Como tem sido apontado com probidade nos artigos publicados recentemente na mídia, o óleo de tungue tem sido largamente utilizado, junto com os óleos de linhaça e oiticica, na indústria de tintas e vernizes. Esse uso é possível graças á presença majoritária do ácido graxo -eleoesteárico na sua composição, como pode ser conferido na Tabela abaixo. Esse ácido graxo é poli-insaturado, possuindo três duplas ligações nas suas cadeias. Ao entrar em contato com o oxigênio do ar, ou simplesmente quando aquecido, essas duplas ligações sofrem um processo oxidação que leva a polimerização (as cadeias vão se grudando uma nas outras), fazendo com que o óleo se solidifique. Essa característica pode ser medida pelo “índice de secagem”. Como pode ser visto na Tabela abaixo, comparando com os óleos de coco, soja e linhaça, o óleo de Tungue é o que possui o maior índice de secagem, evidenciando uma alta tendência a sofrer polimerização, o que nos leva a classificá-lo como um óleo secativo.
Mas qual a implicância dessa propriedade para o uso desse óleo como matéria-prima para a produção de biocombustíveis? Uma das propriedades especificadas em todas as normas de qualidade do biodiesel, seja a ANP 42 de 2004 ou qualquer norma internacional, é justamente a estabilidade à oxidação. Esse parâmetro de qualidade estabelece justamente o limite para a tendência de um óleo sofrer oxidação e polimerização. Mesmo o óleo de soja, que é um óleo semi-secativo e que tem índice de secagem bem inferior ao de tungue e ao de linhaça, não passa no teste de estabilidade à oxidação, sendo necessário adicionar aditivos para estabilizá-lo.
Mas porque é tão importante estabelecer limites para a estabilidade à oxidação? Em primeiro lugar, devemos considerar a dificuldade que seria armazenar um biodiesel feito com um óleo secativo, onde iria ocorrer certamente a sua solidificação. Caso o biodiesel não se solidifica durante a sua fabricação e armazenagem, a alta temperatura do sistema de injeção provocaria uma rápida secagem, ocorrendo depósitos que iriam formar piche em todos os componentes. No caso do óleo de tungue, o mais secativo descrito na literatura, seria difícil encontrar um aditivo que evitasse a sua solidificação durante a produção, armazenagem ou uso do biodiesel, o que o torna impensável para ser usado como matéria-prima para o PNPB.
Acredito que este seja mais um exemplo de sugestão de matéria-prima totalmente despropositado. Ao se pensar em propor uma nova fonte de oleaginosa, deve-se ter clareza que se deve atender três aspectos: (i) viabilidade técnica e econômica para a produção agrícola do óleo; (ii) viabilidade técnica e econômica para transformá-lo em biodiesel; e (iii) garantias de que a qualidade do biocombustível produzido será compatível com o seu uso em motores veiculares ou estacionários. Se um desses três aspectos não for contemplado, certamente não se deve considerar a fonte oleaginosa para o PNPB. No caso específico do tungue, vamos deixá-lo para a indústria de tintas e vernizes, onde é uma excelente matéria-prima!
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Coco |
Soja |
Linhaça |
Tungue |
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ÁCIDOS GRAXOS |
ESTRUTURA |
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Ácido Caprílico |
C8:0 |
8,0 |
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Ácido Cáprico |
C10:0 |
7,0 |
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Ácido Láurico |
C12:0 |
48,0 |
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Ácido Mirístico |
C14:0 |
18,0 |
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Ácido Palmítico |
C16:0 |
9,0 |
8,0 |
6,0 |
4,0 |
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Ácido Esteárico |
C18:0 |
2,0 |
6,0 |
4,0 |
1,0 |
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Ácido Oléico |
C18:1 |
6,0 |
28,0 |
20,0 |
5,0 |
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Ácido Linoléico |
C18:2 |
2,0 |
50,0 |
17,0 |
8,0 |
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Ácido Linolênico |
C18:3 |
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8,0 |
53,0 |
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Ácido a-Eleosteárico |
C18:3 |
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82 |
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Propriedade |
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Índice de Iodo |
8 |
130 |
185 |
165 |
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Índice de secagem |
2 |
66 |
123 |
>172 |
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Classificação |
Não-secativo |
Semi-secativo |
Secativo |
Secativo |
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FONTE: Van de Mark, M. R.; Sandefur, K.; Vegetable Oils in Paint and Coatings. In: Industrial Uses of Vegetable Oils; Erham, S. Z. Ed. Champaingn, Il – EUA; pp 143-162 (2005).
Paulo Anselmo Ziani Suarez é engenheiro químico, colunista BiodieselBR.com, com pós-doutorado pelo National Center for Agricultural Utilization Research dos Estados Unidos.E-mail: psuarez@unb.br
Saiba mais sobre o autor.