BiodieselBR
Publicidade

Biodiesel enfrenta gargalo

Produção do óleo depende quase que exclusivamente da soja, commodity cujo destino prioritário é o mercado externo. Culturas como mamona e pinhão-manso não decolaram
BiodieselBR.com 6 min de leitura
Produção do óleo depende quase que exclusivamente da soja, commodity cujo destino prioritário é o mercado externo. Culturas como mamona e pinhão-manso não decolaram

A partir de janeiro de 2010, o Brasil se prepara para adicionar 5% de biodiesel ao óleo diesel derivado do petróleo. Mas o padrão, chamado B5, chega às bombas sem solucionar um dos principais entraves à consolidação do mercado nacional do biodiesel: o fornecimento de matéria-prima. Apesar de o país ter vocação para produção de energia limpa, ainda não existe escala que garanta sustentabilidade ao Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB).

Das cerca de 100 indústrias instaladas em diferentes regiões do país, apenas 30% estão em produção. Aproximadamente 80% do biodiesel comercializado nos leilões da Agência Nacional do Petróleo (ANP) vêm da soja – mas especialistas alertam que, a partir do B5, o volume do grão produzido no país não será suficiente para abastecer a demanda do mercado interno, já que, além do crescimento do consumo nacional, a cotação da commodity define a oferta no mercado interno. Quando o produto está em alta, o interesse da produção se volta para a exportação. Atualmente, a soja está cotada em R$ 1,7 mil a tonelada, mas o grão já atingiu o dobro desse valor, estimulando as vendas internacionais.

“É perigoso aumentar a adição de biodiesel com base em projetos de pesquisa envolvendo as culturas alternativas. A disponibilidade da soja depende das cotações internacionais. Se o preço cresce no mercado externo, o Brasil pode ter um problema de abastecimento e vai ter que importar o óleo”, avalia Peter May, professor de pós-graduação em agricultura da Universidade Rural do Rio de Janeiro.

Culturas alternativas, como a mamona, ainda têm uma participação simbólica na produção, inferior a 2%. Outras apostas, como o pinhão-manso, não têm escala de produção. “Não existe matéria-prima alternativa disponível no mercado. O custo final do insumo do biodiesel ainda é alto”, comenta Luciano Piovesan, diretor da Fusermann Óleos Vegetais, indústria instalada em Barbacena, na Região Central do estado, e que, no momento, não está comercializando óleo para o setor de biodiesel. Segundo ele, o mercado será promissor a médio prazo, quando as culturas da agricultura familiar estiverem em desenvolvimento. Para ser consumido nas bombas, o biodiesel deve custar no máximo R$ 2. “Esse é outro gargalo. Para serem competitivas, as culturas alternativas dependem de um programa de subsídio que ninguém sabe bem ao certo como vai funcionar”, alerta May.

PRODUÇÃO
A mistura de 4% de biodiesel ao diesel passou a ser obrigatória no Brasil desde o início do mês, elevando a produção mensal do Brasil para aproximadamente 160 milhões de litros, um crescimento de 33%. Caso a adição de 5% seja autorizada a partir de 1º de janeiro, conforme anunciou em maio o ministro de Minas e Energia Edson Lobão, em 2010 o país vai produzir 2,250 bilhões de litros, crescimento de 50% em relação a este ano. O sucesso do programa depende da capacidade de produzir novas matérias-primas. “A soja seria capaz de dar sustentabilidade ao B5. Depois disso, pode ser necessário rever as exportações do país”, avalia Univaldo Vedana, analista de mercado do portal BiodieselBR.

Segundo levantamento da ANP, o Brasil consome cerca de 45 bilhões de óleo diesel por ano, importando aproximadamente 15% desse volume. Especialistas do mercado consideram urgente o desenvolvimento de alternativas, já que a intenção do país é reduzir a dependência do mercado externo. “A alternativa brasileira é incentivar as safrinhas, cultivando oleaginosas entre abril e outubro, quando temos cerca de 40 milhões de hectares sem uso. Essa é a alternativa, já que ainda não foi descoberta a cana-de-açúcar do biodiesel”, compara Vedana.

Soja, algodão e os óleos reciclados devem sustentar o mercado de biodiesel a curto prazo, na opinião de Luciano Piovesan, já que a ausência de escala ainda deixa o preço da produção de outros insumos sem competitividade. A mamona, por exemplo, chega a valer o dobro do óleo de soja, o que deixa o produto fora dos insumos utilizados pelas unidades produtivas.

Boeing e alemães mostram interesse

Enquanto aguardam pelo sinal verde do governo, que significa abrir o crédito oficial para o plantio de culturas alternativas, agricultores do Norte de Minas estão voltando a receber propostas de investidores europeus para o cultivo em parceria. As negociações haviam sido suspensas desde o agravamento da crise financeira mundial. Segundo a Associação Nacional dos Produtores de Pinhão-manso (ANPPM), o maior interesse é por parte de alemães e italianos, que veem a possibilidade de utilizar o biodiesel em seus motores movidos a óleo, sem haver necessidade da conversão da frota. Outra interessada no potencial brasileiro seria a fabricante americana de aviões Boeing, que, segundo a ANPPM, estuda a possibilidade de utilizar o óleo para a fabricação do bioquerosene.

“Por meio de investidores da Alemanha, sabemos que o país não vai permitir o uso de óleo comestível nos motogeradores a partir de 1º de janeiro de 2010. Como ninguém vai usar o óleo de mamona, que é muito oneroso e tecnicamente não serve para o propósito, a demanda de óleo de pinhão-manso vai aumentar”, aposta Nagashi Tominaga, diretor da associação.

Em 27 de julho, uma reunião com a Embrapa deve buscar solução para o zoneamento agroecológico da cultura, o que abre acesso ao Programa Nacional de Financiamento Familiar (Pronaf). Segundo Tominaga, o objetivo dos investidores estrangeiros é a produção em parceria, já que a busca por matérias-primas não é só brasileira. O Brasil tem cerca de 82 mil famílias da agricultura familiar envolvidas na produção de biodiesel.

Outras culturas que têm escala para produção são o girassol, a canola e o nabo forrageiro. Todas elas, no entanto, fornecem também o óleo comestível, que atinge preço maior no mercado alimentício e, por isso, competem com as usinas. O biodiesel é considerado um aditivo verde para o óleo diesel com baixos teores de enxofre. Desde que a mistura B2 começou a ser utilizada, em janeiro de 2007, a ANP vem garantindo o abastecimento de biodiesel em todo o Brasil. Desde 2005, já foram realizados 14 leilões para venda de biodiesel.

Marinella Castro - O Estado de Minas
Compartilhar:

Artigos relacionados