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Energia

Do século do petróleo ao século das agroenergias


Revista STAB – Vol. 23 – Nº 06 – Julho/Agosto – 2005 - Luiz Carlos Corrêa de Carvalho - 29 nov 1999 - 22:00 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:22

A grande discussão que se faz no Brasil, atualmente, é se iremos efetivar mais uma vez uma recuperação cíclica, com posterior recaída, ou se a nossa economia entrará, de fato, em crescimento sustentado. Se no primeiro caso, se analisa a capacidade ociosa e o seu preenchimento com menor investimento, no segundo caso, não há duvidas que se trata de investimentos efetivos para o crescimento da demanda, provocando pelo crescimento da economia do país. Como média, no país, sabe-se que hoje se faz recuperação cíclica, na espera de maior solidez dos indicadores macroeconômicos que viabilizem os investimentos necessários para um novo ciclo de crescimento sustentado.

Trazendo o nível global do pais para os agronegócios, esses ciclos econômicos de expansão e recaída tem sido a lógica da agricultura, que, no momento, com honrosas exceções, tem a imagem de endividamento ou tratoraço, face a seca que assolou as áreas de produção de grãos e a queda no preço das commodities agrícolas.

Após um prolongado período de recessão mundial, a economia global foi muito bem em 2004 e irá um pouco pior em 2005 face os preços do petróleo. Em desenho cômico, a tradicional revista econômica The Economist publicou uma imagem divertida sobre a recuperação da economia global, seu fortalecimento e, após, o atropelamento pelo petróleo:

O fato, por trás do cômico, é a realidade dos graves problemas que o petróleo traz às economias, resumidos em alguns pontos essenciais:

-Fatores geopolíticos, resultado da concentração das fontes do petróleo em países complexos e com elevado potencial de constantes crises;

-A insegurança gerada pelo aumento da dependência do mundo desses locais de concentração das reservas de petróleo;

-O aquecimento da demanda de petróleo pelas economias em expansão nos EUA, China e outros;

-Menor investimento do que o necessário em infraestrutura de oferta e refino do petróleo, resultando em “aperto” de estoques;

-O efeito negativo do aquecimento global, como função das emissões de CO2 pelos setores econômicos e seu uso de fontes fosseis de energia, em especial pelo setor de transportes.

De 1973 a 2002, praticamente, 30 anos, o peso do setor transportes cresceu, no consumo total de petróleo, de 42,3% para 57,2%.

Em síntese, vivemos a quebra de mais de um paradigma, este mais de um século. Se for possível, talvez, possamos ver outra quebra, sintetizada na fala do Presidente George Bush na ultima reunião dos países do G8, em julho/05: ”Os EUA estão preparados para, junto com a União Européia, abolir os subsídios agrícolas até 2010...”.

Nesse campo, o Brasil – Petrobrás caminha no sentido do equilíbrio dos derivados do petróleo (importação/exportação) talvez já em 2006. Para tal, estamos perfurando os mares a profundidades (a partir do nível do mar) de até 2 km. Os custos, obviamente, sobem!!

Nas ultimas dezenas de anos, as “commodities” agrícolas perdem preços reais, no ritmo de 2% ao ano. É o resultado dos ciclos negativos citados anteriormente (baixos preços e endividamento à redução de produção agrícola à elevados preços agrícolas à baixos preços...). A discussão que se faz, de forma pró-ativa e global é: como se transforma isso num ciclo positivo?

Em nossa opinião, começa pela mudança no modo de pensar! A agricultura nada mais é do que a transformação mais eficiente e eficaz possível da luz solar, em produtos vegetais que transformam aquela energia em produtos químicos que tanto podem ser alimentos como energia! Ou seja: diversificação da produção agrícola com expansão à novos mercados e bons preços à recursos, face melhor renda, direcionados para pesquisa à diversificação...

Isso, levado à esfera global, mostra a importância dos países desenvolvidos em utilizar parte importante de suas terras para produzir energia, gerando melhores preços para os alimentos ; gerando maior produção de alimentos nos paises em desenvolvimento, dando uma força adicional à bioenergia com subprodutos gerados...é a sinergia, o ganha-ganha, a sustentabilidade do modo de vida do homem, neste planeta!

Os exemplos já existem, em escala, com a cana-de-açúcar no Brasil; o milho nos EUA; e a soja e a colza em vários locais, etc. o homem não vai abrir mão da sua mobilidade, de seu conforto.

Há, portanto, duas formas de se pensar e de se fazer políticas energéticas: a errada, e, obviamente mais cômoda , que gera reações como “muitas dificuldades; escolhas desagradáveis; esqueletos...” ou a correta, mais complexa e sendo novo modo de pensar, que gera “muitas dificuldades; escolhas desagradáveis; esqueletos...” ou a correta, mas complexa e sendo novo modo do pensar, que gera “muitas oportunidades; mitiga o efeito estufa; amplia a segurança energética e inclui, socialmente, os mais pobres à moderna economia...”.

A novidade, foi a pauta da reunião do G8 – países mais ricos. Porque o G8 tinha em sua Agenda Mudanças Climáticas, Pobreza e Terrorismo?

a)Preocupação com a Segurança Energética (função do aumento da dependência do Oriente Médio e a vulnerabilidade a ataques terroristas);

b)Preocupação com a Questão da Pobreza (hoje há mais de 2 bilhões de pessoas vivendo com menos de US$ 2,00 dia, sem acesso a energia e, obviamente vulneráveis a se tornarem homens-bomba);

c)Preocupação com o esgotamento do Petróleo e do gás natural (já vivemos o pico do petróleo, com a elevação dos seus preços e o agravamento da pobreza);

d)Preocupação com o aquecimento do planeta (já se dobra a concentração do carbono na atmosfera, elevado a temperatura da Terra, o nível do mar e impactos aos mais pobres).

Fica obvio que urge reagir, já com um novo modo de pensar, convergente, e que leve o nível de ambição a buscar mudar a forma de agir!

A agricultura energética é passo-chave para a “ponte” na economia do uso de combustíveis, para o futuro das células de combustíveis (hidrogênio), com poluição zero!

Etanol, biodiesel, co-geração de energia elétrica, bio-refinarias, etc, são o caminho da paz! O velho modo de pensar: O aumento da população com a melhoria da qualidade de vida em alta velocidade no processo de urbanização irão gerar grande aumento na demanda acelera o esgotamento das fontes fósseis e virão preços elevados que, de um lado requerem tremendos investimentos em refinarias e novas tecnologias e, por outro lado, os riscos de conflitos geopolíticos. Isso é pensar como antes...isso requer uma transição organizada para um mundo alimentado por outras fontes de energia.

Esperar, quando se sabe como fazer e se tem os mecanismos para fazer não é razoável. Ser líder, como é o caso do Brasil com energia renovável, requer atitudes e ações de liderança, inclusive com os ônus de liderar.

O grande temor dos paises desenvolvidos é que os seus custos de produção de etanol são bem superiores aos do etanol do Brasil, por exemplo. Mas isso é falta de assunto: vejam o caso do petróleo: no Brasil, ouvi a Petrobras dizer que precisa de US$ 17/barril para pagar as contas; no Mar do Norte, um pouco mais; na Arábia Saudita, US$ 2 a 3/ barril! Isso não impede que o petróleo seja mercado livre e que os preços do mercado estejam a US$ 60/ barril!! Portanto, é absoluta bobagem...é difícil largar o passado...

Mas, fica, no fundo do coração, uma frase do Victor Hugo: “Não há nada tão poderoso como uma idéia cujo tempo chegou”