
Com a cotação do dólar subindo, é preciso observar de que forma os impactos estão sendo absorvidos pelas usinas de biodiesel.
De uns tempos para cá, dólar e o preço do biodiesel estão caminhando em direções opostas. Enquanto a moeda norte-americana disparou – saindo de menos de R$ 2,05 em primeiro de janeiro até bater em praticamente R$ 2,26 na semana passada, o preço do biodiesel despencou e nos últimos dois leilões foi vendido abaixo da marca de R$ 2 por litro.
O grande problema é que a principal matéria-prima usada pelo segmento é o óleo de soja – com 75,7% do mercado em abril – é uma commodity internacional com preços definidos na moeda norte-americana. E não é só isso. Outros insumos importantes para a indústria, como o metanol e o metilato de sódio, também têm seus preços atrelados ao dólar.
Isso quer dizer o seguinte: se o dólar sobe, pela lógica fabricar biodiesel deveria ficar automaticamente mais caro. Ou quase isso. No fim das contas, a realidade comporta um pouco mais de matizes além do preto e do branco.
Por exemplo, contrariando a lógica mais elementar, óleo de soja ficou mais barato. Segundo levantamento da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) no mercado paulista a tonelada do produto que era negociada a R$ 2.7848 em janeiro encerrou abril valendo R$ 2.265 – uma redução de 17,5%. Segundo o assessor econômico da entidade, Leonardo Zilio, a explicação para o aparente paradoxo está na grande oferta de óleos vegetais no mercado global que tem levada a uma queda nas cotações internacionais que mais do que compensa a valorização do dólar.
“No cenário atual, de grande disponibilidade de óleos há uma tendência de queda de preços na CBOT [a Bolsa de Chicago que serve de referência para esses produtos] e das cotações internas”, explica o economista.
O presidente da BSBios e da Associação dos Produtores de Biodiesel do Brasil (Aprobio), Erasmo Battistella, também aponta para a queda nas cotações do óleo para explicar porque a alta do dólar não está afetando os fabricantes de forma assim tão aguda. Mesmo no que diz respeito ao metanol e ao metilato, ele aponta que a indústria “ainda não viu um impacto muito forte”.
Hedge
Isso não é tudo. O próprio mercado financeiro oferece meios capazes de amortecer o impacto desse tipo de variação para as empresas. Em bom economês esse tipo de mecanismo é chamado de hedge e funciona um tantinho como comprar um seguro. A empresa topa desembolsar um dinheiro a mais para comprar, nos chamados mercados futuros, a preços pré-fixados. Trocando em miúdos, numa operação de hedge uma usina de biodiesel pode fechar, hoje, o contrato de compra do óleo de soja que vai usar só daqui a dois meses. E, quando chegar a hora de executar esse contrato, faça chuva ou faça sol vai valer o preço combinado e não a cotação do dia.
Claro que como qualquer outro instrumento do mercado financeiro, o hedge comporta uma dose controlada de risco. No nosso exemplo, se o preço do óleo de soja tiver despencado nos dois meses de vigência do contrato, nossa usina teórica teria perdido dinheiro com a operação. Talvez a maior vantagem do mecanismo é permitir que as empresas possam se planejar sem levar sustos no meio do caminho. “Ás vezes o mais importante não é ganhar, mas simplesmente não perder”, brinca Battistella.
Segundo o diretor financeiro da Camera Agroalimentos, Fábio Magdaleno, o maior problema é que em momentos de maior volatilidade do mercado fazer hedge pode sair caro. “Para fazer hedge um mês atrás, por exemplo, nos custava algo como 5% ao ano. Hoje, este custo já está ao redor de 7%. Para um setor que já está com margens espremidas isso é muito relevante”, diz ressaltando que, num contexto como esse, essas operações exigem que as usinas tenham “bons limites de crédito” o que nem sempre é o caso. “Essas condições [de crédito] podem não estar acessíveis a todos os players do mercado de biodiesel. As pequenas usinas, principalmente, devem ter alguma dificuldade nestas operações”, complementa o executivo.
Battistella reconhece a dificuldade especialmente em função da heterogeneidade do setor que comporta usinas de portes bastante diversos tanto verticalizadas quanto não verticalizadas, mas, mesmo assim, recomenda que as usinas invistam para minimizar seus riscos. “Tem empresas que não fazem e outras que fazem só parcialmente. Pessoalmente, como estamos num mercado baseado em commodities agrícolas que tem uma volatilidade grande, eu recomendo que todas façam seus hedges”, aconselha. “Quem fez isso da maneira correta não vai sentir impacto nenhum”, finaliza.
Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com
De uns tempos para cá, dólar e o preço do biodiesel estão caminhando em direções opostas. Enquanto a moeda norte-americana disparou – saindo de menos de R$ 2,05 em primeiro de janeiro até bater em praticamente R$ 2,26 na semana passada, o preço do biodiesel despencou e nos últimos dois leilões foi vendido abaixo da marca de R$ 2 por litro.
O grande problema é que a principal matéria-prima usada pelo segmento é o óleo de soja – com 75,7% do mercado em abril – é uma commodity internacional com preços definidos na moeda norte-americana. E não é só isso. Outros insumos importantes para a indústria, como o metanol e o metilato de sódio, também têm seus preços atrelados ao dólar.
Isso quer dizer o seguinte: se o dólar sobe, pela lógica fabricar biodiesel deveria ficar automaticamente mais caro. Ou quase isso. No fim das contas, a realidade comporta um pouco mais de matizes além do preto e do branco.
Por exemplo, contrariando a lógica mais elementar, óleo de soja ficou mais barato. Segundo levantamento da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) no mercado paulista a tonelada do produto que era negociada a R$ 2.7848 em janeiro encerrou abril valendo R$ 2.265 – uma redução de 17,5%. Segundo o assessor econômico da entidade, Leonardo Zilio, a explicação para o aparente paradoxo está na grande oferta de óleos vegetais no mercado global que tem levada a uma queda nas cotações internacionais que mais do que compensa a valorização do dólar.
“No cenário atual, de grande disponibilidade de óleos há uma tendência de queda de preços na CBOT [a Bolsa de Chicago que serve de referência para esses produtos] e das cotações internas”, explica o economista.
O presidente da BSBios e da Associação dos Produtores de Biodiesel do Brasil (Aprobio), Erasmo Battistella, também aponta para a queda nas cotações do óleo para explicar porque a alta do dólar não está afetando os fabricantes de forma assim tão aguda. Mesmo no que diz respeito ao metanol e ao metilato, ele aponta que a indústria “ainda não viu um impacto muito forte”.
Hedge
Isso não é tudo. O próprio mercado financeiro oferece meios capazes de amortecer o impacto desse tipo de variação para as empresas. Em bom economês esse tipo de mecanismo é chamado de hedge e funciona um tantinho como comprar um seguro. A empresa topa desembolsar um dinheiro a mais para comprar, nos chamados mercados futuros, a preços pré-fixados. Trocando em miúdos, numa operação de hedge uma usina de biodiesel pode fechar, hoje, o contrato de compra do óleo de soja que vai usar só daqui a dois meses. E, quando chegar a hora de executar esse contrato, faça chuva ou faça sol vai valer o preço combinado e não a cotação do dia.
Claro que como qualquer outro instrumento do mercado financeiro, o hedge comporta uma dose controlada de risco. No nosso exemplo, se o preço do óleo de soja tiver despencado nos dois meses de vigência do contrato, nossa usina teórica teria perdido dinheiro com a operação. Talvez a maior vantagem do mecanismo é permitir que as empresas possam se planejar sem levar sustos no meio do caminho. “Ás vezes o mais importante não é ganhar, mas simplesmente não perder”, brinca Battistella.
Segundo o diretor financeiro da Camera Agroalimentos, Fábio Magdaleno, o maior problema é que em momentos de maior volatilidade do mercado fazer hedge pode sair caro. “Para fazer hedge um mês atrás, por exemplo, nos custava algo como 5% ao ano. Hoje, este custo já está ao redor de 7%. Para um setor que já está com margens espremidas isso é muito relevante”, diz ressaltando que, num contexto como esse, essas operações exigem que as usinas tenham “bons limites de crédito” o que nem sempre é o caso. “Essas condições [de crédito] podem não estar acessíveis a todos os players do mercado de biodiesel. As pequenas usinas, principalmente, devem ter alguma dificuldade nestas operações”, complementa o executivo.
Battistella reconhece a dificuldade especialmente em função da heterogeneidade do setor que comporta usinas de portes bastante diversos tanto verticalizadas quanto não verticalizadas, mas, mesmo assim, recomenda que as usinas invistam para minimizar seus riscos. “Tem empresas que não fazem e outras que fazem só parcialmente. Pessoalmente, como estamos num mercado baseado em commodities agrícolas que tem uma volatilidade grande, eu recomendo que todas façam seus hedges”, aconselha. “Quem fez isso da maneira correta não vai sentir impacto nenhum”, finaliza.
Fábio Rodrigues – BiodieselBR.com