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Com pinhão-manso Espírito Santo entra na rota do biodiesel

O Espírito Santo entrou de vez na rota do biodiesel. O potencial energético da planta, que hoje desperta a cobiça dos italianos, há muito era conhecido na região.
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O Espírito Santo entrou de vez na rota do biodiesel. O potencial energético da planta, que hoje desperta a cobiça dos italianos, há muito era conhecido na região.

O Espírito Santo entrou de vez na rota do biodiesel. A italiana Nòva Energia, braço sustentável da API, um dos maiores conglomerados de energia da Europa, criou em Colatina, Noroeste do Estado, a Nòvabra, cujo objetivo é gerar energia por meio do óleo extraído da semente do pinhão-manso. Pinhão que vem a ser um arbusto que até bem pouco tempo atrás era utilizado apenas na formação de cercas vivas nas fazendas e propriedades das regiões Norte e Noroeste do Espírito Santo.

O potencial energético da planta, que hoje desperta a cobiça dos italianos, há muito era conhecido na região. Não eram poucos os que usavam a semente do pinhão para manter os fogareiros acesos. A roda da economia que esse arbusto, por muito tempo esquecido, pode começar a girar surpreende os moradores da região. “Quem diria que o pinhão, que muitos queriam tirar das plantações de jardim e não conseguiam, agora virou fonte de renda”, se espanta o fazendeiro Genivaldo Bassini, que vai plantar 300 hectares de pinhão.

Até 2014, os europeus querem dispor de 25 mil hectares plantados com uma capacidade de produzir 50 mil toneladas/ano de óleo cru. Até lá, cerca de cinco mil novos postos de trabalho devem ser gerados em todo o entorno.

O Espírito Santo foi escolhido para receber os R$ 55 milhões em investimentos da Nòvabra – R$ 25 milhões na fábrica para extrair o óleo, em Colatina, – e outros R$ 30 milhões em mudas, insumos agrícolas e técnicos por se encaixar perfeitamente no perfil da cultura. O pinhão é uma planta rústica, tolerante à seca e bem adaptada às condições de solo e clima da região Norte e Noroeste do Estado. Outras culturas dessa região do Espírito Santo sofrem com a falta de água para a irrigação e com o solo arenoso e pobre de nutrientes.

“Apesar da Nòvabra fornecer, o pinhão não exige fertilizantes e herbicidas. A água necessária é pouca. É uma planta que dá pouco trabalho ao produtor. O pinhão pode ser cultivado em áreas hoje inutilizadas por conta, por exemplo, da falta de irrigação. Ele chega como alternativa de renda para o homem do campo, já que garantimos comprar toda a produção, seja qual for o tamanho”, destaca Pedro Burnier, diretor geral da Nòvabra.

Enio Bergoli, secretário de Agricultura do Estado, vê com bons olhos essa nova alternativa que se apresenta. “É viável para que o agricultor de base familiar tenha uma boa opção de diversificação agrícola na propriedade e, fundamentalmente, se trata de uma ótima opção de renda, tendo em vista que a demanda por matéria prima para a produção de biocombustível e crescente no Brasil e no mundo”.

O futuro promete
"É um mercado em expansão. Nada impede que, mais para a frente, a fábrica de Colatina faça também o biodiesel”
Pedro Burnier , diretor-geral da Nòvabra Energia

Por dentro da cultura

O que é: pertence à família das Euforbiáceas, a mesma da mamona e da mandioca. É um arbusto grande, de crescimento rápido, que atinge até três metros de altura, mas pode alcançar até cinco metros em condições especiais. A semente do pinhão possui 38% de óleo, sendo utilizado como matéria-prima do biodiesel. É uma planta perene que produz por 30 a 40 anos Até bem pouco tempo atrás, era bastante usado na formação de cercas, afinal é uma planta rústica e tolerante à seca.

Produtividade: chega a produzir entre cinco e seis toneladas de grãos/ano por hectare. Cada hectare pode produzir até 2,2 toneladas de óleo por ano. Isso, quando o pé já está na fase adulta, a partir do quarto ano.

Outras utilidades: o que resta da prensagem das sementes, a chamada torta, é um fertilizante rico em nitrogênio, potássio, fósforo e matéria orgânica. A casca do pinhão pode ser usada como carvão vegetal e matéria-prima na fabricação de papel.

Vantagens do pinhão: é uma planta rústica e, por tanto, não depende de irrigação; início da produção se dá já a partir do segundo ano depois do plantio; a colheita é feita entre janeiro e abril, entressafra do café; é uma espécie de fácil adaptação ao solo e ao clima da região Noroeste do Estado; é uma cultura adaptada a períodos de seca, as folhas caem no inverno; ao contrário da soja, por exemplo, o pinhão-manso não é comestível, por isso, não existe muita resistência quanto à sua utilização.

Biodiesel: é um combustível biodegradável derivado de fontes renováveis. Pode ser produzido a partir de gorduras animais ou de óleos vegetais, existindo dezenas de espécies vegetais no Brasil que podem ser utilizadas, tais como mamona, dendê, girassol, babaçu, amendoim, pinhão-manso e soja. O biodiesel substitui total ou parcialmente o óleo diesel de petróleo em motores automotivos ou estacionários.

Nòvabra Energia

A empresa: a Nòvabra Energia S.A. é o braço brasileiro da Nòva Energia, empresa especialista em energias limpas do conglomerado italiano API, um dos maiores grupos petrolíferos e energéticos da Itália. Em 2008, o faturamento do grupo bateu os 3,94 bilhões de euros (R$ 9,3 bilhões). A API Nòva Energia desenvolve plantas de energia baseadas em fontes renováveis ou com tecnologias tradicionais com alta eficiência e sustentabilidade ambiental (eólica, solar e biomassa).

Pinhão-manso: dentre os novos projetos de geração de energia por meio de biomassa, está o do pinhão-manso, que será produzido em vários países da África e no Espírito Santo. No Brasil a API fundou a Nòvabra, em Colatina. Em Moçambique, a Nòva comprou uma fazenda de 6 mil hectares só para plantar pinhão. No Brasil, pequenos e médio produtores capixabas, do Norte e Noroeste do Estado serão responsáveis pela produção. A ideia é ter 25 mil hectares plantados no Estado até 2014. A Nòvabra dá as mudas e financia os insumos agrícolas, um investimento de R$ 35 milhões. Os italianos garantem a compra de 100% da produção.

Indústria:
os investidores já procuram uma área em Colatina para a implantação de uma fábrica, com capacidade de extrair 50 mil toneladas de óleo cru por ano. Um investimento de R$ 20 milhões. Até 2012, a primeira etapa estará pronta. Até o ano que vem serão realizados estudos para definir a tecnologia adequada para o projeto de extração e valorização da torta, que é o que sobra da semente do pinhão depois da extração do óleo. Com essa torta, é possível fazer ração e fertilizantes.

Incentivos: a Nòvabra, em parceria com o Incaper, dispõe de técnicos de campo em boa parte dos municípios do Noroeste para dar assistência técnica aos produtores; o contrato entre a empresa e os agricultores é de 14 anos; durante o contrato a Nòvabra compra toda a produção; as mudas são dadas; os italianos adiantam os insumos agrícolas nos primeiros três anos.

Plantio e retorno

O fazendeiro Genivaldo Bassini, de Linhares, e o pequeno produtor Rubens Casotti, de São Roque do Canaã, são dois dos quase 200 já cadastrados e com contrato assinado com a Nòvabra para a produção de pinhão-manso no Norte e Noroeste do Estado. Apesar de um ter mais de 300 hectares disponíveis e do outro ter pouco mais de quatro, os dois enxergam na nova cultura uma oportunidade de ver o negócio deslanchar. Culturas tradicionalíssimas da região vão perder espaço, é o que revelam Bassini e Casotti.

“Até o ano passado só plantava café conilon, cana e eucalipto. Com essa oportunidade do pinhão, o café e o eucalipto vão perder área. Além de ter comprador garantido, a plantação do pinhão não gera muitos custos. A mão de obra é pouca, as mudas são dadas, os insumos, se necessários, são financiados, e não exige nenhum tipo de irrigação. É só deixar lá que a planta cresce. É uma bela oportunidade”, comemora Rubens Casotti.

O fazendeiro Genivaldo Bassini, que até um mês atrás trabalhava apenas com pecuária e eucalipto, acredita que o pinhão-manso será uma importante mola propulsora na redescoberta do agronegócio da região Norte e Noroeste.

“Essa região do Estado tem problemas com o solo, que é muito arenoso e, portanto, pobre, e com a falta de água para irrigar a plantação. Até agora estávamos presos ao café, à pecuária, e, em alguns casos, ao eucalipto. Agora, surge o pinhão, cultura de manutenção barata e que se adapta quase que perfeitamente ao solo e ao clima da região. No meu caso, a pecuária vai perder espaço, afinal, vou ter um retorno muito maior com o pinhão. Minha intenção é disponibilizar pelo menos 300 hectares para essa nova cultura”.

Bassini destaca que vários produtores da região de Linhares já estão de olho no pinhão-manso. “Muitos já vieram me procurar. Todos querem uma nova alternativa para melhorar as receitas”. De acordo com a Nòvabra, oito produtores linharenses já procuraram a empresa dispostos a saberem mais sobre o projeto dos italianos no Estado.

Mais renda
Com base em dados divulgados pela Secretaria de Estado da Agricultura, um estudo feito por técnicos da Nòvabra aponta a atividade do pinhão-manso como mais lucrativa do que o de eucalipto e a pecuária de corte, perdendo apenas para o café. O levantamento mostra que com uma produção anual de 5,5 toneladas de pinhão por hectare, é possível obter uma renda familiar de R$ 1.160 por hectare/ano.

O produtor de café conilon que consegue 25 sacas por hectare, obtém uma renda familiar anual por hectare de R$ 1.633,84. Se a produtividade alcançar as 50 sacas por hectare, é possível alcançar uma renda anual de R$ 4.330,60. Ou seja, o café, apesar de mais custoso, dá um retorno melhor do que a cultura do pinhão-manso.

No caso do eucalipto, o produtor que conseguir 180 metros cúbicos de madeira por hectare plantado, terá um retorno, também por hectare, de R$ 796,49 por ano. O pior resultado é o da pecuária de corte, que exige grandes áreas para se obter um bom retorno. Numa propriedade de 30 hectares, com um animal de quatro arrobas por hectare, o retorno é de R$ 106,32 no ano.

Abdo Filho
A Gazeta - ES
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