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A revolução do biocombustível: nova moeda no campo

No Brasil, apesar de recente, a produção de biodiesel gerou ganhos financeiros, ambientais e sociais.
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No Brasil, apesar de recente, a produção de biodiesel gerou ganhos financeiros, ambientais e sociais.

Plínio Destro ja ostentou, no início desta década, o título de “rei” do chá do Brasil e durante anos investiu pesado na ampliação do plantio de erva-mate que mantinha na cidade de Cascavel, PR. Os altos custos da lavoura e da mão de obra, no entanto, o fizeram derrubar, cinco anos atrás, a extensa plantação de 150 hectares e apostar no plantio de grãos. Com a decisão, as contas da propriedade de Destro se equilibraram, mas seu coração permaneceu abatido. “Minha lavoura era muito bem tratada, mas a colheita era manual, e as exigências trabalhistas estavam inviabilizando a produção”, diz.

Destro conta que sua alegria foi retomada em 2006, quando resolveu destinar parte da área de milho ao plantio de canola. “É uma plantação tão bonita que enche os olhos e o coração da gente”, conta, orgulhoso. Os bolsos do produtor também estão satisfeitos com o cultivo da oleaginosa, usada atualmente para a produção de biocombustível. “O custo de produção da canola é bem inferior ao da soja, mas o preço de venda é o mesmo”, conta. Além disso, a garantia de venda também pesou na decisão de implantar a lavoura, que ocupa neste ano os 150 hectares antes destinados à erva-mate. “Antes de realizar o plantio, já tenho a certeza que a produção será vendida e a que preço. Essa é uma enorme vantagem da canola sobre as outras culturas”, conta. Histórias como a de Plínio Destro se reproduzem pelo Brasil desde 2004, quando o governo federal criou o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB), e ajudam tanto a melhorar a renda de pequenos, médios e grandes agricultores como a ampliar a participação das fontes limpas na matriz energética brasileira. E o desenvolvimento do mercado brasileiro de biocombustíveis ocorre no exato momento em que a energia se torna uma importante moeda de negociação no mercado internacional. Por esse motivo, o uso de fontes alternativas ganhou prioridade em diversos países do mundo que buscam reduzir a dependência dos combustíveis fósseis – responsáveis por 80% da energia consumida no planeta. Com a previsão de exaustão das fontes de petróleo nos próximos 40 anos e a reincidência de problemas ambientais, muitos governos ampliaram os programas de utilização de fontes de energia limpas e renováveis.

Nesse contexto, o Brasil é tido como referência no uso cada vez maior de tais fontes. Um esforço de grandes, médios e pequenos agricultores que garante ao país uma matriz energética limpa, composta de 46% de fontes renováveis, enquanto a matriz mundial é formada por apenas 13% de fontes limpas. A produção de etanol responde por boa parte da energia renovável do país, mas gradualmente o biodiesel começa a ganhar espaço na matriz energética mais limpa do mundo.

O etanol é o biocombustível produzido há mais tempo no país. Sua produção teve início na década de 1970 e ajudou a construir uma forte indústria ao longo dos últimos 40 anos no Brasil. Na safra 2010/2011, a produção brasileira está estimada em 27,5 bilhões de litros, com aumento de 15% em relação à safra anterior. E a excelente performance desse segmento no Brasil estimulou a implantação de projetos semelhantes em diversos continentes. ”O debate climático internacional é o DNA do setor sulcroalcooleiro e tem sido o principal motivador do crescimento dessa indústria”, diz Marcos Jank, presidente da União da Indústria da Cana de Açúcar (Unica).

Hoje, 30 países usam o etanol em sua matriz energética inspirados na experiência brasileira, sendo que nos Estados Unidos e na Suécia já existe uma pequena frota de veículos flex. Nos outros 28 países, o consumo é estimulado por mandatos de governos que obrigam a mistura do combustível à gasolina, para reduzir as emissões de gás carbônico. O destaque da indústria brasileira sulcroalcooleira no cenário internacional é tamanho que o mercado interno começa a ser disputado também por grupos estrangeiros, que detêm atualmente 22% de participação das empresas brasileiras. O etanol é o biocombustível mais produzido no mundo, com volume superior a 60 bilhões de litros – estimativa para este ano –, porém, aos poucos, uma nova indústria de fonte renovável de energia começa a se destacar: a produção de biodiesel.

No Brasil, depois de consolidar o mercado interno de etanol, o governo federal começou no segmento de biocombustíveis por meio do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB), criado em 2004. O programa tem favorecido a expansão do cultivo de plantas oleaginosas em diversas regiões pela imposição da obrigatoriedade da mistura de um porcentual de biodiesel ao diesel comercializado no país. No início de 2010, a mistura de biodiesel ao óleo foi ampliada de 4% para 5%, o que deve criar uma demanda de cerca de 2,4 bilhões de litros neste ano. Em 2013, a previsão é que o consumo no Brasil se situe em 2,8 bilhões de litros.

Atualmente o país é um dos líderes no ranking dos maiores produtores mundiais de biodiesel. Atrás da Alemanha, que se posiciona como maior produtora e consumidora do planeta, com uma produção de 3,2 bilhões de litros estimada para este ano. No Brasil, apesar de recente, a produção de biodiesel gerou ganhos financeiros, ambientais e sociais. Sob o ponto de vista financeiro, o país conseguiu reduzir a importação de 1,1 bilhão de litros de diesel de petróleo por ano, o que proporcionou uma economia de cerca de 1 bilhão de dólares, segundo dados da Agência Nacional de Petróleo (ANP). Já os ganhos ambientais ocorreram com a redução das emissões de poluentes; enquanto os ganhos sociais aconteceram à medida que a produção de biocombustíveis possibilitou a criação de um novo mercado para produtos agrícolas e aumentou a geração de renda nas zonas rurais do país.

E a Petrobras, maior produtora de petróleo do país, é justamente uma das empresas que mais apostam na produção de fontes renováveis. Por meio da Petrobras Biocombustível, criada em 2008, a companhia planeja investir 2,4 bilhões de dólares na produção de biodiesel e etanol nos próximos três anos. Com isso, espera atingir capacidade de produção de 640 milhões de litros de biodiesel e 3,9 bilhões de litros de etanol até 2013.

Além dos investimentos no mercado nacional, a Petrobras recentemente anunciou que construirá uma refinaria de biocombustíveis em Portugal em parceira com a companhia petrolífera Galp. O plano é produzir 260 mil toneladas de combustíveis vegetais. A matéria-prima que abastecerá a nova fábrica, orçada em 357 milhões de euros, será o óleo extraído das plantações de palma no estado do Pará. “Estamos implantando dois importantes projetos de produção de palma no Pará”, diz Jânio Rosa, diretor de suprimento agrícola da Petrobras.

Para tornar seus planos viáveis, a empresa se associou a importantes parceiros no campo. A fim de expandir sua produção de etanol, comprou recentemente parte do Grupo Guarani. Já no segmento de biodiesel, está fomentando o cultivo de oleaginosas em todo o país: palma, no norte do Brasil; mamona, soja e girassol no norte, nordeste e Semiárido de Minas Gerais; macaúba, em Minas Gerais; e canola, no Rio Grande do Sul e Paraná. No sul do país, a Petrobras atua em parceira com a empresa Bs Bios, produtora de biodiesel desde 2005.

Em 2009, a petroleira contou com a colaboração de 56 mil agricultores familiares na produção de oleaginosas. “Nossa expectativa é encerrar 2010 com 60 parceiros no campo. Em 2013, esse número deve ser de 80 mil”, diz o diretor da Petrobras, que ampliou sua capacidade de 171 milhões de litros ao ano para 389 milhões de litros anuais.

O produtor Adnir Zavatine, assim como Destro, é um dos parceiros da companhia. Neste ano, ele plantou 20 hectares de canola no município de Nova Aurora, PR. Em geral, no inverno, Zavatine planta trigo e milho, mas resolveu destinar um terço de sua área para o cultivo de canola. Na decisão do produtor pesou a garantia da Petrobras de que comprará o produto ao final da safra. “Temos a certeza de comercialização a preços justos, pois a empresa garante que pagará pela canola as mesmas cotações da soja”, diz Zavatine. A produtividade estimada pelo agricultor oscila entre 20 e 25 sacas por hectare. Já o custo de produção é da ordem de 15 sacas por hectare.

No sul do Brasil, a canola tem sido bastante importante sob o ponto de vista da diversificação, pois se torna uma opção ao agricultor que já está acostumado à produção de grãos. Além disso, trata-se de uma cultura que usa pouco agroquímico. No Rio Grande do Sul, a canola tem tido grande sucesso e já ocupa 15 mil hectares. No Paraná, neste ano foram cultivados 5 mil hectares, e a Petrobras, em parceria com a Bs Bios, tem planos de triplicar a área em 2011. Outro produtor que tem apostado na canola é Sergio Arlindo Canselier, que cultiva o grão há três anos. Em 2010, ele plantou 14 hectares de canola na propriedade de 48 hectares que mantém em Nova Aurora. “O risco é menor. A garantia de compra é uma vantagem sobre as outras culturas de inverno”, diz Canselier, que em 2009 teve a produtividade reduzida por causa do excesso de chuvas e colheu 15 sacas por hectare. “Ainda assim, a canola rendeu mais que o milho e o trigo”, conta. Neste ano, o produtor estima que colherá 32 sacas por hectare.

O produtor Marcos Paulo Becker plantou sete hectares e também está bastante satisfeito. “Como o trigo e o milho estão com mercado ruim, resolvi experimentar. O custo de implantação da lavoura é bem menor, e a planta é rústica, não precisa de muitos cuidados e aguenta seca e frio”, diz.

O uso de biodiesel reduz em 78% a emissão de gás carbônico e em 20% a emissão de enxofre. Em 2005, não havia nenhuma planta instalada no país. Hoje, há 63 indústrias autorizadas para operar. De acordo com o pesquisador Sérgio dos Anjos, da Embrapa Clima Temperado, são várias as oleaginosas que podem ser usadas na produção de biodiesel. Uma delas é o tung, planta perene cultivada no Rio Grande do Sul que se apresenta como uma excelente opção para o biodiesel. “Nossos ensaios alcançaram produtividade de até 9 mil litros de óleo por hectare”, diz Anjos. Com alto teor de óleo, de 43%, o tung, segundo o pesquisador, se destaca entre as variedades cultivadas atualmente. A mamona foi a cultura que mais recebeu incentivos de produção no país e rende 3,4 mil de litros de óleo por hectare. O óleo de mamona é um dos mais caros do mundo, e sua produção no Brasil tem sido bastante estimulada pela empresa Oleoplan, do Rio Grande do Sul, que fomentou o cultivo da variedade para 120 agricultores no estado. Já a canola tem 40% de teor de óleo e rende cerca de 1,5 mil litros de óleo por hectare. Apesar da variedade de opções, a soja ainda é a maior responsável pela produção de biodiesel no Brasil, com 80% do volume.

Estudos indicam que nos próximos anos a soja deverá continuar sendo a principal matéria-prima usada na produção de biodiesel, mas, por se tratar de uma commodity, cujas variações de preços são impostas pelo mercado internacional, especialistas reforçam a necessidade de garantir a produção de outros óleos vegetais, de maneira que a cadeia de biodiesel não seja desabastecida, já que o consumo no mercado interno atingirá 3,1 bilhões de litros em 2020.

Fonte: Revista Globo Rural
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