Brasil Ecodiesel é avaliada pelo seu valor de liquidação
A dificuldade de obtenção de crédito combinada aos vencimentos batendo à porta levou o banco de investimentos Credit Suisse a rebaixar a recomendação para as ações da Brasil Ecodiesel e a avaliar o negócio pelo seu valor de liquidação.
O preço atribuído à totalidade da empresa foi de R$ 202 milhões, equivalente a 13% do valor dado quando a empresa chegou à Bovespa, em novembro de 2006 — na época, foi avaliada em R$ 1,515 bilhão. Quem comprou a ação na oferta inicial, a R$ 12,00, viu a cotação fechar ontem em R$ 1,79.
“Nosso novo preço-alvo não está baseado em fluxo de caixa descontado, mas no valor de liquidação, o que consideramos mais apropriado diante dos desafios de curto prazo da companhia para rolar suas dívidas”, escreveu Luiz Otávio Campos sobre o preço de R$ 1,60 atribuído como justo aos papéis. Pelas contas do banco, portanto, ainda há espaço para mais 11% de queda, frente ao pregão de ontem.
No fim de março, a Brasil Ecodiesel tinha R$ 235 milhões em dívidas e R$ 5,8 milhões disponíveis. Do total devido, quase 90% vencem até março de 2009. Recentemente, já em dificuldades para conseguir capital de giro, a companhia teve de recorrer ao principal sócio e fundador do negócio, Nelson Côrtes da Silveira. Ele forneceu R$ 30 milhões à empresa. No entanto, até mesmo esse alívio tem prazo curto. A data de assinatura dos contratos é 20 de junho, com vencimento dos créditos em 60 dias. A empresa têm, portanto, mais dez dias para ver como pagará seu sócio controlador.
De acordo com fonte próxima à companhia, o Banco Fator, o mesmo que coordenou a abertura de capital, agora tem o mandato para conseguir encontrar um sócio financeiro para o negócio, de preferência um fundo de participações em empresas (private equity). O banco contribuiu, junto com Fibra e o ABN Amro, com uma pequena parte do empréstimo feito em junho pelo controlador.
O Banco Fator, além de ter interesse na manutenção da companhia por estar entre os maiores credores, também está defendendo sua imagem junto aos investidores. Questionado, o banco não quis comentar o assunto.
A companhia também preferiu não falar. Alegou, por meio de seu porta-voz, estar em período de silêncio pela proximidade da divulgação do balanço. Os números do segundo trimestre serão apresentados na próxima quinta-feira. “A Brasil Ecodiesel (...) só se pronunciará sobre o assunto após a divulgação dos mesmos”, foi a resposta encaminhada ao Valor. De janeiro a março, a empresa apresentou receita líquida de R$ 167,2 milhões e prejuízo de R$ 14,9 milhões.
No relatório, divulgado na sexta-feira, o Credit Suisse destaca que o desempenho operacional da companhia poderá melhorar no resultado do segundo trimestre. Entretanto, o foco das atenções continuará sendo a dívida. Além de sofrer com a baixa rentabilidade do negócio, a Brasil Ecodiesel enfrenta a aversão do setor financeiro a esse segmento, após dificuldades sofridas por companhias do ramo de agronegócios.
O desempenho operacional da Brasil Ecodiesel reflete a dificuldade da companhia de implantar seu projeto para biodiesel, que previa o uso de matérias-primas alternativas como mamona, girassol e pinhão-manso, entre outros. A companhia continuou dependente da soja, cujo preço disparou no mercado internacional, pois as demais fontes não se mostraram tão eficientes. Além disso, teve problemas com a Petrobras, sua principal compradora. A estatal não retirou parte substancial do produto que havia se comprometido a adquirir e a batalha foi parar na Justiça.
Graziella Valenti, de São Paulo


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