A Índia é um dos poucos países com mais de um bilhão de habitantes, tornando a necessidade de produção de alimentos em larga escala essencial para a sociedade indiana. Por outro lado, o território indiano está longe de possuir a disponibilidade de terras e água que temos no Brasil. Ou seja, a seguridade alimentar é prioritária em relação à produção de biocombustíveis, não podendo, de forma alguma, a produção desses se sobrepor à produção de alimentos. Por esta razão, é proibido na Índia utilizar terras aptas à produção de alimentos para o cultivo de culturas não comestíveis ou uso de alimentos para a produção de biocombustíveis. Desta forma, pesquisadores e o setor industrial devem desenvolver tecnologias diversificadas, seja para o cultivo de culturas alternativas utilizando terras degradadas ou semi-áridas ou desenvolvimento de processos para transformação de resíduos ou subprodutos do setor agroindustrial em combustíveis.
Atualmente existe um programa do governo indiano para substituição parcial da gasolina por bioetanol, sendo hoje comercializada uma mistura de gasolina com 5 % etanol anidro. Além disso, atualmente está sendo travada uma discussão para elevar este teor para 10 %, mas existe uma forte resistência por parte dos fabricantes de motores. A Índia é hoje o maior produtor de cana-de-açúcar em nível mundial. No entanto, como a indústria não pode produzir o bioetanol utilizando o açúcar da cana, apenas é utilizado como matéria-prima o melaço gerado como subproduto da produção de açúcar refinado. É interessante destacar que as usinas de álcool são geralmente independentes das de açúcar.
Em relação ao biodiesel, existe um projeto para torná-lo compulsório a partir de 2012. A idéia também é comercializá-lo misturado ao diesel, em teores de 5 %. Hoje existem pequenas fábricas de biodiesel na Índia. No entanto, o custo do biodiesel, principalmente agora com o preço do petróleo em baixa, é ainda proibitivo. Como não se pode utilizar óleo de soja ou qualquer outra oleaginosa comestível, estão sendo propostas matérias-primas que se adaptam em terras com pouca aptidão para o cultivo de alimentos. Além de não competir com alimentos, existe também a preocupação de que o B100 atinja as especificações técnicas aceitas pelos padrões internacionais de qualidade, como ASTM e EN. Assim, diferentemente do que foi feito no início do programa brasileiro de biodiesel, o óleo de mamona foi descartado como possível matéria-prima. Pesquisadores do Instituto Indiano do Petróleo (IIP) na cidade de Dehradun no nordeste da Índia, onde estive em visita recentemente, já identificaram mais de 10 culturas, como o pinhão-manso, que atendem estas características.
Por outro lado, os pesquisadores indianos com os quais conversei, além das pesquisas em biodiesel, estão fortemente empenhados no desenvolvimento de biocombustíveis de segunda-geração. As principais iniciativas são: (i) pirólise rápida de biomassa, preferencialmente bagaços e palhas gerados na produção de alimentos, para a produção de bio-óleos; (ii) craqueamento termo-catalítico de materiais graxos; (iii) aproveitamento de correntes líquidas oriundas do setor agro-industrial, como licores produzidos em usinas de celulose; e (iv) produção de hidrocarbonetos pelo processo de Fischer-Tropchs usando bio-gás de síntese gerado pela reforma de biomassa.
Pelo que escutei nas reuniões e conversas que participei, a principal estratégia na Índia é muito próxima a que tenho sempre defendido aqui na minha coluna e demais fóruns onde expresso a minha opinião, ou seja, diversificar tanto as matérias-primas quanto o combustível. Talvez, a exemplo do que o IIP está fazendo, possamos diversificar os nossos esforços de pesquisa para poder desenvolver tecnologias de produção diversificada de matérias-primas e biocombustívies, aproveitando todas as oportunidades que as diferentes realidades regionais brasileiras nos oferecem.
Paulo Anselmo Ziani Suarez é engenheiro químico, colunista da BiodieselBR, com pós-doutorado pelo National Center for Agricultural Utilization Research dos Estados Unidos. Saiba mais sobre o autor.
Atualmente existe um programa do governo indiano para substituição parcial da gasolina por bioetanol, sendo hoje comercializada uma mistura de gasolina com 5 % etanol anidro. Além disso, atualmente está sendo travada uma discussão para elevar este teor para 10 %, mas existe uma forte resistência por parte dos fabricantes de motores. A Índia é hoje o maior produtor de cana-de-açúcar em nível mundial. No entanto, como a indústria não pode produzir o bioetanol utilizando o açúcar da cana, apenas é utilizado como matéria-prima o melaço gerado como subproduto da produção de açúcar refinado. É interessante destacar que as usinas de álcool são geralmente independentes das de açúcar.
Em relação ao biodiesel, existe um projeto para torná-lo compulsório a partir de 2012. A idéia também é comercializá-lo misturado ao diesel, em teores de 5 %. Hoje existem pequenas fábricas de biodiesel na Índia. No entanto, o custo do biodiesel, principalmente agora com o preço do petróleo em baixa, é ainda proibitivo. Como não se pode utilizar óleo de soja ou qualquer outra oleaginosa comestível, estão sendo propostas matérias-primas que se adaptam em terras com pouca aptidão para o cultivo de alimentos. Além de não competir com alimentos, existe também a preocupação de que o B100 atinja as especificações técnicas aceitas pelos padrões internacionais de qualidade, como ASTM e EN. Assim, diferentemente do que foi feito no início do programa brasileiro de biodiesel, o óleo de mamona foi descartado como possível matéria-prima. Pesquisadores do Instituto Indiano do Petróleo (IIP) na cidade de Dehradun no nordeste da Índia, onde estive em visita recentemente, já identificaram mais de 10 culturas, como o pinhão-manso, que atendem estas características.
Por outro lado, os pesquisadores indianos com os quais conversei, além das pesquisas em biodiesel, estão fortemente empenhados no desenvolvimento de biocombustíveis de segunda-geração. As principais iniciativas são: (i) pirólise rápida de biomassa, preferencialmente bagaços e palhas gerados na produção de alimentos, para a produção de bio-óleos; (ii) craqueamento termo-catalítico de materiais graxos; (iii) aproveitamento de correntes líquidas oriundas do setor agro-industrial, como licores produzidos em usinas de celulose; e (iv) produção de hidrocarbonetos pelo processo de Fischer-Tropchs usando bio-gás de síntese gerado pela reforma de biomassa.
Pelo que escutei nas reuniões e conversas que participei, a principal estratégia na Índia é muito próxima a que tenho sempre defendido aqui na minha coluna e demais fóruns onde expresso a minha opinião, ou seja, diversificar tanto as matérias-primas quanto o combustível. Talvez, a exemplo do que o IIP está fazendo, possamos diversificar os nossos esforços de pesquisa para poder desenvolver tecnologias de produção diversificada de matérias-primas e biocombustívies, aproveitando todas as oportunidades que as diferentes realidades regionais brasileiras nos oferecem.
Paulo Anselmo Ziani Suarez é engenheiro químico, colunista da BiodieselBR, com pós-doutorado pelo National Center for Agricultural Utilization Research dos Estados Unidos. Saiba mais sobre o autor.
Tags
Suarez