Bioenergia, o caminho para o desenvolvimento brasileiro
O governo federal anunciou recentemente a descoberta, pela Petrobrás, de um novo combustível: o H-BIO. O novo produto será fabricado a partir da mistura de 10% de óleos vegetais (mamona, dendê, soja ou girassol) durante o processo de industrialização do óleo diesel derivado do petróleo. Batizado pela Petrobrás de H-BIO, ele é quimicamente melhor e ambientalmente mais limpo do que o diesel original. Ou seja, mais uma vez, o Brasil está na vanguarda do processo de descoberta de novas fontes energéticas de origem renovável.
Essa tecnologia é revolucionária se lembrarmos que o mundo hoje vive um momento ímpar. De um lado, temos um impressionante progresso econômico, técnico e científico. De outro, ficamos perplexos com o comportamento ambiental e o sem número de cataclismos que têm assolado todos os continentes. Daí a importância de termos combustíveis limpos para intensificar a tarefa de preservar o planeta.
O progresso que estamos testemunhando trouxe como conseqüência um forte aumento no consumo e nos preços do petróleo e seus derivados no mercado internacional e colocou em evidência o fato de que este combustível tem um estoque finito e deverá se esgotar no prazo de algumas décadas.
Esta combinação de fatores coloca uma grande dúvida sobre como se comportarão futuro próximo os preços mundiais do petróleo e seus derivados, criando uma grande interrogação sobre os horizontes dos países que dependem da importação desses produtos, especialmente aqueles com economias pobres.
Na questão ambiental, já é consenso que os grandes problemas climáticos enfrentados pelo planeta estão associados ao acumulo de dióxido de carbono ocasionado pelo uso intenso do petróleo e do carvão mineral, os chamados combustíveis fósseis, que representam 60% da energia consumida no mundo. Esse gás, que é inerte para o ser humano, concentra-se na atmosfera terrestre e cria o chamado ‘efeito estufa’ que, por sua vez, provoca o aquecimento do planeta, trazendo enormes conseqüências sobre o comportamento do clima que conhecemos.
A saída que a humanidade dispõe para escapar dessa encruzilhada está na diversificação das fontes energéticas que permitam substituir os combustíveis de origem fóssil. Entre essas fontes, a mais simples e barata é a biomassa, especialmente aquela derivada da atividade agrícola e pecuária. Enquadram-se nesse modelo não apenas as matérias-primas agrícolas, como a cana-de-açúcar que produz o álcool etílico que usamos em nossos carros e os óleos vegetais de que fazemos o biodiesel, como também os resíduos agrícolas (bagaço da cana, palhas das lavouras e casca de arroz) e pecuários (sebo bovino e dejetos animais) e a madeira que produzimos em florestas cultivadas e que geram a produção de imensa quantidade de carvão vegetal.
Essas fontes de energia permitem produzir os combustíveis líquidos (álcool etílico e biodiesel) utilizados como combustível veicular nos sistemas de transportes de pessoas e cargas e motores estacionários que geram energia elétrica. Permitem produzir também combustíveis sólidos (como o carvão vegetal e o bagaço da cana) que alimentam as caldeiras e produzem o calor necessário para gerar a co-geração de energia elétrica e a produção siderúrgica.
As grandes vantagens desses combustíveis estão em sua origem natural, em seu baixo custo de produção e em sua pureza ambiental, pois não provocam aumento do volume de dióxido de carbono que infesta nossa atmosfera. Ou seja, são combustíveis limpos, baratos e de fontes renováveis e, dessa forma, sustentáveis no longo prazo.
O Brasil é o país pioneiro no uso, em larga escala, dessas fontes renováveis de energia, particularmente a partir do Proálcool, lançado em 1975, quando produziu um veículo inédito no mundo utilizando o álcool etílico hidratado como combustível. Além desse programa exclusivo, o país é tradicional usuário do álcool etílico anidro em misturas com a gasolina. Essa mescla melhora a qualidade da gasolina e reduz drasticamente a emissão de gases poluentes, com excelentes efeitos sobre o meio ambiente, especialmente nas grandes cidades.
Da mesma forma é preciso registrar as enormes florestas cultivadas com eucalipto, que são a fonte natural para a produção de carvão vegetal na produção siderúrgica e o uso do bagaço da cana-de-açúcar como combustível das caldeiras nas próprias usinas que geram, no período da safra, um volume de energia elétrica de, aproximadamente, 2,5 mil megawatts e que representa um montante de 3% da potência instalada brasileira para a produção de energia elétrica.
Por isso, o Brasil é, hoje, o país de referência mundial na produção e uso desses combustíveis. Além disso, nossa localização geográfica, a disponibilidade de terras férteis, nossa capacidade empresarial e disponibilidade de capital humano de ótima qualidade e o domínio completo do ciclo tecnológico de produção de máquinas e equipamentos nos colocam na posição de líder mundial nesse assunto e nos impõe a inadiável tarefa de intensificar o processo de transição da era do petróleo para a era das energias limpas, renováveis e sustentáveis. Temos que mostrar a muitos outros países, pobres e ricos, o que fizemos e motivá-los a seguir o mesmo, e inevitável, caminho do uso das fontes de energia renovável e iniciar a urgente tarefa de promover a limpeza do planeta. Este é um dos desafios que estamos enfrentando neste momento em nosso Ministério da Agricultura. Junto com os demais ministérios que tratam desse assunto, temos a obrigação de estabelecer as bases para uma política organizada e coerente na exploração de nossos recursos naturais para a produção de matérias-primas energéticas, no âmbito da agropecuária brasileira. Elas estão delineadas no Plano Nacional da Agroenergia, lançado no ano passado. Se nossas possibilidades nesta matéria já eram enorme, agora com o H-BIO são de tal envergadura que criam um novo paradigma para os nossos agricultores e pecuaristas acenando com novas oportunidades para o processo de crescimento do agronegócio brasileiro.
Luis Carlos Guedes Pinto - Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento


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