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O problema da oferta e demanda para o 50º Leilão de biodiesel

Na próxima semana acontece o L50 e o setor começa a dar sinais de que ele poderá ficar marcado na história do setor. E não de uma maneira positiva.
BiodieselBR.com 6 min de leitura
Na próxima semana acontece o 50º Leilão de Biodiesel e o setor começa a dar sinais de que ele poderá ficar marcado na história do setor. E não de uma maneira positiva.

No L50, a capacidade de oferta de biodiesel é a menor desde o final de 2012, 991,8 milhões de litros. As usinas têm ofertado uma média de 75% do volume máximo disponível – nos leilões para o 5º bimestre, as usinas ofertaram 77,9% em 2015, 64,5% em 2014 e 69,9% em 2013. Se usado esses percentuais como valores mínimo e máximo para a oferta do L50 teremos uma oferta entre 640,1 milhões de litros e 772,5 milhões de litros.

Outro cenário possível é das usinas habilitadas no L50 repitam o volume ofertado no L49. Se assim for, teremos uma oferta de 748 milhões de litros na terça-feira da próxima semana, quando está marcada a 2ª Etapa do certame.

Mas nenhum desses cenários está levando em conta a conjuntura atual de oferta de matéria-prima. O óleo disponível no mercado está caro. Isso porque as previsões para a safra no começo do ano eram quase 3 milhões de toneladas maiores do que as atuais. Essa diferença leva a estoques menores do que o esperado, gerando uma pressão de alta nos preços internos.

Com o óleo à preços mais altos, algumas usinas podem ofertar menos biodiesel. Para evitar isso, o preço máximo da ANP teria que compensar a diferença. Não foi bem o que aconteceu. Nos PMRs publicados ontem (03), a agência reguladora promoveu um dos maiores cortes no valor de referência do biocombustível.

Considerando as usinas habilitadas, o limite de oferta aponta para 750 milhões de litros. O volume mínimo ficaria próximo de 700 milhões de litros.

Demanda

Esse volume não seria preocupante se este não fosse o leilão para o 5º bimestre do ano. Historicamente esse é o bimestre em que as distribuidoras retiram o maior volume de biodiesel das usinas e, normalmente, isso leva um volume maior de compras.

Esse histórico, por si só, já indica que teremos o maior volume comprado e retirado do ano. Resta saber quão maior ele será.

Os fatores que mais influenciarão esse certame são: a retomada da economia, o plantio da próxima safra de soja e o consumo de diesel nas termelétricas.

Em 2015, a crise atingiu o país com mais força somente no segundo semestre do ano. Isso quer dizer que a comparação do primeiro semestre de 2016 com o de 2015 é de um semestre de profunda crise com outro de crise ainda em instalação. O segundo semestre deste ano irá acontecer o inverso. Será um semestre de saída de crise (2016) com outro de crise profunda (2015). Olhando exclusivamente esse aspecto, a demanda de diesel no 5º bimestre deste ano tende a ser maior que no ano passado.

O segundo ponto é a safra 2015/17 de soja, que deve ser 2% maior. Esse percentual foi alcançado pela Reuters usando a média dos dados de 5 consultorias especializadas no grão. A maior parte do plantio dessa soja toda acontece no 5º bimestre do ano. Consequentemente, o consumo de diesel pelos sojicultores será maior que o registrado ano passado.

É mais um motivo para termos uma demanda maior de diesel e, consequentemente, de biodiesel.

Mas o ponto de maior influência na demanda do L50 é o consumo das termelétricas movidas a diesel. Não por que as térmicas foram religadas – elas não foram. O que acontece é que já fez um ano desde que elas foram desligadas.

No primeiro semestre deste ano se consumiu 26,6 bilhões de litros de óleo diesel, 1,4 bilhão a menos que no mesmo período do ano passado. O consumo de diesel pelas termelétricas no primeiro semestre do ano passado foi de cerca de 1,8 bilhão de litros enquanto, no mesmo período de 2016, ficou em apenas 236 milhões de litros. Esse tem sido o principal fator por trás das seguidas quedas na demanda mensal por diesel medida pela ANP.

Comparando os dois números vemos que, se as térmicas tivessem mantido seu nível de atividade, a demanda de diesel teria crescido nesse primeiro semestre.

Como a maioria das termelétricas foi desligada em agosto do ano passado esse fator sai de cena. Isso sinaliza que, no 5º bimestre de 2016, deveremos ter quase o mesmo consumo de diesel pelas geradoras de energia elétrica que o bimestre equivalente de 2015. No penúltimo bimestre de 2015, foram consumidos cerca de 8 milhões de litros de biodiesel. A média do consumo bimestral em 2016 está em 4,6 milhões de litros. No primeiro semestre de 2015 a média bimestral foi de 36 milhões de litros de biodiesel.

Com isso, a demanda de biodiesel do L50 tende a não ficar muito diferente da vista no leilão do 5º bimestre do ano passado, próxima dos 700 milhões de litros.

Oferta baixa X Demanda alta

Uma oferta de 750 milhões de litros e uma demanda que deve ficar perto dos 700 milhões de litros não irá “quebrar” o leilão. Mas, graças a essa diferença mais apertada, a tendência é vermos um nivelamento dos preços no limite máximo imposto pela ANP. Algumas usinas podem até receber valores acima do preço máximo de referência. Será apertado, mas dentro das regras do jogo.

Nesse caso, os problemas viriam depois do leilão regular. Uma sobra de 50 milhões de litros é pouca para o leilão de opções. Não chegaria a ser catastrófico, mas seria necessário encontrar soluções alternativas – algumas das quais já foram aventadas em outras situações.

Acontece que a oferta das usinas pode ser bem menor, tendo em vista os preços máximos estipulados pela ANP. Um preço mais restrito inviabiliza a busca por óleos mais distantes e/ou caros o que poderia levar as usinas a ofertarem somente o volume que corresponda a matéria-prima que têm em estoque ou que já esteja negociada. O novo cenário pode trazer a oferta para mais perto dos 700 milhões de litros.

Nesse segundo cenário, teríamos um problema bem mais grave em mãos.

Essas são as projeções de oferta e demanda para o leilão. Outras pessoas que analisam o setor veem a demanda de biodiesel mais próxima dos 670 milhões de litros. Esse volume facilitaria um pouco a situação. Se a oferta ficar próxima de 750 milhões de litros será um bom leilão para as usinas sem qualquer risco de falta de biodiesel. Mas se a oferta ficar próxima dos 700 milhões de litros veremos ágios bem altos e um certame moroso que deverá avançar madrugada afora.

Uma tempestade está se formando. Algumas variáveis foram definidas ontem e indicam clima ruim. Outras, só serão definidas na semana que vem. Espero que soprem as nuvens negras para mais longe.

Miguel Angelo Vedana – BiodieselBR.com
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