Chegou a hora do diesel nos carros de passeio?
De tempos em tempos surgem campanhas sobre a liberação do uso de motores diesel em veículos leves em geral e automóveis em particular. De fato, o Brasil é o único país no mundo em que este combustível está reservado somente a caminhões, ônibus, picapes com capacidade de carga superior a 1.000 kg ou utilitários com tração 4x4 e reduzida. No passado havia uma política de pesado subsídio para o diesel por questões econômicas, quando chegou a custar cerca de metade do preço da gasolina. Hoje a diferença diminuiu: o preço do diesel está em torno de 75% da gasolina pela menor carga fiscal. Portanto, mantém-se subsídio indireto.
Existem, porém, obstáculos maiores. Apesar de alcançar auto-suficiência em petróleo em 2006, o país continua a depender de importações pois o tipo de óleo é inadequado para as refinarias nacionais. Permanece, ainda, a necessidade de importar diesel — mais ou menos US$ 1 bilhão/ano. Assim, a possibilidade de aumentar o desequilíbrio na conta-petróleo total, liberando o consumo para qualquer tipo de veículo, parece passar longe das prioridades do Governo Federal. As entidades oficiais de vigilância do ambiente também criticam a qualidade do óleo diesel produzido aqui. Dificilmente dariam o indispensável aval para seu uso por carros nos grandes centros urbanos.
Parte do desbalanceamento se deve por já existirem outros substitutos para a gasolina — álcool e gás natural —, enquanto para o diesel depende do sucesso do biodiesel e de outro programa da Petrobrás chamado H-bio. Ressalte-se que nenhuma dessas duas soluções reúne condições econômicas e técnicas de substituir o diesel em escala, a exemplo do álcool em relação à gasolina.
Existe, agora, um fato novo. Segundo fonte desta coluna, a nova refinaria que o Brasil planeja construir em sociedade com a Venezuela terá condições de produzir 60% de diesel, outros subprodutos e nada de gasolina. Ou seja, parte aquele desequilíbrio seria amenizado para evitar que mais gasolina acabe sobrando. Se isso se confirmar, aumenta a chance de o diesel chegar aos automóveis.
Outra novidade: custo/km menor do motor diesel pode ser financeiramente anulado, como a GM demonstrou ao lançar a picape Chevrolet S10 com motor flex. Usando gasolina há necessidade de colocar o preço bem maior da versão com motor diesel na equação, inclusive preço do seguro. Mas ao utilizar álcool, em regiões do país onde roda maior parte da frota, o benefício do diesel deixa de existir, salvo em situações específicas ou se forem percorridas distâncias anuais bem fora do padrão não-comercial.
E, finalmente, ainda ocorrem no exterior discussões sobre certos aspectos do motor diesel moderno. Hoje, desapareceu a imagem da fumaça negra no escapamento. Ele gasta menos combustível — automaticamente emite menos CO2 —, tem torque excepcional e tornou-se mais silencioso e suave do que no passado. Porém custa caro demais, exige muletas técnicas complicadas para controlar material particulado e óxidos de nitrogênio, além de mais pesado do que um motor a gasolina ou álcool. Mas este último motor deve – e vai — ainda ser aperfeiçoado e anular a discutível superioridade do diesel em veículos leves.
Fernando Calmon (fernando@calmon.jor.br)é jornalista especializado desde 1967, engenheiro e consultor técnico, de comunicação e de mercado.


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