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Usineiros de Biodiesel podem parar a produção: Glicerina, oportunidade ou problema?

Para cada litro de biodiesel da transesterificação são gerados 100 mililitros de glicerina o que significa 80.000 toneladas/ano de glicerina a partir de 2008 (Programa Nacional B2).
Colunista convidado: Salvador Ávila Filho 5 min de leitura
Para cada litro de biodiesel da transesterificação são gerados 100 mililitros de glicerina o que significa 80.000 toneladas/ano de glicerina a partir de 2008 (Programa Nacional B2).

O mercado atual da glicerina é composto pelo fornecimento com base sintética produzida a partir da nafta e com base animal produzida a partir do sebo. A glicerina sintética possui preços elevados e ocupa pequena parte do mercado, normalmente é produzida de forma cativa. A glicerina animal é produzida a partir do sebo e possui custos elevados de produção quando comparados com a glicerina de origem vegetal.

Em termos de quantidade, o mercado oficial de consumo da glicerina é composto por 19.000 toneladas/ano informado pela ABIQUIM (2004). Segundo informações coletadas em indústria química que atua na produção de princípios ativos na indústria de limpeza, o consumo de glicerina está em torno de 30.000 a 35.000 toneladas/ano. Outra informação encontrada e que compõe o valor final da quantidade consumida de glicerina foi fornecido por empresa de tecnologia em óleos vegetais indicando que o consumo nacional de glicerina é de 40.000 toneladas/ano.

Segundo informações de Consultoria paulista na área da Oleoquímica, a entrada de glicerina no mercado vai promover o deslocamento deste produto de origem animal. Certamente isto só irá acontecer se alcançar o nível de qualidade exigido atualmente.

A purificação da glicerina deve ser realizada considerando as restrições ambientais e econômicas. Ambientais evitando a geração de efluentes líquidos em excesso ou emissões atmosféricas tóxicas. Econômicas no que diz respeito aos elementos precipitadores dos inorgânicos, ao uso de solventes, ao uso de vapor ou energia e dependendo do tipo de equipamento para realizar a purificação, conforme Figura 1 e 2 abaixo:

Glicerina Bruta, tratada e pura

{sidebar id=1} O principal uso atual para a glicerina é na indústria de cosméticos como agente umedecedor e amaciante. Também é bastante utilizada em: pasta de dente, sabão, maquiagens e desodorantes. Já na indústria alimentícia e de bebidas, a glicerina é utilizada como umectante, solvente, adoçante e conservante.

Na indústria farmacêutica, a glicerina é utilizada na formulação de xaropes, anestésicos, comprimidos e como agente plastificante (cápsulas de drágeas e
supositórios). A glicerina é bastante utilizada em lubrificação de equipamentos industriais, na fabricação de superfícies de revestimentos (resinas alquídicas) e polímeros biodegradáveis (HPAS) e utilizado na fabricação de explosivos.

A utilização da glicerina considerando o mercado atual baseado em tecnologia madura pode ser incrementada utilizando estudos de arranjos produtivos locais
próximos às plantas de biodiesel.

A transformação da glicerina vegetal co-produzida na indústria do biodiesel é negócio estratégico em nível internacional. Na Alemanha e na França o negócio
glicerina vegetal é considerado estratégico não havendo interesse de intercâmbio científico. No Brasil, existem grupos de pesquisa buscando soluções para a glicerina do biodiesel, em particular, o COBIO possui como objetivo abrir novas opções ou rotas de utilização da glicerina em larga escala.

O COBIO, grupo de pesquisa liderado pelo SENAI DRBA e apoiado pelo Governo da Bahia, atua articulando a base científica para atender a aplicação no meio industrial e rural das rotas tecnológicas de transformação dos co-produtos.

O desenvolvimento de pesquisas aplicadas é acompanhado de estudos de viabilidade econômico considerando as políticas fiscais para o biodiesel e o cenário do petróleo que define o preço dos produtos petroquímicos. Também é feita a viabilidade econômica da micro-unidade de desintoxicação da mamona a ser instalada no meio rural e utilizando recursos renováveis.

No meio industrial o COBIO está pesquisando reações que possam transformar a glicerina em produtos que garantam o seu escoamento para a cadeia petroquímica.

Neste sentido estão sendo desenvolvidos testes para definição de rotas nas bancadas do SENAI. A partir da confirmação das rotas de produção, a glicerina seria transformada em plantas-piloto para a validação da rota na forma industrial.

Na Indústria Petroquímica a glicerina pode ser transformada por catálise homogênea ou heterogênea, depende do tipo de modificação incorporada à molécula.

A produção de intermediários a partir da glicerina é etapa fundamental para chegar aos produtos finais utilizados nesta cadeia. Estes intermediários estão enquadrados como produtos da química fina e são: álcool alíllico, acroleína e gliceraldeído.

Dentre os produtos que estão sendo desenvolvidos pelas instituições de pesquisa inclusive alguns participantes do COBIO estão o ácido fórmico, ácido acrílico, poliglicóis, polióis, membranas, aditivos oxigenados, biogasolinas, poliglicerina e outros produtos derivados.

Não existem publicações científicas e nem tecnologias disponíveis em patentes, suficientes para validar em curto espaço de tempo, a transformação da glicerina em derivados que podem ser introduzidos na cadeia petroquímica. Neste caso, para tornar possível a produção de pesquisa aplicada sem vasto embasamento científico, é necessário unir informações da empresa interessada na rota (aspectos comerciais e estratégicos), informações resultantes da execução da pesquisa e informações da gestão da pesquisa. Desta forma, é possível realizar alterações em rotas tecnológicas sem que haja grandes perdas financeiras diminuindo os riscos incorporados.

Salvador Ávila Filho
salvador@cetind.fieb.org.br
(071) 3379-8202/8348/8349

Alexandre dos Santos Machado
Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial
Centro Tecnológico Industrial Pedro Ribeiro
Lauro de Freitas –BA, Brasil.

Salvador Ávila Filho
é Engenheiro Químico formado pela UFBA - Universidade Federal da Bahia, 1987. Especialização em Processamento Petroquímico pela PETROBRÁS, 1988, Engenheiro da Qualidade pela ASQ, EUA e Consultor Organizacional pela UCSal.
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