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Situação do biodiesel na Espanha

Usinas deixam de produzir e passam a armazenar biodiesel importado
BiodieselBR.com 5 min de leitura
Usinas deixam de produzir e passam a armazenar biodiesel importado

A bolha dos biocombustíveis começa a murchar. É o que acontece na Galícia, noroeste da Espanha, onde uma reforma de urgência foi feita para adaptar as usinas a armazenar as importações de biodiesel, ao invés de processar o óleo de soja e palma, as principais matérias-primas usadas na produção de biodiesel.

A empresa Entabán, a segunda maior usina da Espanha com capacidade de produzir 200 mil toneladas anuais mostra a situação do setor.

Os trabalhadores denunciam uma drástica redução na produção de 40% desde que começou a operar em 2008, hoje são apenas 18 operários. “Fazemos pequenos trabalhos de manutenção em instalações que se converteram em um simples armazéns para depósito de biodiesel importado”, denunciou Victor Manuel Casteleiro, da CC OO.  A direção da companhia diz que a empresa está numa “situação de subsistência”, em palavras de seu executivo Javier Bouza. “Como temos margens nas importações nem sempre produzimos”, justificou o executivo.

Essa “temporalidade” a que se referiu o executivo Bouza não o impede de ter “boas perspectivas” para o próximo ano, quando está previsto que o mercado se recupere através de um decreto do Ministério da Indústria que regulará as especificações do combustível verde e aumentará o percentual obrigatório de mistura no produto final que vai ao consumidor.

Os problemas da Entabán é apenas a ponta do iceberg, com investimentos milionários nos últimos anos e com grandes ajudas públicas. Esta foi a iniciativa mais subvencionada pelo Instituto Galego de Promocão Econômica (Igape), que em dois anos destinou 14,6 milhões de euros para apoiar projetos com valor de 110,7 milhões. Sobre um investimento de 29,9 milhões a companhia recebeu 4,49 milhões de euros. Esse valor, segundo os próprios números da entidade é proporcionalmente maior ao apoio público que recebeu a maior usina instalada na Galicia, Infinita Renovables, que recebeu 4,9 milhões de dinheiro públicos para um investimento total de 49,9 milhões de euros.

Com 300.000 toneladas de capacidade instalada, o diretor geral da Infinita, Rafael Lorenzo, explicou que a empresa está trabalhando entre 40% e 50% de sua capacidade depois de seis meses do inicio da produção e que isso só é possível “graças a capacidade de compra da empresa por pertencer a um grupo”.

Diferente da Infinita Renovables, a usina da Entabán, quando muito se dedica a “incorporar aditivos ao biodiesel importado” e se encontra em um momento “especialmente delicado” assegurou Javier Bouza, seu diretor, “que não impede de ser otimista”.

Essa reconversão silenciosa que afeta o setor de biocombustíves espanhol tem também outros problemas e atrasos. É o caso da empresa Biocarburantes Peninsulares, que há mais de dois anos tramita as licenças para levantar outra usina no polígono do Rio do Pozo, em Narón.  José Manuel Escolar, seu diretor financeiro, diz que estão prontos para começar a produção “com a licença de funcionamento solicitada”. A companhia previa iniciar a produção em janeiro de 2009, com uma capacidade de produção de 103.000 toneladas por ano. O investimento total foi de 19,2 milhões de euros e o Igape concordou em apoiar a iniciativa com 2,9 milhões. “tem ocorrido atrasos, porém dentro do previsto”, se limitou a explicar Escolar.

As usinas da Entabán e Infinita Renovables, a primeira com diversos investidores e a segunda controlada pelo grupo construtor Isolux Corsán, são atualmente os de maior capacidade da Galícia e construídas perto do porto de ferrol. Foram inauguradas com um ano de diferença. Quando da inauguração das instalações da Entabán, em junho de 2008, o então presidente da La Xunta, Emilio Pérez Touriño disse que “Ferrol e Galícia se tornariam lideres nacionais na produção de biocombustíveis com 43,6% da produção prevista pelo Plano de Energias Renováveis”, com previsões de alcançar 700.000 mil toneladas somando todos os projetos após postos em marcha.

As importações de biodiesel da Argentina e dos Estados Unidos, subsidiadas na origem, tem inundado o mercado com um preço muito menor ao do custo das usinas europeias. “80% do custo de produção corresponde a matéria-prima”, explicou Rafael Lorenzo, diretor geral da Infinita. A companhia conta com 60 funcionários em sua usina. “Compramos o óleo de soja da Argentina e do Brasil, o de palma da Malásia e Indonésia, os principais produtores mundias”. A Entabán preferiu não divulgar detalhes do seu projeto.

70% do produto vem de fora
A Espanha foi o país da UE que mais incrementou a capacidade de produção de biodiesel em 2009. Em apenas quatro anos o número de usinas foi multiplicado por sete. Em 2008 começaram os problemas com as importações, porém os investimentos previstos já haviam começado. Atualmente existem 53 usinas em todo o território, sete vezes mais que em 2005. Castilla-La Mancha é a região que concentra o maior número de usinas, 11, seguida por Andalúcia (8) e Galícia (6).

A cautela com que as companhias localizadas na Galícia enxergam a situação do setor é expressada pela frieza da análise do presidente da Associação dos Produtores de Biocombustivel, Roderic Miralles: “quando a maior parte do biocombustível que se consome na Espanha vem do estrangeiro, aproveitando-se de subsídios, as usinas do país agonizam, é evidente que a política espanhola de biocombustíveis está falhando gravemente”.

Segundo dados da APPA Biocarburantes, no ano passado metade das 36 usinas abertas nos últimos anos estavam completamente paradas, depois de  investimentos superiores a 600 milhões de euros e criado mais de 1.000 empregos, “as que continuam operando trabalham muito abaixo de sua capacidade’, adverte a entidade. Segundo seus cálculos, a média de produção sobre capacidade instalada chegou a 9%, percentual este que torna incompatível a sobrevivência do setor. A importação de biodiesel subsidiado dos Estados Unidos e outros países chegou a 71% do mercado espanhol.

Julia Rodríguez
Fonte: El País
Tradução e adaptação BiodieselBR
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