Agroindústria argentina atrai mais brasileiros
Um número crescente de empresas brasileiras que operam com trigo e soja está comprando e arrendando companhias do setor na Argentina para, por essa via indireta, manter ou ampliar sua rentabilidade. Essa estratégia é adotada tendo como principal motivação a política argentina de privilegiar a produção agropecuária de maior valor agregado, por concessões tarifárias. Com essa atuação, o país vizinho torna mais vantajoso comprar empresas argentinas, em vez de tentar competir em condições desiguais.
Em relação à soja, o governo argentino reduziu a tarifa de importação do grão de US$ 9 para US$ 5 por tonelada, para aumentar o esmagamento do produto. A Argentina está entre os primeiros colocados no ranking mundial de esmagamento do produto, com capacidade de 50 milhões de toneladas, acima dos Estados Unidos (48 milhões de t) e do Brasil (42 milhões de t).
No trigo, a principal medida do país vizinho foi estabelecer a tarifa de 20% para exportação do grão e de 10% para a farinha.
Arrendamento de moinhos
Por causa dessa regra, existe um movimento de empresas brasileiras de arrendar moinhos argentinos. O Moinho Pacífico, um dos maiores do País, confirma que está em negociações para realizar uma operação desse tipo, segundo seu presidente, Lawrence Pih. “Nesse momento estamos negociando o arrendamento de uma unidade”, revela Pih.
Outra empresa, que também está no ranking das maiores do setor no Brasil, está prospectando o mercado e já encontrou oportunidades vantajosas de arrendamento. “É uma alternativa, já que as condições de competição são desiguais”, afirma o diretor dessa companhia. “Com o arrendamento, poderemos produzir lá e mandar para cá, ganhando dinheiro com esse processo”.
A Argentina estabeleceu tarifa de 20% para exportação de trigo em grão e de 10% para venda externa de farinha, para incentivar a venda de maior valor agregado. As empresas brasileiras estavam tentando mudar essa medida por meio de conversações, mas as esperanças de acordo são pequenas.
“Com essa tarifa de 10%, é impossível concorrer”, afirma Luiz Martins, presidente do sindicato da indústria de trigo do Estado de São Paulo. “Por isso, as empresas do setor precisam buscar alternativas e aquisições no exterior é uma dessas opções”.
No caso do trigo, outro ponto de atração é que os moinhos argentinos utilizam, em sua maioria, equipamentos obsoletos, o que facilita o arrendamento ou compra por preços atraentes para as empresas brasileiras.
Apesar disso, Lawrence Pih acredita que a competição feroz da farinha argentina é uma situação momentânea. Para ele, em algum momento o governo brasileiro terá que tomar medidas tributárias compensatórias, aumentando as tarifas para a entrada do produto da Argentina para garantir a competitividade da farinha brasileira no mercado interno.
“Essa distorção tributária não pode durar para sempre, senão só teremos farinha argentina no Brasil. Arrendar moinhos argentinos por três anos é provável, mas comprar ou construir unidades no país vizinho é inviável”, afirma Pih.
O analista de mercado de trigo da consultoria Safras & Mercado, Élcio Bento, avalia que os moinhos argentinos estão descapitalizados e em grande parte defasados tecnologicamente. Associando esses fatores a um momento de excelentes preços internacionais do grão, forma-se o cenário ideal para que a indústria moageira da Argentina arrende unidades às concorrentes brasileiras. “Para elas, é uma renda garantida. A maior parte das ofertas de arrendamento vem de fábricas obsoletas”, garante Pih.
As mudanças na soja
Até mesmo na soja, o principal produto agrícola exportado pelo Brasil, a Argentina está atraindo mais investimentos. Segundo o diretor da Safras & Mercado, Flávio França Júnior, a atual capacidade de esmagamento de soja na Argentina atrai a implantação de unidades naquele país.
A multinacional Bunge, que fechou duas plantas de esmagamento de soja no Brasil no início deste ano, investiu no complexo industrial de Puerto General San Martín, na Argentina, para torná-lo a maior unidade da empresa no mundo.
“As plantações e indústrias da Argentina estão mais próximos dos portos e a tributação dos produtos industrializados é menor que a do grão, o que incentiva o processamento”, diz o diretor da Safras & Mercado, especializado nos mercados de soja, farelo e óleo.
Para ele, o crescimento da indústria de soja argentina deve continuar acelerado, enquanto no Brasil o setor tem uma ociosidade média de 32%. “Considerando os projetos já divulgados, em dois ou três anos a capacidade de esmagamento da Argentina vai saltar para 70 milhões de toneladas”, alerta França Júnior.
Como a última safra argentina foi de 41 milhões de toneladas, será necessário importar soja brasileira para atender a demanda desse parque industrial. No começo deste mês, o governo Kírchner publicou uma resolução alterando temporariamente a tarifa de importação da soja em grão de Brasil, Paraguai e Bolívia de US$ 9 para US$ 5 por tonelada.
França Júnior acredita que um novo fator que pode tirar o Brasil da estagnação no processamento da soja é o biodiesel.
A demanda pelo óleo de soja para a fabricação do biocombustível poderá gerar um novo movimento de investimentos, mas a Argentina também está de olho nesse mercado. “Se o Brasil não resolver seus problemas, em pouco tempo terá que importar óleo de soja e até mesmo biodiesel da Argentina”, prevê o analista.
Ele explica que desde a Lei Kandir, de 1996, a tributação no Brasil foi igualada para soja em grão, óleo de soja e farelo de soja, o que tirou de 4% a 5% da margem das esmagadoras.
Além disso, as unidades industriais argentinas são mais modernas e por isso maiores que as brasileiras.“Nos últimos 10 anos, a indústria brasileira andou para trás”, afirma França Júnior.


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