A queima de praticamente qualquer tipo de material orgânico – palha de
milho, cascas de avelã, bambu e até estrume de galinha – em condições
de pouca oxigenação, através de um processo chamado pirólise, produz
gases e calor que podem ser usados como energia. O que resta do
processo é um sólido – o biocarvão – que seqüestra carbono, impedindo o
gás carbônico de ser liberado para a atmosfera. Em tese, pelo menos,
você cria energia de uma forma não apenas neutra em carbono, mas
negativa em carbono.
Em sua fazenda nas montanhas da Virgínia Ocidental, nos Estados Unidos, Josh Frye não cria galinhas apenas para o abate, mas também para obtenção de esterco. Através de um processo que alguns cientistas apregoam ser a solução para os problemas da mudança climática, escassez de alimentos e crise energética, Frye está transformando os excrementos das galinhas em uma substância chamada biocarvão, semelhante ao próprio carvão, que no longo prazo pode se tornar bem mais importante que os nuggets de frango. “Pode parecer que isto é apenas uma granja”, diz Frye. “Mas é também uma fazenda de carvão.”
A queima de praticamente qualquer tipo de material orgânico – palha de milho, cascas de avelã, bambu e até estrume de galinha – em condições de pouca oxigenação, através de um processo chamado pirólise, produz gases e calor que podem ser usados como energia. O que resta do processo é um sólido – o biocarvão – que seqüestra carbono, impedindo o gás carbônico de ser liberado para a atmosfera. Em tese, pelo menos, você cria energia de uma forma não apenas neutra em carbono, mas negativa em carbono.
E essa é só uma das vantagens do processo. Quando adicionado a solos ácidos e finos, do tipo encontrado em grande parte da África e da América do Sul, o carvão propicia maior produtividade agrícola e permite que os agricultores utilizem menos fertilizantes derivados de petróleo, bastante caros. Em busca de melhores solos, pequenos agricultores sempre recorreram à agricultura de derrubada seguida de queimada, que libera gases de efeito estufa e dizima florestas. Se em vez disso eles deixassem os resíduos agrícolas queimarem lentamente para produzir carvão – uma agricultura de carbonização –, estariam fertilizando os terrenos já utilizados e evitando a devastação de novas áreas. Isso reduziria as emissões atmosféricas e criaria um ciclo virtuoso de renovação ambiental.
Será que pode ser assim tão simples? Parece que sim, para os antigos nativos da bacia Amazônica. No século XVI, o explorador espanhol Francisco de Orellana descreveu em suas cartas as terras excepcionalmente férteis que havia descoberto na região. E no século XIX, geólogos americanos e canadenses descobriram as causas dessa fertilidade: faixas de “terra preta”, que os habitantes da região continuaram a cultivar com sucesso. Pesquisas revelaram que os antigos nativos haviam adicionado madeira carbonizada e folhas – biocarvão – a suas terras.
Séculos depois, o biocarvão ainda estava lá, enriquecendo o solo. “Não havia como não notar. O solo em geral era pobre, cinzento, e logo ao lado havia grandes extensões de terra negra, com várias metros de profundidade”, diz Johannes Lehmann, pedólogo que trabalhou em Manaus na década de 1990. Depois que deixou a Amazônia, em 2000, para assumir um cargo na Universidade de Cornell, em Nova York, Lehmann começou a se perguntar o que poderia acontecer se os fazendeiros de hoje pudessem criar sua própria “terra preta”. Ele encontrou a resposta durante um experimento de campo no Quênia, onde 45 fazendeiros conseguiram o dobro de produtividade em suas lavouras de milho utilizando o biocarvão no lugar dos fertilizantes convencionais.
A Eprida, empresa privada de Atenas, Geórgia (EUA), está pesquisando aplicações em maior escala, como em sistemas de pirólise que podem produzir energia suficiente para mover um trator e criar um biocarvão especial, usado para melhorar certos tipos de solo. “Se você vai cultivar alimentos, tem que ser de forma responsável”, diz Bob Hawkins, gerente de projetos da Eprida. “E uma maneira de se conseguir isso é produzindo energia sustentável no processo.” Um protótipo consegue transformar uma tonelada de cascas trituradas de amendoim em 270 quilos de biocarvão, além de energia como bônus.
A capacidade de seqüestro de gás carbônico do biocarvão deu novo impulso ao experimento. “Reduzir emissões não é o suficiente – temos que reduzir o estoque de carbono na atmosfera”, diz Tim Flannery, presidente do Conselho Climático de Copenhague, uma associação de cientistas e líderes empresariais vinculada à Conferência do Clima das Nações Unidas do próximo ano. “E para isso o biocarvão de pirólise lenta é uma solução superior a qualquer outra já proposta.” Lehmann, da Universidade de Cornell, é ainda mais enfático. “Se o biocarvão pudesse ser maciçamente utilizado em todo o mundo”, diz ele, “poderíamos acabar com o problema das emissões em um ou dois anos.”
Nem todos concordam. “O biocarvão não é uma solução mágica, nem perto disso”, diz Dominic Woolf, pesquisador da Universidade de Swansea, no País de Gales. “Você tem que olhar para a coisa como um todo: a própria pirólise emite gás carbônico, e você tem que levar isso em consideração quando tenta determinar o potencial de seqüestro do biocarvão.” Lehmann acredita que dúvidas são bem-vindas, e que serão necessários “investidores dispostos a correr riscos” para enfrentá-las. É onde entra o granjeiro Frye e seu trabalho com o biocarvão, um dos poucos já explorando o processo comercialmente. Com uma unidade de pirólise capaz de criar de três a quatro toneladas de biocarvão por dia, ele gera energia suficiente para aquecer suas granjas; e vende o biocarvão como fertilizante por US$ 600 a tonelada. Para Lehmann, os benefícios do biocarvão não são tanto uma novidade científica, mas um retorno às origens. “Dos desenhos em cavernas à fundição de ferro, o carvão sempre desempenhou um papel importante no desenvolvimento da civilização”, diz ele. “Talvez isso esteja prestes a acontecer novamente.”
LISA ABEND
Time Magazine
Tradução e adaptação BiodieselBR.com
Em sua fazenda nas montanhas da Virgínia Ocidental, nos Estados Unidos, Josh Frye não cria galinhas apenas para o abate, mas também para obtenção de esterco. Através de um processo que alguns cientistas apregoam ser a solução para os problemas da mudança climática, escassez de alimentos e crise energética, Frye está transformando os excrementos das galinhas em uma substância chamada biocarvão, semelhante ao próprio carvão, que no longo prazo pode se tornar bem mais importante que os nuggets de frango. “Pode parecer que isto é apenas uma granja”, diz Frye. “Mas é também uma fazenda de carvão.”
A queima de praticamente qualquer tipo de material orgânico – palha de milho, cascas de avelã, bambu e até estrume de galinha – em condições de pouca oxigenação, através de um processo chamado pirólise, produz gases e calor que podem ser usados como energia. O que resta do processo é um sólido – o biocarvão – que seqüestra carbono, impedindo o gás carbônico de ser liberado para a atmosfera. Em tese, pelo menos, você cria energia de uma forma não apenas neutra em carbono, mas negativa em carbono.
E essa é só uma das vantagens do processo. Quando adicionado a solos ácidos e finos, do tipo encontrado em grande parte da África e da América do Sul, o carvão propicia maior produtividade agrícola e permite que os agricultores utilizem menos fertilizantes derivados de petróleo, bastante caros. Em busca de melhores solos, pequenos agricultores sempre recorreram à agricultura de derrubada seguida de queimada, que libera gases de efeito estufa e dizima florestas. Se em vez disso eles deixassem os resíduos agrícolas queimarem lentamente para produzir carvão – uma agricultura de carbonização –, estariam fertilizando os terrenos já utilizados e evitando a devastação de novas áreas. Isso reduziria as emissões atmosféricas e criaria um ciclo virtuoso de renovação ambiental.
Será que pode ser assim tão simples? Parece que sim, para os antigos nativos da bacia Amazônica. No século XVI, o explorador espanhol Francisco de Orellana descreveu em suas cartas as terras excepcionalmente férteis que havia descoberto na região. E no século XIX, geólogos americanos e canadenses descobriram as causas dessa fertilidade: faixas de “terra preta”, que os habitantes da região continuaram a cultivar com sucesso. Pesquisas revelaram que os antigos nativos haviam adicionado madeira carbonizada e folhas – biocarvão – a suas terras.
Séculos depois, o biocarvão ainda estava lá, enriquecendo o solo. “Não havia como não notar. O solo em geral era pobre, cinzento, e logo ao lado havia grandes extensões de terra negra, com várias metros de profundidade”, diz Johannes Lehmann, pedólogo que trabalhou em Manaus na década de 1990. Depois que deixou a Amazônia, em 2000, para assumir um cargo na Universidade de Cornell, em Nova York, Lehmann começou a se perguntar o que poderia acontecer se os fazendeiros de hoje pudessem criar sua própria “terra preta”. Ele encontrou a resposta durante um experimento de campo no Quênia, onde 45 fazendeiros conseguiram o dobro de produtividade em suas lavouras de milho utilizando o biocarvão no lugar dos fertilizantes convencionais.
A Eprida, empresa privada de Atenas, Geórgia (EUA), está pesquisando aplicações em maior escala, como em sistemas de pirólise que podem produzir energia suficiente para mover um trator e criar um biocarvão especial, usado para melhorar certos tipos de solo. “Se você vai cultivar alimentos, tem que ser de forma responsável”, diz Bob Hawkins, gerente de projetos da Eprida. “E uma maneira de se conseguir isso é produzindo energia sustentável no processo.” Um protótipo consegue transformar uma tonelada de cascas trituradas de amendoim em 270 quilos de biocarvão, além de energia como bônus.
A capacidade de seqüestro de gás carbônico do biocarvão deu novo impulso ao experimento. “Reduzir emissões não é o suficiente – temos que reduzir o estoque de carbono na atmosfera”, diz Tim Flannery, presidente do Conselho Climático de Copenhague, uma associação de cientistas e líderes empresariais vinculada à Conferência do Clima das Nações Unidas do próximo ano. “E para isso o biocarvão de pirólise lenta é uma solução superior a qualquer outra já proposta.” Lehmann, da Universidade de Cornell, é ainda mais enfático. “Se o biocarvão pudesse ser maciçamente utilizado em todo o mundo”, diz ele, “poderíamos acabar com o problema das emissões em um ou dois anos.”
Nem todos concordam. “O biocarvão não é uma solução mágica, nem perto disso”, diz Dominic Woolf, pesquisador da Universidade de Swansea, no País de Gales. “Você tem que olhar para a coisa como um todo: a própria pirólise emite gás carbônico, e você tem que levar isso em consideração quando tenta determinar o potencial de seqüestro do biocarvão.” Lehmann acredita que dúvidas são bem-vindas, e que serão necessários “investidores dispostos a correr riscos” para enfrentá-las. É onde entra o granjeiro Frye e seu trabalho com o biocarvão, um dos poucos já explorando o processo comercialmente. Com uma unidade de pirólise capaz de criar de três a quatro toneladas de biocarvão por dia, ele gera energia suficiente para aquecer suas granjas; e vende o biocarvão como fertilizante por US$ 600 a tonelada. Para Lehmann, os benefícios do biocarvão não são tanto uma novidade científica, mas um retorno às origens. “Dos desenhos em cavernas à fundição de ferro, o carvão sempre desempenhou um papel importante no desenvolvimento da civilização”, diz ele. “Talvez isso esteja prestes a acontecer novamente.”
LISA ABEND
Time Magazine
Tradução e adaptação BiodieselBR.com
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