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[Opinião] COP31 expõe a conta das guerras do petróleo

Alta do diesel pressiona governos a subsidiar combustíveis, enquanto Europa cobra mais cortes de emissões sem novos compromissos financeiros

Pedro Côrtes 4 min de leitura

A menos de um mês da COP31, a diferença entre o preço do petróleo e o do diesel mostra por que a transição energética também é uma questão fiscal. O Brent encerrou terça-feira, 13, a US$ 105,69 por barril, queda de 0,9%, segundo a Reuters. A expectativa de mais diesel russo aliviou o petróleo, mas não resolveu a escassez de combustíveis refinados.

Nos Estados Unidos, o preço médio do diesel ao consumidor subiu 78% entre 5 de janeiro e 5 de outubro, de US$ 3,477 para US$ 6,199 por galão, segundo a Administração de Informação de Energia (EIA).

Na União Europeia, avançou 39%, de € 1,54 para € 2,15 por litro, conforme o boletim semanal da Comissão Europeia. São preços com tributos e estruturas de mercado diferentes. Impostos fixos ajudam a amortecer a alta percentual europeia; os dados não medem subsídios específicos.

Na guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã, oleodutos sauditas e emiradenses ajudaram a recompor exportações de petróleo bruto. A consultoria Kpler estima que 40% do volume exportado pelo Golfo, excluído o Irã, já contorna Ormuz, ante 17% antes do conflito.

O gargalo está nos derivados: segundo dados da Kpler, o fluxo pelo estreito caiu de 3,6 milhões para cerca de 677 mil barris diários, na comparação com o período anterior à guerra. Petróleo bruto disponível não garante diesel.

A guerra entre Rússia e Ucrânia amplia essa distorção. Washington flexibilizou restrições ao diesel russo para aliviar a oferta. Trump anunciou um cessar-fogo para ataques a instalações energéticas, mas Kiev relatou novos bombardeios. O abastecimento domina as decisões.

É nesse cenário que a União Europeia propõe acelerar a implementação das metas nacionais de redução de emissões.

Segundo minuta vista pela Reuters, o bloco não prevê novos compromissos de financiamento climático na COP31. Não se trata de cancelar desembolsos já assumidos. O problema é cobrar investimentos adicionais de economias com crédito mais caro sem oferecer novos meios para viabilizá-los.

A COP29 estabeleceu a mobilização de ao menos US$ 300 bilhões anuais até 2035, sob liderança dos países desenvolvidos. O acordo também prevê esforços para ampliar o financiamento climático aos países em desenvolvimento para US$ 1,3 trilhão por ano até 2035, incluindo recursos públicos e privados.

Para adaptação, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente estima necessidades de US$ 310 bilhões por ano em 2035; o financiamento público internacional somou US$ 26 bilhões em 2023. Os valores têm alcances diferentes, mas dimensionam a insuficiência dos recursos disponíveis.

O Brasil exemplifica o custo da dependência: o Ministério de Minas e Energia prevê importações equivalentes a cerca de um terço da oferta de diesel em outubro.

A medida provisória de 8 de outubro abriu crédito extraordinário de R$ 7,52 bilhões para subvenções a derivados, dos quais R$ 6,17 bilhões para diesel rodoviário. É autorização orçamentária, não desembolso realizado. A medida pressiona o espaço fiscal, sem comprovar corte de projetos climáticos.

A dependência do petróleo já cobra seu preço nos orçamentos públicos. Subsídios emergenciais atenuam os efeitos imediatos das crises, mas não reduzem a exposição aos próximos choques. Ao cobrar implementação mais rápida das metas sem ampliar os compromissos de financiamento, a União Europeia leva a Antália uma contradição que a COP31 precisará enfrentar.

Crédito de menor custo, garantias para geração renovável e alternativas ao diesel seriam o caminho para superá-la. Sem isso, governos continuarão pagando para amortecer o próximo choque antes de investir para depender menos dele. A descarbonização exige investimentos que não se materializam somente com decisões diplomáticas.

Pedro Côrtes é professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e renomado especialista em Clima e Meio Ambiente

Textos opinativos não necessariamente traduzem o posicionamento de BiodieselBR.com. A publicação visa estimular o debate e proporcionar uma variedade de pontos de vista para os leitores.
 

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