Um dos pontos obrigatórios para os turistas que visitam Berlin, capital
da Alemanha reunificada, é a visita ao parlamento, ou como eles o
chamam “O Reichstag”.
Paulo Suarez ··4 min de leitura
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Um dos pontos obrigatórios para os turistas que visitam Berlin, capital da Alemanha reunificada, é a visita ao parlamento, ou como eles o chamam “O Reichstag”. Construído entre 1884 e 1894, esse imponente prédio foi severamente destruído durante a Segunda Guerra mundial, sendo restaurado somente entre 1995 e 1999. Na frente do prédio é possível ver filas enormes de turistas à espera de visitá-lo, especialmente para ver uma cúpula de vidro e aço e um cone espelhado em seu telhado. O que essa massa de turistas não sabe é que, além da beleza arquitetônica, esse prédio abriga um sistema inovador de produção e uso de energia. Em agosto último tive a oportunidade de realizar uma visita técnica ao Reichstag oculto, onde uma grande equipe de técnicos trabalha sem parar para produzir e gerenciar o consumo energético do prédio.
O coração de todo sistema é uma termoelétrica que existe no subsolo, movida unicamente a B100 de colza. Apenas em situações emergenciais, este sistema pode utilizar gás natural ou, ainda, óleo diesel. Do lado da termoelétrica, um complexo sistema transforma as emissões da queima do biodiesel em praticamente ar aquecido, o qual sai por uma das quatro torres que existem nos cantos do prédio, sem que os turistas que caminham a poucos metros percebam que existe ali uma saída de chaminé. Existe também uma pequena produção de energia elétrica usando painéis solares, os quais estão discretamente posicionados nos telhados do prédio principal e dos anexos.
Além de ser consumida para, entre outros, alimentar o sistemas de som, elevadores, iluminação (deve-se destacar que o consumo de energia para iluminação do plenário é minimizado pelo enorme cone espelhado que encanta aos turistas), a energia elétrica é usada para movimentar um sistema de bombas, que fazem circular água para climatizar o prédio. No inverno, trocadores de calor discretamente colocados nos telhados resfriam água e a depositam em reservatórios naturais subterrâneos, de baixa profundidade, onde ela se mantém resfriada até o verão para ser usada no resfriamento dos ambientes. Já no verão, esse sistema aquece a água e a deposita em reservatórios subterrâneos de alta profundidade, onde ela se mantém aquecida até o inverno para resfriar os ambientes. Para complementar o aquecimento da água, utiliza-se também o calor dos gases de combustão do biodiesel que deixam a termoelétrica. Evidentemente, existem condicionadores de ar convencionais que são acionados sempre que este sistema falha em manter a temperatura no interior do prédio agradável.
Porém, como toda inovação, o sistema do Reichstag, além de ter sido bem mais caro do que um convencional, têm apresentado problemas. O que mais me preocupou diz respeito ao desempenho do B100 nos motores estacionários. Usando somente biodiesel que especifica na norma européia, tida por muitos como extremamente rigorosa, depósitos e coqueificação em bombas e injetores tem feito com que a manutenção seja duas vezes maior, além de uma diminuição drástica na vida útil desses dispositivos. A presença de pequenas quantidades de açúcares no óleo de colza, que varia com as condições edafo-climáticas onde foi cultivada, parece ser a origem do problema. Ironicamente, as mudanças climáticas que se pretendeu conceitualmente combater, têm afetado de forma drástica o sistema de refrigeração. Projetado para as condições climáticas de 15 anos atrás, esse sistema não esta mais conseguindo gerar água resfriada no inverno suficiente para climatizar o prédio no verão.
Apesar do maior investimento para implementação e um custo anual de consumo e manutenção mais caro em até 30 % em relação a um sistema convencional, acredito que o Reichstag representa um importante laboratório no sentido do desenvolvimento de tecnologias limpas. Espero que a equipe técnica consiga superar os atuais problemas e que se alcance um modelo a ser seguido por outros grandes prédios público ou privados.
Paulo Anselmo Ziani Suarez é engenheiro
químico, colunista BiodieselBR.com, com pós-doutorado pelo National
Center for Agricultural Utilization Research dos Estados Unidos.
E-mail: psuarez@unb.br Saiba mais sobre o autor.