BiodieselBR
Publicidade

País precisa de mais fontes renováveis

O Brasil não está alheio ao desafio mundial de desenvolver novas fontes de energia sustentáveis para substituir os combustíveis fósseis.
. 5 min de leitura
o Brasil não está alheio ao desafio mundial de desenvolver novas fontes de energia sustentáveis para substituir os combustíveis fósseis.

Apesar da posição confortável de líder mundial no aproveitamento de biomassa para a geração de energia, o Brasil não está alheio ao desafio mundial de desenvolver novas fontes de energia sustentáveis para substituir os combustíveis fósseis. Órgãos governamentais, instituições de pesquisa e empresas públicas e privadas desenvolvem atualmente uma série de projetos, parte deles para melhorar o desempenho e o aproveitamento da cana-deaçúcar e parte para encontrar alternativas a essa planta.

Segundos o Balanço Energético Nacional de 2008, do Ministério das Minas e Energia, o mais recente disponível, do total da energia primária produzida no país, 51,6% provém de fontes não renováveis, com destaque para petróleo (38,7%) e gás natural (9,0%). Das fontes renováveis (48,4%), a principal contribuição é da cana com 19%, seguida das hidrelétricas (13,4%) e da lenha (12,4%).

É justamente para melhorar esse quadro, aumentando a oferta de energia renovável, que o país vem investindo em pesquisa. Entre os gastos públicos estão os do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), que prevê, em quatro anos, R$ 304,47 milhões para apoio a pesquisas em biocombustíveis. O MCT coordena ainda a Rede Brasileira de Tecnologia de Biodiesel (RBTB), que conta com cerca de 300 pesquisadores e 80 instituições. Entre as plantas estudadas, as mais promissoras para a produção desse tipo de combustível são a soja e a mamona.

O ministério também investe no desenvolvimento de novas fontes de energia a partir de biomassas alternativas. Para isso, criou, em 2003, a Rede de Tecnologias de Combustão (RNC), que recebeu nos últimos cinco anos cerca de R$ 15 milhões. “Entre os seus projetos mais promissores está um combustor, criado na Universidade Federal do Pará (UFPA), para a geração de energia a partir da queima da serragem oriunda das madeireiras”, diz Ronaldo Mota, secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do MCT.

Como não poderia deixar de ser no país maior produtor mundial de açúcar e álcool a partir de cana, é essa planta que recebe a maior atenção e sobre a qual existem mais projetos de pesquisa. “A principal fonte de biomassa para a geração de energia no Brasil é a cana-de-açúcar, da qual são colhidas mais de 500 milhões de toneladas por ano, que é equivalente em termos de energia a cerca de 4 milhões de barris de petróleo por dia”, diz o físico José Goldemberg. “Os grandes desafios para a pesquisa no momento são dois: modificar geneticamente a planta para produzir mais açúcar e álcool e desenvolver tecnologias de segunda geração, usando celulose no lugar dela para a produção de etanol.”

Segundo Goldemberg, é esta segunda linha que os Estados Unidos estão explorando, mas com desvantagem em relação ao Brasil. “Se os problemas técnicos forem resolvidos, será possível usar o bagaço como fonte de celulose e no nosso país ele já está disponível nas usinas”, explica. “Nos Estados Unidos, ele terá que ser produzido e recolhido nos campos para processamento.” Para Goldemberg, o Brasil tem boas chances de sucesso seguindo essa rota. “O governo federal está investindo pesado num centro dedicado à pesquisa tecnológica de segunda geração em Campinas.”

Ele se refere ao Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), criado no início deste ano, com o objetivo de contribuir para a liderança brasileira no setor de fontes renováveis de energia e, principalmente, para o desenvolvimento da cadeia produtiva do álcool de cana-de-açúcar. “Os investimento iniciais no CTBE foram de R$ 69 milhões”, informa seu diretor científico, o botânico Marcos Buckeridge. “Agora, ainda estamos investindo o dinheiro na contratação de pesquisadores.”

As empresas também participam desse esforço em busca de energia renovável. Um exemplo é a Petrobras. A companhia vai investir, no período 2009-2013, US$ 530 milhões para pesquisas em biocombustíveis e o desenvolvimento de projetos para o aproveitamento de resíduos celulósicos agroindustriais, como o bagaço de cana. Para isso, já há uma planta piloto desde 2007. Outra linha em desenvolvimento na empresa é a produção de biodiesel a partir de microalgas. Atualmente, seus técnicos estão trabalhando na identificação e cultivo daquelas que produzam óleo com qualidade adequada e em grande quantidade.

Apesar de todos esses investimentos, os primeiros resultados concretos e economicamente viáveis na produção de etanol de segunda geração, isto é, pela rota bioquímica, devem demorar dez anos ou mais. Por isso, há quem considere mais promissor o caminho termoquímico. Hoje, muitas usinas produzem energia dessa forma, queimando o bagaço para gerar eletricidade. Segundo Zilmar José de Souza, assessor de bioenergia da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), das 437 usinas existentes no país, pelo menos 100 produzem energia elétrica excedente e exportam para a rede de transmissão do país. “Em 2009, foram 5,8 GW, o que representa 7% do que Itaipu produziu no mesmo ano”, diz. “O potencial dos canaviais brasileiros para 2017/2018 chega 10 GW.”

Isso poderá ocorrer porque hoje apenas um terço do potencial da cana-de-açúcar é aproveitado, que é a sacarose, da qual se faz o açúcar e o álcool. Do restante, um terço é bagaço, do qual é aproveitada uma fração mínima, e um terço é palha, que hoje é desperdiçada. Por isso, o pesquisador Luiz Augusto Barbosa Cortez, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), acredita que atualmente amelhor maneira de aproveitar a cana como fonte de energia é pela rota termoquímica. “Por esse caminho, ela pode gerar energia de duas maneiras, pela pirólise (ou carvoamento) e pela gaseificação de sua biomassa”, explica. “No primeiro caso, dá origem a um sólido, o carvão, ou a um líquido, o alcatrão, que é um bio-óleo. No segundo, pode se obter eletricidades e combustíveis líquidos, como biogasolina e biodiesel.”

Evanildo da Silveira
Valor Econômico
Compartilhar:

Artigos relacionados