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Desalerginização da torta de mamona

O primeiro registro de tentativa de desenvolvimento de um método que eliminasse ao mesmo tempo a toxidez e a alergenicidade foi feito por Gardner et al. (1960), tendo sido desenvolvidos métodos eficazes mas que ainda careciam de avaliação quanto ao custo e palatabilidade do produto.

A alergenicidade da torta de mamona é um risco ocupacional para as pessoas que trabalham nas indústrias de extração de óleo e para os moradores dos arredores da indústria, os quais estão expostos à poeira levada pelo vento; até mesmo o uso da torta como adubo pode causar reações alérgicas nos trabalhadores de campo submetidos à poeira. O primeiro relato de alergia causada em uma comunidade por uma indústria de extração de óleo de mamona foi feito em 1928, em Toledo, Ohio, USA. Após este caso, diversos outros relatos foram feitos: Alemanha (1942), Figline Valdarno, Itália (1949), Tchecoslováquia (1949), Hungria (1950), Bauru, Estado de São Paulo (1953), África do Sul (1953) e outros.

Embora a alergenicidade não seja tão grave quanto a toxidez, pois dificilmente causa morte de animais ou seres humanos, sua eliminação é bem mais difícil que a inativação da ricina. Para que a indústria disponha de um método seguro para processamento da torta de mamona, ICOA (1989) relaciona cinco passos que precisam ser trilhados pelas instituições de pesquisa e que valem tanto para a desalergenização quanto para a destoxificação:

1. Isolar a substância e estabelecer um procedimento laboratorial confiável para sua caracterização e quantificação;

2. desenvolver procedimentos de teste, tanto bioquímicos quanto em animais, que forneçam informação segura quanto à completa desativação da substância;

3. adaptar este procedimento de teste para um processo em escala piloto (em volumes maiores que os trabalhados em laboratório);

4. desenvolver técnicas bioquímicas que possibilitem o contínuo acompanhamento do processo de produção industrial, ou seja, que se possa comprovar a qualidade de cada lote produzido na indústria;

5. acumular informações e tecnologias que dêem suporte ao estabelecimento de uma unidade de produção industrial viável.

O desenvolvimento de métodos confiáveis e de fácil execução é um dos primeiros requisitos para que a indústria possa operar uma unidade de destoxificação e desalergenização. Os primeiros pesquisadores a trabalharem com esses alérgenos, faziam testes pela injeção intradermal de soluções em animais sensibilizados ou os expondo à poeira do produto. Outras técnicas mais adequadas foram então sendo desenvolvidas. Gardner et al. (1960) utilizaram uma técnica bioquímica em que extratos das amostras a serem testadas eram misturados ao anti-soro de coelho contra o alérgeno, observandose a formação de precipitados; os mesmos autores confirmaram os resultados usando o teste de Schultz-Dale, que se baseia na medição do grau de contração de músculos uterinos de cobaias (porquinho-da-índia) sensibilizados. Na série de estudos realizados na década de 70, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob orientação do Prof. J. C. Perrone, utilizou-se a técnica de hemaglutinação passiva na qual o antígeno (CB-1A) é ligado a hemácias de carneiro através de tratamento com ácido crômico seguindo-se a determinação da concentração do antígeno por meio da inibição da hemaglutinação com anti-soro de coelho contra o alérgeno da mamona. Este método possibilitou a realização das medições de forma mais prática que as técnicas até então disponíveis. Atualmente, a disponibilidade de métodos ainda mais rápidos, simples e confiáveis para detecção do complexo de alérgenos dessa oleaginosa é uma das carências tecnológicas para a pesquisa e industrialização da torta de mamona.

Diversos processos industriais foram sugeridos para a desalergenização da torta de mamona. Bon (1977) demonstrou a possibilidade de solubilizar as proteínas da torta de mamona utilizando diversas enzimas proteolíticas (papaína, pepsina, subtilisina, pancreatina, protease “Inuiu”, bomelaína e pronase), mas o método não possui viabilidade para aplicação industrial pelas condições extremas de pH a que precisa ser submetida, pelo alto custo das enzimas e por não obter destoxicação e desalergenização total.

Carvalho (1978) testou em laboratório um método em que as proteínas eram solubilizadas e os fatores tóxicos e alergênicos eliminados em solução, procedendo-se à precipitação; o método é pouco prático, pois o pH de extração precisa ser extremamente ácido ou alcalino (1,0 ou 11,0), além de depender de processos de alto custo energético (liofilização) e não ter suficiente eficácia.

Mottola et al. (1971) avaliaram o processo de desalergenização pelo uso de vapor em diversas pressões e tempos de exposição; a inativação dos alérgenos foi obtida, mas percebeu-se que a alta temperatura a que o torta era exposta causava sensível redução do teor do aminoácido Lisina. Os mesmos autores, apresentaram um método mais próximo da viabilidade técnica, utilizando uma planta-piloto no tratamento da torta adicionada de óxido de cálcio a 4%, submetida a 120oC com vapor durante 15 minutos, na qual se obteve relativa redução da alergenicidade.

Em 1985, a UNIDO (United Nations Industrial Development Organization) em parceria com a “Texas A&M University” conduziu um grande projeto com o objetivo de tornar viável um processo industrial conjugado para destoxificação e desalergenização da torta de mamona, tendo em vista a economicidade e viabilidade técnica. Os objetivos foram objetivamente estabelecidos como sendo a obtenção de um produto sem toxidez e alergenicidade, sem prejuízo significativo do valor nutricional, de forma que fosse aplicável como alimento animal. A experiência pretendia agrupar e aproveitar todo o conhecimento acumulado sobre o assunto em algumas décadas de pesquisas.

O projeto obteve sucesso e em 1988 foi apresentado um processo em escala piloto capaz de produzir a torta de mamona destoxificada e livre de alérgenos, no qual se utilizou um extrusor para aumentar a temperatura e a pressão e promover um processo contínuo, sendo a torta misturado com hidróxido de cálcio e água.

As principais conclusões do projeto foram:

» a ricina foi completamente destruída;

» o alérgeno pode ser destruído com adição de água e produtos químicos, sendo os melhores aditivos em ordem decrescente: hidróxido de sódio + hipoclorito de sódio; hidróxido de cálcio (calcário); bicarbonato de sódio; hidróxido de sódio e hipoclorito de sódio;

» sozinho, o tratamento químico não foi eficaz na destruição do CB-1A;

» a perfeita mistura da torta com o calcário é imprescindível e esta foi uma das dificuldades encontradas para funcionamento da planta-piloto;

» extrusores são muito eficientes devido à exposição a alta temperatura por curto período, mas sem o aditivo químico e correta umidade não são efetivos;

» a temperatura de extrusão deve ser de pelo menos 130oC, se possível de 150oC;

» a torta destoxificada e desalergenizada é segura como alimento animal;

» a torta de mamona não pode ser utilizada como única fonte de proteína na dieta de animais.

Embora o projeto tenha sido relatado como bem sucedido, por razões desconhecidas, até o presente as indústrias de óleo de mamona ainda não realizam a destoxicação e desalergenização da torta de mamona, resposta que não foi encontrada na literatura. Na Índia, reconhece-se que é possível destoxificar a torta e que ela teria melhor aceitação que a torta de outras oleaginosas; no entanto, 85% da torta de mamona ainda é utilizada com adubo orgânico (Directorate of Oilseeds Research, 2004).

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