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Energia

Agroenergia é saída para o país, diz Rodrigues


Folha de S. Paulo - MAURO ZAFALON - 29 nov 1999 - 22:00 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:22

Ao final de 2005, o Brasil vai atingir, na soma dos últimos dez anos, US$ 205 bilhões de saldo líquido na balança comercial do agronegócio. Quanto mais é possível crescer? Meio em tom de brincadeira, mas analisando as boas perspectivas para o país no setor, o ministro Roberto Rodrigues (Agricultura) responde que "o céu é o limite".

Mas os próximos anos poderão não ser tão fáceis como os mais recentes, quando o país aproveitou uma onda de forte demanda mundial por commodities e preços elevados. Além disso, o país tem sérios problemas internos para serem resolvidos, principalmente no setor de logística.

O cenário continua favorável, mas o crescimento nas exportações nesse setor depende de dois fatores básicos, na avaliação do ministro: negociações internacionais e fazer bem a lição de casa.

E essas tarefas dependem não só dos programas governamentais, mas também da presença da iniciativa privada. Entre os deveres da lição de casa, Rodrigues inclui a busca cada vez maior da utilização de tecnologia, cuidados sanitários e sustentabilidade. O conjunto desses fatores é o que será exigido pelo mercado externo nos próximos anos.

O avanço brasileiro foi grande nos últimos anos no mercado externo. O país deixou de ser dependente apenas de café, açúcar e suco de laranja nas exportações -produtos em que é líder mundial nas vendas externas- e ampliou essa liderança também para soja, carnes bovina e de frango, tabaco e etanol. Essas lideranças foram conseguidas com tecnologia e disponibilidade de terra, diz Rodrigues. Nos últimos 15 anos, a produção brasileira de grãos cresceu 110%, mas a área cultivável apenas 27%.

"A incorporação de tecnologia e a disponibilidade de terras é que vão dar ao Brasil vantagens em novos nichos de mercados que estão surgindo", diz Rodrigues. O Brasil utiliza atualmente 62 milhões de hectares na agricultura, mas poderá incorporar, ainda, grande parte dos 240 milhões destinados às pastagens. Afinal, há uma década um boi era abatido com quatro anos (48 meses). Hoje, o abate se dá com apenas um ano e meio (18 meses).

Novos mercados

Um dos novos produtos favoráveis ao Brasil é a agroenergia. "A sociedade já está consciente de que o petróleo vai acabar e a nova forma de combustível líquido passa pelos vegetais. Além de renováveis, são os mais corretos para o ambiente", diz Rodrigues.

Em dez anos, o ministro acredita que o Brasil ampliará em 3 milhões de hectares a área de cana-de-açúcar devido às novas demandas interna e externa de álcool e de açúcar. A evolução do biodiesel também vai exigir um avanço maior da área cultivável. Quando o produto chegar aos óleos de dendê, de palma e de soja, poderá exigir até 6 milhões de novos hectares cultiváveis.

Outro item que deverá trazer ainda mais divisas para o país é o de carnes. "O crescimento é notável", diz o ministro. De 1994 para cá, a produção de carne bovina cresceu 68%; a suína, 106%; e a de frango, 162%.

O Brasil começa a participar também das exportações de frutas. Na avaliação de Rodrigues, o país tem espaço para "dois Chiles" (o principal exportador de frutas da América Latina) na produção de frutas tropicais. As perspectivas também são boas para a madeira. Enquanto no Brasil as árvores são cortadas com sete anos, em países da Europa demoram até 28 anos para serem levadas à industrialização.

Rodrigues inclui, ainda, três setores tradicionais na lista de produtos que vão passar a render mais divisas a partir de agora: algodão, café e leite. No caso do primeiro, o país retoma a produção e deixa de ser grande importador, como na década passada.

No caso do café, o potencial do país cresce tanto para a colocação de produto de qualidade no mercado externo como para a de café torrado e moído. Mesmo sendo o maior produtor mundial, a participação do país no mercado de café torrado e moído é de só 2%.

No caso do leite, o Brasil começa a obter os primeiros saldos positivos na balança comercial graças à colocação de derivados do produto no mercado internacional.

No caso do leite condensado, "o país é imbatível" devido à união de leite, açúcar e lata, produtos em que o país é altamente competitivo, diz o ministro.

O que impede

O caminho do mercado externo, no entanto, não será tão fácil e vai exigir que o país supere vários obstáculos, na avaliação de Rodrigues. O primeiro deles é a melhora da logística, principalmente com o desenvolvimento dos portos, estradas e sistemas de armazenagem.

Abrir mercados vai exigir do país constantes negociações internacionais e promoção de produtos brasileiros. Para essas negociações, o país necessitará de produtos de qualidade, que só podem ser conseguidos com eficiente defesa sanitária, pesquisas e investimentos em tecnologia.

Outro ponto importante a ser desenvolvido é o de contratos. "Os produtores devem aprender a respeitar contratos", diz Rodrigues. Tanto os contratos privados como os direitos de propriedade.

Um avanço do país no agronegócio passa, ainda, pelas políticas públicas. Essas políticas incluem o desenvolvimento de seguro rural, o fim de monopólios (como o de resseguros) e maior suporte financeiro para os produtores.