PUBLICIDADE
padrao padrao
Energia

Gângsteres vencem corrida do petróleo na África


Der Spiegel - 29 nov 1999 - 22:00 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:22

Americanos e chineses estão competindo pelo controle das grandes reservas de petróleo da África. A crescente base industrial da China também está em busca de cobre, manganês e madeira tropical para alimentar seu apetite voraz. Mas os ditadores são os vencedores

Dokubo-Asari, que deu a si mesmo o primeiro nome aterrador de Mujahid, não tinha como prever sua prisão iminente. O robusto líder rebelde mergulhou seus dedos grossos em sua tigela, pescou um pedaço gordo de frango em meio ao molho e enfiou na boca, deixando uma trilha vermelha respingada na túnica branca. Lambendo os lábio, ele deu início às histórias de seus feitos.

O Delta de Níger não podia ser comparado à Bósnia, pelo menos ainda não, ele expôs com um toque de orgulho. Afinal, ele já podia mobilizar mais de 100 mil soldados. Se o governo continuasse o traindo, ele lançaria esta força contra os bandidos do governador, as companhias de petróleo e todos os estrangeiros.

Das aproximadamente 130 gangues, cujos nomes variam de "Os Vikings", "Os Islandeses", "Aliança Nacional dos Aventureiros" e "Machado Preto", Dokubo-Asari, 41 anos, pode muito bem comandar a mais feroz: um bando de guerreiros da tribo Ijaw que vive no delta. Suspeita-se que sua milícia roube regularmente dos oleodutos da Shell, seqüestre ou mate seus funcionários e promova tiroteios com rivais nas ruas. A "BBC" estima que Dokubo-Asari tenha cerca de 2 mil criminosos sob seu controle. Ele batizou seus guerrilheiros com o título ostentoso de "Força Voluntária do Povo do Delta do Níger".

O caos que estes renegados podem provocar é familiar demais para a Royal Dutch Shell, que extrai cerca de um milhão de barris de petróleo por dia na Nigéria. Segundo seu relatório anual, em média 50 mil barris por dia foram roubados em 2004, uma prejuízo de quase US$ 1 bilhão. No mesmo período, uma dúzia de trabalhadores foram mortos, entre 50 e 70 seqüestrados e um total de 314 incidentes criminosos foram registrados. A extração teve que ser suspensa 176 vezes. Um petroleiro, o African Pride, desapareceu e nunca mais foi visto novamente!

Petróleo africano em alta demanda


"O roubo de petróleo está nos matando", queixou-se o porta-voz da empresa, Larry Ossai, na capital da Nigéria, Abuja. Para a empresa de segurança WAC Global Services, as condições no Delta do Níger podem até lembrar a Tchetchênia.

Há vários meses, as autoridades nigerianas decidiram que era hora de um basta. Dokubo-Asari foi preso sob a acusação de planejar um golpe. De lá para cá, o conflito tem ameaçado sair de controle. Uma centena de simpatizantes altamente armados de Dokubo tomaram uma plataforma de petróleo operada pela Chevron. Como precaução, a companhia de petróleo americana fechou uma segunda plataforma.

A Shell também retirou funcionários --apesar de nenhum outro lugar no mundo estar atualmente descobrindo reservas de petróleo tão rapidamente quanto na terra incógnita da África. Cerca de 8 milhões de barris já estão sendo extraídos diariamente. Óleo cru de alta qualidade, leve e pobre em enxofre. Facilmente processado em gasolina, o petróleo africano está em alta demanda.

Apenas nas últimas três décadas, o combustível fóssil já trouxe mais de US$ 280 bilhões para a Nigéria. Grande parte disto desapareceu nos bolsos de políticos corruptos. A revista "The Economist" se referiu a um recém concluído programa de alívio de dívida para o país rico em recursos como "risível". Há todo indício de que o dinheiro continuará fluindo. Os predadores da indústria do petróleo têm circulado nos países caóticos localizados no Golfo da Guiné em números cada vez maiores --não apenas em conseqüência do aumento estratosférico dos preços do petróleo e das reservas cada vez menores no outro Golfo.

Imagina-se que até 100 bilhões de barris estejam escondidos, principalmente além da costa da África Ocidental --aproximadamente o equivalente às reservas do Iraque. O congressista americano William Jefferson anunciou alegremente em 2004: "No ano passado, 8 bilhões de barris de petróleo foram descobertos ao redor do mundo, e sete bilhões deles estão além da costa da África Ocidental". O tesouro está lá para ser tomado.

Taxas de crescimento atordoantes


Os Estados Unidos têm um interesse particular nestas reservas: a Nigéria é seu quinto maior fornecedor de petróleo, com a África Central e Ocidental correspondendo a até 15% de suas importações de petróleo. Tal número atingirá em breve 20%.

Taxas de crescimento atordoantes são projetadas para países como Nigéria e Angola, onde a corrupção é endêmica. No futuro não muito distante, eles poderão até mesmo dobrar sua produção. O afluxo de dinheiro deverá atingir proporções gigantescas por todo o Golfo da Guiné: no Gabão, Congo (Brazzaville), Guiné Equatorial, São Tomé e Príncipe. Os campos de petróleo se estendem por centenas de quilômetros continente adentro.

Oleodutos imensos já estão canalizando o petróleo do Chade para a costa ocidental. De lá, um petroleiro pode chegar ao Texas na metade do tempo que levaria do Golfo Pérsico. O próximo país na agenda de exploração é Camarões.

"Nos próximos cinco anos, a região adicionará de dois a três milhões de barris por dia ao mercado mundial", previu o Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, "o que representará 20% de nova capacidade de produção mundial". Os especialistas prevêem que os oito maiores produtores de petróleo na África ganharão US$ 35 bilhões apenas em 2005.

O geólogo Tom Windle, que monitora as reservas de petróleo na África ocidental para a Amoco, acredita que a África Oriental tenha mais potencial: "Se alguém me procurasse e dissesse, 'aqui está um bilhão de dólares; eu quero que você abra uma nova fronteira', eu diria, 'certo, a margem oriental africana'".

Exxon Mobil, Woodside Petroleum e Tullow Oil já estão trabalhando no leste do continente. Na Somália, a caça foi suspensa em 1991 pela guerra civil devastadora no país. Mas com um novo governo eleito no outono de 2004, os representantes das companhias de petróleo têm voado em peso para a capital provisória, em Jowhar.

"A África está com todos os ases"


Um imenso campo de petróleo pan africano se estende de Porto Sudão a Porto Harcourt --com um atrativo especial: com a exceção da Nigéria, nenhum país africano ao sul do Saara é membro da Opep. E a própria Nigéria continua nutrindo a idéia de deixar o cartel, o que lhe permitiria aumentar a produção para 4 milhões de barris por dia em 2010.

A força africana seria assim a única forma de aliviar o controle do mundo árabe sobre os preços. Não é de se estranhar que Washington considere a África Ocidental como uma das fontes que mais crescem de petróleo e gás para o mercado americano.

Isto, finalmente, é uma boa notícia para um continente mais conhecido pelo seu sofrimento. E a notícia fica ainda melhor: a China também descobriu o potencial da África como fornecedora. A superpotência econômica emergente necessita desesperadamente de recursos naturais para manter sua taxa de crescimento anual de 9%.

Nunca antes os Estados Unidos e a China estiveram tão concentrados na África, e o interesse deles apenas crescerá. A batalha pelo ouro negro já começou. "A África está com todos os ases", disse a revista "Africa Today".

Os chineses evidentemente têm poucos escrúpulos. Depois que os Estados Unidos declararam o Sudão, de governo islâmico, como um Estado inamistoso por dar santuário a Osama Bin Laden, forçando as empresas americanas a abandonarem seu lucrativo comércio do petróleo do país, a China ficou contente em preencher o vácuo.

Hoje, a China é uma grande investidora na terra de Mahdi. Em troca, o Sudão envia 60% de seu petróleo para a potência asiática --não exatamente pouca coisa, dada sua produção diária de 340 mil barris. Assim que o campo de petróleo de Melut entrar em operação no futuro próximo, o total poderá atingir 800 mil barris por dia.

Os chineses consideram seu compromisso com o Sudão como uma parceria de longo prazo. Recentemente, um exército de trabalhadores chineses iniciou a construção de um segundo oleoduto, de 1.500 quilômetros, de seus campos de petróleo no sul até Porto Sudão, no Mar Vermelho. No acordo, o governo de Umar Al Bashir --que investe quase dois terços de sua receita de petróleo em suas forças armadas-- receberá armas da República Popular: armamentos de que necessita desesperadamente para travar guerra em suas províncias do leste e contra os rebeldes em Darfur.

A China lucrará com o genocídio


Não surpreende que o governo chinês saiba como recompensar tal cooperação construtiva. Sempre que duras resoluções contra os assassinos em massa em Cartum é colocada na mesa na ONU, a China está pronta a empregar seu veto.

Como secretário de Estado dos Estados Unidos, Colin Powell foi rápido em condenar a matança em Darfur como genocídio. Mas o embaixador da China nos Estados Unidos, Zhou Wenzhong, tem um ponto de vista diferente sobre as ações de seu país. "Negócio é negócio", ele argumenta. "A situação no Sudão é um assunto interno."

Atualmente os frustrados Estados Unidos estão resignados a assistir a Pequim torpedear suas estratégias de segurança e direitos humanos. Além disso, estão impotentes para impedir a China de garantir o controle sobre as reservas de petróleo do Sudão. A China já obtém 6% de seu petróleo do Sudão, o equivalente a suas importações da Rússia.

"Nós importamos petróleo de todas as fontes que conseguimos", admite Li Xiaobing, vice-diretor do Departamento de Oeste da Ásia e África do Ministério do Comércio da China.

Para o cientista político alemão Denis Tull --que compilou um relatório intitulado "A Abordagem da República Popular da China para a África"-- a crescente influência política da China na África é "geralmente negativa".

Em vez de estimular os africanos a adotar a democracia e a transparência, a veemente "defesa do princípio da soberania" por parte de Pequim tem beneficiado os líderes autoritários africanos que foram rejeitados pelo Ocidente, disse Tull.

Com suas mãos amarradas, os ministros de relações exteriores da União Européia têm assistido o corpo capitalista da China avançar por todo o continente, transformando em piada suas tentativas de democratizar os regimes autoritários por meio de ajuda.

A China já importa mais de 28% de seu petróleo da África (2003: 25,2%). Entre 1989 e 1997, o volume de comércio cresceu 431%. De lá para cá, ele tem "mais que quintuplicado" (Tull) --atingindo um recorde de US$ 24 bilhões. Em breve, a China deverá superar a Grã-Bretanha como terceiro maior parceiro comercial da África. Dos 40 acordos de investimento bilaterais que a China assinou entre 1995 e 2003, 18 foram com países africanos. Em 2004, 700 empresas chinesas já atuavam nos mercados do país; seus investimentos diretos totalizavam US$ 1,5 bilhão.

A China está comprando tudo que seu setor industrial voraz pode consumir: madeira do Congo, cobre da Zâmbia e manganês do Gabão para uso na produção de aço. Em troca, a África está recebendo bens produzidos na China. Seu baixo preço torna estes bens particularmente atraentes para os países pobres ao sul do Saara: roupas, rádios transistorizados e rifles kalashnikov.

O tráfego é pesado em ambas as direções. Tanto que a Kenya Airways abriu uma via rápida: vôos diretos agora ligam Nairóbi a Hong Kong. Toneladas de produtos do Extremo Oriente agora inundam os mercados africanos. Em intervalos de poucas semanas, um novo bando de cleptocratas africanos parte em peregrinação a Pequim: delegações enviadas por países falidos que atualmente têm até ajuda para desenvolvimento negada.

Barrados pela Grã-Bretanha


Recentemente, o presidente do Quênia, Mwai Kibaki, percorreu o império do Extremo Oriente em uma tentativa de escorar a autoconfiança abatida de seu governo corrupto. A Alemanha já tinha congelado 5 milhões de euros em ajuda na pendência de ações do governo em escândalos de corrupção.

Seu embaixador em Nairóbi está ameaçando maiores sanções, devido a doações que foram usadas "ilegalmente e perdulariamente" para fins de propaganda. E o Reino Unido revogou um visto concedido ao ministro dos Transportes do Quênia, Christopher Ndarathi Murungaru, e o proibiu --com base em acusações de corrupção-- de botar o pé em solo britânico.

Mas durante seus cinco dias de visita a Pequim, Kibaki foi recebido com tratamento cordial --e aceitou graciosamente a promessa de sua anfitriã de US$ 34 milhões. O líder foi capaz de "voltar para casa como um homem contente" após uma "visita frutífera", segundo um jornal queniano pró-governo, o "Daily Nation".

Mas o crítico "Standard" se mostrou menos eufórico em sua avaliação da viagem de arrecadação de fundos de Kibaki: "O dinheiro está entrando nos bolsos do governo e contornando os controles habituais", alertou a publicação. Ela expressou a esperança de que os subornos não induzam os governantes do Quênia a fazerem "grandes concessões ao governo chinês, que preferem não revelar a esta altura".

Tais temores parecem justificados. O presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, foi recentemente recebido pelo presidente da China, Hu Jintao, como um "grande amigo". Enquanto estava na China, Mugabe autorizou os chineses a explorarem os depósitos de platina em seu pais em dificuldades --recebendo em troca aeronaves militares no valor de US$ 100 milhões.

"Líderes africanos como Kibaki, o presidente queniano, ou o ditador do Zimbábue, Robert Mugabe, estão cometendo os mesmos erros cometidos por todos os líderes africanos antes deles", disse James Shikwati, um economista queniano, "quando partem em uma viagem de esmola ao Extremo Oriente".

O acordo com os chineses poderá rapidamente se tornar um pacto com o diabo. Quando se trata de esmolas, os líderes africanos estão prontos a vender os vastos recursos naturais do continente -lembrando a idade mais sombria do imperialismo europeu, quando países inteiros mudavam de mãos por contas de vidro, bebida alcoólica e fios de cobre.

Tradução: George El Khouri Andolfato