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Sojicultores investem no girassol e constroem esmagadora de sementes

A motivação inicial para o empreendimento foram as projeções otimistas do mercado de biodiesel. Mas o destino prioritário do óleo extraído na Parecis Alimentos, em Campo Novo do Parecis, é a indústria alimentícia.
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A motivação inicial para o empreendimento foram as projeções otimistas do mercado de biodiesel. Mas o destino prioritário do óleo extraído na Parecis Alimentos, em Campo Novo do Parecis, é a indústria alimentícia.

Campo Novo do Parecis, no oeste mato-grossense, lidera a produção brasileira de girassol. Pelos dados municipais de produção agrícola mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a área plantada de girassol no município era de 5 mil hectares em 2007, para um total nacional de 73.233 hectares. Nesta safra, a previsão da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) é que o girassol tenha ocupado em Campo Novo do Parecis e Brasnorte (município vizinho) uma área de 36 mil hectares. O rápido aumento está relacionado à criação da Parecis Alimentos, um investimento coletivo de grandes produtores de grãos da região.

“Este é o primeiro ano em que vários produtores adotaram o girassol na safrinha. São 44 sócios da Parecis Alimentos que têm cotas obrigatórias de plantio”, explicou o diretor industrial da empresa, Vitório Herklotz. “Nossa idéia é verticalizar a produção, vender produtos com maior valor agregado. O produtor em geral é vítima do oportunismo da indústria. Quando ele passa a ser dono de um campo que não lhe pertencia, começa a mandar no que é seu”, completou Herklotz.

Ao lado da esmagadora de sementes, que começou a funcionar experimentalmente neste ano, está sendo construída uma fábrica de ração. De acordo com Herklotz, o investimento dos sócios no empreendimento foi de aproximadamente R$ 8 milhões, todos eles de recursos próprios. O valor ficou R$ 2 milhões acima do previsto, porque parte do maquinário comprado inicialmente para a esmagadora precisou ser substituído. “Nós optamos pelo processo de extração de óleo via prensagem, enquanto o mercado nacional tem mais experiência com extração química. Erramos ao confiar nas promessas dos fornecedores e agora fomos obrigados a fazer ajustes”, lamentou o diretor industrial.

A indústria mecânica de extração de óleos, porém, apresenta vantagens em relação à química: menor custo de instalação, caráter modular (o que facilita a ampliação da unidade) e geração de um subproduto mais oleoso. “O farelo que sobra da prensagem é mais gordo, bom para a qualidade da ração. Nossa estratégia é de integração lavoura-pecuária, queremos tirar carne da região, não só grãos”, afirmou Herklotz.  

A expectativa dos sócios da Parecis Alimentos é recuperar o investimento inicial em um prazo máximo de cinco anos. A intenção é atingir a meta de 250 toneladas de sementes esmagadas por dia, mas a estrutura atual suporta uma quantidade bem menor: 100 toneladas/dia. “Novos investimentos virão com o aumento da demanda. Estamos muito no início do processo e para a maioria de nós tanto a cultura do girassol quanto a indústria estão sendo um aprendizado”, ponderou o diretor industrial. “O importante é que os mesmos equipamentos que esmagam girassol podem trabalhar com soja, que já está consolidada na região”, acrescentou ele.   

Biodiesel: expectativa frustrada
O objetivo da Parecis Alimentos é extrair um óleo nobre, que atenda às exigências da indústria de alimentos. “Tem quem use óleo de girassol na produção de biodiesel, mas isso é uma aberração. Enquanto você tem óleo de soja sendo comercializado no mercado para alimentação, fazer biodiesel de girassol é um absurdo”, vociferou Herklotz.

Apesar do tom enfático do diretor comercial, as mil toneladas de óleo de girassol extraídas até o momento pela empresa foram vendidas a usinas de biodiesel do Mato Grosso. “Neste ano o preço do óleo de soja subiu e usamos bastante óleo de girassol”, revelou Celso Lescano Jr, o gerente industrial da Biopar Parecis, localizada em Nova Marilândia (MT), uma das usinas que adquiriram matéria-prima da Parecis Alimentos. “Nós trabalhamos com biodiesel porque nosso óleo ainda não tinha padrão de qualidade. Estávamos em fase de testes industriais e as características do nosso óleo variaram muito, então não podíamos colocar qualquer produto no mercado de alimentos”, justificou Herklotz.

Se em um futuro próximo o mercado de biodiesel não aparece nas projeções da Parecis Alimentos, ele esteve presente no nascimento da empresa: não apenas nas primeiras vendas do óleo, mas principalmente como motivação inicial para o investimento.  De acordo com Sérgio Stefanello, o maior produtor de girassol da região, o interesse dos seus vizinhos pela cultura surgiu há três anos. “Foi quando começou o debate sobre girassol e biodiesel. A partir daí veio a idéia de outros produtores investirem no girassol e de a gente construir uma esmagadora”, revelou ele.

Girassol longe da agricultura familiar
A aproximação de Stefanello com o plantio de girassol aconteceu em 1995. Ele cedeu três hectares para um cultivo experimental da Fundação de Apoio à Pesquisa Agropecuária de Mato Grosso. Já no ano seguinte, aumentou a área para 200 hectares, como parte de um projeto da Caramuru Alimentos. “Esse programa não foi para frente porque enfrentou muitas dificuldades, especialmente logísticas. O girassol é muito leve, os caminhões transportam pouco peso, o que encarece o frete”, explicou o produtor, que foi prefeito de Campo Novo dos Parecis na gestão passada, pelo Partido da República (PR). 

Apesar disso, Stefanello encontrou um mercado estratégico para o girassol: o de alimentos para pássaros. Com a venda das sementes já classificadas e ensacadas, aumenta o preço do produto e a densidade (o que diminui o custo relativo do frete). “Eu passei a manter 2 mil hectares de lavoura de girassol na safrinha. Neste ano, para cumprir a cota da Parecis Alimentos, plantei 1,5 mil hectares a mais. Eu esperava colher 6 mil toneladas de sementes, mas em abril as chuvas foram acima da média e, agora, a estimativa de colheita caiu para 4,5 mil toneladas”, revelou o produtor. Stefanello vende a produção de girassol apenas no atacado, na zona cerealista do Brás (na capital paulista); ele também tem compradores fixos, como as empresas Yoki Alimentos e Caramuru Alimentos.

O girassol é uma planta de origem européia que se adaptou bem ao Cerrado. Ela ocupa uma janela de plantio diferente do milho, a cultura mais utilizada para a entressafra da soja na região (a chamada safrinha). Para o milho, o plantio deve ocorrer até 20 de fevereiro, a fim de que a planta ainda pegue as últimas chuvas do semestre. Já o girassol desenvolve-se melhor em climas secos – e, por isso, deve ser plantado entre 20 de fevereiro e 15 de março.

Campo Novo do Parecis completou 21 anos no último dia 4 de julho, com direito a show da dupla sertaneja Gian e Giovani na comemoração. A cidade surgiu no mesmo período que outros municípios líderes da produção de soja, como Lucas do Rio Verde e Mutum. Sérgio Stefanello é um dos poucos remanescentes da primeira leva de gaúchos: ele mudou-se em 1985, vindo e Cruz Alta (RS). “Hoje restaram no máximo um terço dos primeiros exploradores. O pioneirismo tem um custo humano alto, muita gente quebra. Mas que fica, cresce e se consolida”, avaliou o fazendeiro. “O Lula não fala sempre que quer agricultura familiar? Aqui é assim, agricultura aqui está na mão da família Maggi”, ironizou Stefanello, referindo-se à família do governador Blairo Maggi.

Por Thaís Brianezi - Repórter Brasil
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