Macaúba pode ser matéria-prima alternativa para biodiesel

Seduzidos pelos encantos de Veneza, os 150 participantes da conferência "Perspectivas para o Agronegócio: um panorama para os próximos cinco anos", promovida pelo grupo Agrenco na histórica cidade italiana, foram surpreendidos com a informação de que a macaúba, uma planta desprezada e pouco conhecida até mesmo pelos brasileiros poderá nos próximos anos se tornar uma alternativa para a produção de biocombustível. Ao fazer essa revelação na sexta-feira de manhã como participante do encontro, o engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Soja, Décio Luiz Gozzoni, levou em conta algumas necessidades ainda pouco consideradas pela maioria dos envolvidos com a cadeia dos bicombustíveis.

A primeira delas é que diante da expectativa de uma demanda cada vez maior provocada pelas crescentes dificuldades de exploração dos combustíveis fósseis e também por sua utilização como arma política, um programa para os biocombustíveis terá cada vez mais que levar em conta a utilização de plantas de alta produtividade como matéria-prima. Outra consideração é que assim como as fontes energéticas, a questão da água também adquire importância cada vez maior, lembrando vários indicadores preocupantes de problemas climáticos e escassez de água, entre eles um bem recente que foi a forte estiagem que afetou os rios da Amazônia no ano passado. A terceira premissa mencionada por Gozzoni é a necessidade de frear as correntes migratórias internas, garantindo emprego às populações em suas regiões de origem.

A macaúba, de acordo com o pesquisador, atende essas três condições com vantagens sobre outras plantas culturas que ocupam hoje posição de destaque no Brasil na produção de biodiesel, como a soja e o dendê. Embora com um potencial menor que da soja para produzir óleo, a macaúba ganha pelo volume que pode passar de 30 toneladas de biomassa por hectare, enquanto no caso da soja é de apenas 4%, o que resultaria em cerca de 5 mil litros e um mil litros de biodiesel por hectare, respectivamente. Além disso, a macaúba, uma palmeira rústica, necessita de muito pouca água, concorrendo, nesse caso, também com a palma ou dendê.

"Toda política pública vai ter que levar em conta a importância do agronegócio na formação do PIB", afirma Gozzoni, ao ressaltar, nesse caso, a necessidade da contenção das correntes migratórias internas - como acontece, por exemplo, todo ano com os trabalhadores nordestinos que se deslocam para o Sudeste, especialmente o interior paulista, para a safra da cana-de-açúcar - e evitar que a solução do problema energético gere outro, que é o inchaço das cidades das regiões produtoras.

Como diz o pesquisador, a macaúba atende plenamente também esse objetivo, já que exigirá trabalho manual contribuindo para garantir a fixação das famílias à terra. "Um dia, alguém vai inventar uma máquina de colher macaúba, mas isso vai demorar", diz ele.

Demanda potencial

Elogiando a utilização da mamona como política de agricultura familiar para a produção de biodiesel, Gozzoni alerta que também nesse caso a macaúba surge como uma alternativa atraente. "E se, uma vez consolidada como cultura das pequenas propriedades, a mamona for vítima de alguma nova praga?", indaga ao lembrar da necessidade de uma segunda cultura fixadora da mão-de-obra.

Guzzoni leva em consideração a demanda potencial do biodiesel para 2020 que, de acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), em apenas oito países, saltará de 34,7 milhões de toneladas em 2010 para 133,8 milhões em 2020, com um incremento próximo de 300%. Os Estados Unidos se manterão como o principal consumidor, saltando de 14,8 milhões para 51,5 milhões de toneladas, mas percentualmente o grande incremento será mostrado pelo Brasil cujo potencial de consumo será de 20 milhões de toneladas em 2020, cerca de 900% acima dos dois milhões de toneladas de 2010.

É dentro dessa perspectiva de mercado que Gozzoni insere a macaúba, cuja vocação para produzir óleo foi pesquisado pela Embrapa com bons resultados na década de 80, quando a palavra biodiesel, assim como a macaúba hoje, era desconhecida da grande maioria das pessoas.

Gabriel de Salles

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