Neste ano, a cifra será de R$ 5,98 bilhões.
Para os próximos anos, as previsões não ultrapassam a marca alcançada em 2005, o que surge que a capacidade da indústria de atender as encomendas encostou no limite. Barusco diz, porém, que não há um "esgotamento da capacidade de indústria", mas um limite para atender os pedidos "com competitividade".
Indagado se é papel da companhia fazer política industrial, Barusco disse: "Essa questão é complicada. Quem faz política industrial é o governo, mas seguimos uma orientação. A Petrobras é uma empresa estatal. Está no Brasil. É natural ter preferência pelo prestador de serviço nacional."
A prática, diz, já esteve presente no passado, quando plataformas chegaram a ter 90% de compras locais, mas foi "retomada" e "sistematizada" a partir de 2003.
Antes, não havia índice de conteúdo nacional. Só eram mensuradas as compras diretas da Petrobras (de menor porte que as encomendas feitas por meio de contrato de prestação de serviço) colocadas no mercado nacional, independentemente da origem do produto. Em 2002, 79% dessas compras eram no mercado interno. O número passou para 86% em 2003, manteve-se em 2004 e bateu em 89% em 2005.
Alguns especialistas dizem que as regras de conteúdo nacional podem elevar o valor dos bens e serviços. Barusco diz, no entanto, que isso não está acontecendo. "O que temos visto em alguns casos são prazos de entrega um pouco mais dilatados", afirma. Os atrasos ocorrem, segundo o executivo, por causa do grande volume.
Preços mais altos em plataformas, diz, são resultado de aumentos de preço do aço e do aquecimento da indústria do petróleo.
Contratada em 2002, a P-50 custou US$ 631 milhões -seu conteúdo nacional ficou em 35%. Já a P-52 saiu, em 2003, por R$ 976 milhões. Ambas as unidades têm capacidade de produção de 180 mil barris/dia.
Corrida de fornecedores
O pesado volume de investimentos da Petrobras -US$ 56 bilhões até 2010- já gera uma corrida de fornecedores. O número de empresas no cadastro da Onip (Organização Nacional da Indústria do Petróleo) saltou de 600 em 2002 para 1.300 neste ano. A Petrobras recebeu desde junho do ano passado pedido de registro de 1.200 prestadoras de serviço e 570 de fornecedores de materiais.
Pelos cálculos da Onip, a cada US$ 1 bilhão investido no setor há a geração de 43 mil empregos, na hipótese de um conteúdo nacional de 65%.