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Negócio

Com petróleo a US$ 95, mercado já se preocupa com choque maior


Valor Econômico - 22 jul 2026 - 09:34

Mais de dez dias depois do reinício das tensões entre Estados Unidos e Irã, com novos ataques no Oriente Médio, os preços do petróleo têm subido diariamente e, na sessão de ontem, ficaram acima de US$ 90 pela primeira vez desde 11 de junho. Participantes do mercado voltam a emitir alertas sobre um aumento dos riscos em torno de um petróleo ainda mais caro se a guerra continuar e já observam uma piora bem mais aguda nos derivados da commodity desde que o Estreito de Ormuz foi fechado novamente.

Ontem, na Intercontinental Exchange (ICE), o barril do Brent para setembro subiu 2,01%, a US$ 91,01, maior nível desde junho. E, na manhã desta quarta-feira, os preços já tocaram o nível de US$ 95.

Ontem, o Irã voltou a ameaçar os EUA e outros países no Oriente Médio e apontou que os vizinhos do Golfo poderiam ser alvo caso suas instalações nucleares sejam atacadas. Com o Estreito de Ormuz fechado e sem soluções à vista para o fim da guerra no curto prazo, os preços do petróleo têm voltado a subir, mesmo que a conta-gotas.

Na equipe de commodities do Goldman Sachs, liderada por Daan Struyven, a avaliação é a de que as tensões geopolíticas colocam riscos de alta para a projeção do barril do Brent a US$ 80 no fim do ano. Os profissionais, inclusive, alertam que os preços podem ultrapassar US$ 120 no quarto trimestre caso haja uma interrupção prolongada no tráfego de navios por Ormuz.


“Embora a redução dos estoques [de petróleo] no segundo trimestre tenha deixado o mercado mais vulnerável do que em fevereiro, nossa simulação aponta para uma alta menos intensa dos preços do que as estimativas comparáveis feitas naquela época”, avalia a equipe de Struyven. “Isso ocorre, em parte, porque agora assumimos uma elasticidade maior da demanda, especialmente na China, onde as importações de petróleo bruto continuam fracas.”

Em encontro com jornalistas ontem, o economista Pedro Schneider, do Itaú Unibanco, afirmou que dificilmente o preço internacional do petróleo permanecerá nos níveis atuais por muito tempo. “Ou a guerra vai escalar e ele [o preço] piora; ou a guerra tem uma solução e ele volta a recuar para patamares até mesmo abaixo de US$ 80”, disse. “Assumindo que o conflito em algum tempo será resolvido, o mercado não consegue ficar com prêmio de risco muito alto por muito tempo.”


Schneider lembrou do forte alívio nos preços do petróleo logo após o memorando inicial acertado entre EUA e Irã. “No curto prazo, não vemos muito sinal de entendimento, mas esse curto prazo é bem curto mesmo. A visibilidade está muito baixa”, disse o economista do Itaú.

Mais recentemente, os fluxos n Estreito de Ormuz foram puxados, principalmente, por navios carregados com petróleo bruto, enquanto a oferta de combustíveis refinados continua limitada, observam os estrategistas Michael Haigh e Jeremy Sellem, do Société Générale. O resultado é uma escassez maior no mercado de derivados do que no de petróleo, o que impulsiona as margens obtidas pelas refinarias na conversão do óleo bruto em combustíveis, ou “crack spreads”, no jargão do mercado.


“Embora os relatórios mais recentes indiquem que os estoques aumentaram em 21 milhões de barris em junho, a maior parte - senão a totalidade - desse aumento parece ter ocorrido em petróleo bruto, e não em produtos refinados. Como resultado, o mercado de derivados de petróleo parece relativamente mais apertado do que o de óleo bruto”, afirmam Haigh e Sellem.

Ao observar a dinâmica do mercado de opções de petróleo, os estrategistas notam que há alguma ambiguidade no comportamento dos investidores. Enquanto houve um aumento importante nas apostas de queda de preços no curto prazo, ocorreu também um forte movimento nas opções de compra (“calls”) na região entre US$ 100 e US$ 120 por barril, “indicando que os investidores continuam atribuindo um prêmio significativo ao risco de uma disparada dos preços caso ocorram interrupções no tráfego pelo Estreito de Ormuz”.

Na visão da equipe de commodities do Citi, a alta recente do petróleo representa uma oportunidade de apostar na queda subsequente dos preços, à medida que deve ocorrer um arrefecimento das tensões entre EUA e Irã. “Dito isso, nossa convicção sobre a trajetória de curto prazo dos preços do petróleo e dos metais é relativamente baixa, já que esse cenário depende, em grande medida, das decisões tanto do presidente Donald Trump quanto do regime iraniano”, apontam.

A interpretação dos estrategistas do banco americano é a de que a escalada recente no conflito é uma tentativa de Donald Trump de usar pressão militar para renegociar o ponto do memorando feito com o Irã que trata da navegação comercial pelo Estreito de Ormuz. “O presidente americano quer que os EUA possam utilizar o lado omanense do estreito conforme seus interesses, enquanto o Irã se opõe a isso, provavelmente porque pretende instalar infraestrutura de rastreamento e monitoramento que permita cobrar tarifas no futuro”, argumentam.

A escalada, segundo eles, aumenta a probabilidade de que o Irã suspenda seu engajamento com o memorando por semanas ou até meses, possivelmente até depois das eleições legislativas de meio de mandato nos EUA. “Embora esse não seja nosso cenário central, essa hipótese provavelmente sustentaria preços do petróleo elevados por mais tempo e poderia levar a novas liberações de estoques estratégicos pelos países da Agência Internacional de Energia (AIE) e da OCDE”, apontam.

O cenário-base do Citi ainda é o de retomada das negociações, já que Trump historicamente demonstra preferência por mercados acionários fortes, mercados de renda fixa estáveis e menor volatilidade nos preços da energia, o que significa que eventuais perdas nos mercados de ações e títulos dos Estados Unidos tendem a limitar uma alta prolongada do petróleo.

Gabriel Roca, Victor Rezende e Anaïs Fernandes – Valor Econômico