Energia renovável: afinal, o que é isso
Muito se fala na crise ecológica que passa o Planeta e, principalmente, no fim dos recursos naturais de origem fóssil. Neste contexto, a produção e utilização de energia renovável tornou-se um dos maiores desafios do novo século. Muitas pesquisas são desenvolvidas nesta área, pois já se sabe que os ganhos ambientais, sociais e econômicos provenientes da utilização de recursos renováveis para geração de energia é muito grande.
O que se pode definir sobre energias alternativas ou renováveis? Segundo Bautista Vidal, considerado um precursor das bioenergias, o brasileiro que inventou o Programa Pro-Álcool, as energias que nós chamamos de "alternativas" são definitivas. Alternativo é o petróleo, que não é renovável. Energias "definitivas" são as energias renováveis, como a biomassa, vento, sol, etc.
Atualmente se fala muito na utilização do biodiesel como uma opção ecológica de combustíveis, já que incorpora óleos vegetais ao diesel comum.
O Brasil desenvolveu e domina a tecnologia do álcool combustível. O que impede a expansão da produção desta e de outras energias renováveis? Se pensarmos por este ângulo, o Brasil está muito atrasado, pois ao dar um exemplo com o Pro-Álcool, já poderia há muito tempo ter deslanchado nos outros tipos de energia renovável. Mas o que aconteceu? Infelizmente o brasileiro não acreditou, não valorizou e agora o mundo todo está correndo atrás de álcool.
Os outros tipos de energia como a solar e eólica requerem valores relativamente altos para sua implantação.
Mesmo assim, o Brasil possui possibilidades muito atrativas para quaisquer dessas energias. Não nos falta vento e muito menos, sol. A chamada crise energética que o País passa não deveria existir já que o potencial de biomassa brasileiro (energia obtida a partir de estrume de gado, lixo orgânico, restos agrícolas, aparas de madeira ou óleos vegetais) é algumas vezes maior do que as reservas de petróleo da Arábia Saudita. Thomas Renatus Fendel, pesquisador brasileiro na área de bioenergia, em entrevista dada à EcoTerra Brasil, quando perguntado sobre as diferenças entre o gás natural, um combustível fóssil, e o biogás, produzido a partir da decomposição de matéria orgânica, respondeu que: "Dizem que o gás natural é limpo, mas não é tão limpo. É carbono tirado da terra e jogado no ar. As bioenergias são justamente o contrário. Por exemplo, o álcool, óleo vegetal, biogás e carvão vegetal, são de atmosfera limpa, porque saem de vegetais, que nada mais são do que gás carbônico seqüestrado do ar através da energia solar, da fotossíntese, da água. As bioenergias fazem o contrário do que fazem os fósseis. O biogás é feito em digestores, em estações de tratamento de esgoto e de lixo. Isso é bioenergia. Realmente as plantas absorvem muito mais carbono do que o carbono que você devolve para a atmosfera. Se nós fizéssemos este marketing, ao invés de Efeito Estufa com os fósseis, nós poderíamos fazer o 'Efeito Geladeira' com as bioenergias. Se o álcool tivesse marketing, nenhum brasileiro estaria consumindo gasolina".
No que se refere aos atuais carros bicombustíveis e com o gás natural veicular (GNV), foi perguntado se seria possível adaptar um motor para funcionar só com óleo vegetal. Segundo Fendel: "Na Alemanha existem mais de vinte mil carros andando a óleo vegetal, locomotivas andando a óleo vegetal. Existia um motor chamado Elko, há uns vinte anos, que inclusive veio aqui, para o Brasil, mas não sei por que foi esquecido. Eu acho que nunca um motor vai ter o mesmo rendimento andando com gasolina, com álcool, com gás e com óleo. Um motor feito para funcionar com vários combustíveis não será tão bom quanto aquele motor feito só para um tipo de combustível".
Ainda, segundo Fendel, para efetivar a produção de motores movidos a óleo vegetal é preciso que o "povo comece a raciocinar que o petróleo é finito. As guerras do Bush são por causa do petróleo 'para inglês ver'. É estúpido o mundo se sujeitar a isso. Nós estamos no paraíso do mundo. Nós vamos fornecer energia para eles. O mundo não se divide mais em Ocidental e Oriental". Fendel lembrou ainda, que segundo Bautista Vidal, "o mundo se divide nos trópicos". Nos trópicos tem sol, energia solar que produz a biomassa. Nós temos tudo aqui, sabemos fazer computadores, fazer programas, prego, motores, aliás, os melhores motores do mundo são feitos aqui no Brasil.
Para Fendel a mudança deve partir da forma de pensar e que a mídia tem grande responsabilidade nisso: "Eu acho que tem que partir da mídia. Ela tem que começar a pensar mais e não engolir qualquer coisa. Se a mídia quer eleger um Presidente, ele é eleito. A mídia, que é divulgadora, deveria trabalhar melhor os assuntos relevantes".
Quanto às perspectivas futuras para as energias renováveis: "Eu vejo que daqui a seis meses o barril do petróleo custará U$ 100. Isto vai dar uma reviravolta, uma conscientização. Acredito que com a crise energética que precede a crise climática, o mundo pode acordar. E espero que os brasileiros acordem e parem de ser "capachos". Que acordem e percebam o real valor deles. A floresta amazônica, por exemplo, não contribui com a limpeza do ar. A floresta velha não cresce. O ciclo do carbono ali está fechado. O que capta carbono é floresta nova, replantada, de preferência com biodiversidade e várias espécies. O meio ambiente deve ser repensado, reformulado e "remarquetado".
Além disso, Fendel diz que cada brasileiro poderia contribuir exigindo comportamento. "A Alemanha é um exemplo de guerra contra a energia nuclear. Os alemães não deixam fazer energia nuclear e estão desmontando todas as suas usinas nucleares no prazo de vinte anos. Já se passaram três, então daqui dezessete anos não vai mais ter energia nuclear na Alemanha. Este é um exemplo fantástico a ser seguido. Lá, mesmo tendo pouco sol, eles plantam, fazem óleo de canola, óleos energéticos. O mundo é das bioenergias. Nós temos que acordar pra isso".
Ricardo David - Engenheiro elétrico, Presidente da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Conservação de Energia (ABESCO) e da (Ecoluz) - Revista Eco21


.gif)

