Agroenergia e emprego segundo Ignacy Sachs
No conferência “Da civilização do petróleo a uma nova civilização verde: biomassa, nova matriz energética e agricultura familiar”, pronunciada no Instituto de Estudos Avançados, da USP, o ecossocioeconomista Ignacy Sachs (como ele prefere ser identificado) disse que a chegada dos biocombustíveis à vida adulta deve-se a três fatores: elevados preços do petróleo em razão da proximidade do pico da produção mundial nos próximos 10 a 20 anos e uma demanda em contínuo crescimento; dificuldades geopolíticas, com os custos cada vez maiores para os EUA e seus aliados manterem as linhas de abastecimento a partir do Oriente Médio, tornando-se mais vantajoso investir em alternativas do que continuar a administrar essa situação; e razões ambientais, pois “é evidente que o Protocolo de Kyoto ainda será altamente ineficiente para a redução das emissões de gases de Efeito Estufa, mesmo que seja realizado integralmente”.
Esses três fatores fizeram com que Amory Lovins, um eminente especialista estadunidense em questões energéticas, publicasse recentemente o livro “Vencendo a Partida Final do Petróleo”, um relatório co-financiado pelo Pentágono. Sachs explicou que o argumento de Lovins é apoiado essencialmente no desenvolvimento de uma nova geração de automóveis ultraleves, que consumiriam menos da metade dos veículos atuais: “metade dessa redução estaria relacionada com o menor peso dos automóveis, outros 25% viriam com o programa de biomassa e os 25% restantes a partir de um uso mais eficiente do gás e a utilização de seus excedentes para a produção de hidrogênio”.
Outro estudo destacado por Sachs é um relatório publicado em conjunto pelos Departamentos de Agricultura e de Energia dos EUA. O documento diz ser possível para os EUA tornarem-se independentes da importação de petróleo em 25 anos, graças a um gigantesco programa de produção de biocombustíveis, que envolveria 1 bilhão de toneladas de biomassa por ano. Essa estratégia é baseada na produção do etanol celulósico a partir de todos os tipos de resíduos vegetais, procedimento “que o Brasil já conhece, mas não pratica”, de acordo com Sachs.
Pioneirismo
Diante desse panorama internacional, o Brasil se destaca pelo pioneirismo dos 30 anos de uso do álcool como combustível. O interesse internacional no caso brasileiro é duplo, segundo Sachs: “Para entender melhor a experiência brasileira e pelo interesse dos países industrializados num eventual mercado internacional de etanol, transformado numa ‘commodity’ a ser comprada barato nos países do Sul para alimentar os veículos dos países do Norte”.
No entanto, o pesquisador observou que não se deve reduzir a questão da saída da civilização do petróleo unicamente a desenvolvimentos tecnológicos como o incremento dos automóveis e a produção de um novo combustível. Para ele, o problema deve ser recolocado a partir da perspectiva de uma estratégia energética bem mais ampla, onde a variável principal é aquela energia menos ou não-poluente e muitas vezes a mais barata, ou seja, aquela energia que se deixa de consumir. “É preciso discutir estilos de vida, substituição do transporte individual pelo coletivo, a feição futura das cidades, entre muitas outras coisas.”
Sachs não concorda também com a visão dos biocombustíveis como “commodities”, produzidos por monoculturas voltadas essencialmente à eficiência econômica do processo: “Temos de situar os biocombustíveis dentro de um quadro mais amplo, da civilização moderna da biomassa. Se estamos realmente começando a entrar na fase final da civilização do petróleo, podemos dizer que estamos saindo de um interlúdio de vários séculos, dominados primeiro pelo carvão e depois pelo petróleo, e estamos voltando, em certo sentido, para a energia solar captada pela biomassa. Nessa nova fase, as conquistas da ciência, em particular da biologia e da biotecnologia, devem ocupar um lugar cada vez mais importante. A civilização da biomassa permite produzir alimentos para o homem, forragem para os animais, materiais de construção, adubos verdes, biocombustíveis, matérias primas industriais, fibras, plásticos, fármacos e cosméticos”.
Alimentos e energia
As opiniões divergem quanto ao uso de solos cultiváveis: uma corrente de ambientalistas acredita que faltarão solos; já a FAO considera que, sobretudo na América Latina e na África, são utilizados apenas um quinto dos solos cultiváveis. A mudança para a civilização da biomassa permitirá atacar grandes problemas do Século 21, entre os quais o maior problema social: a falta de trabalho decente para todos. “É totalmente absurdo pensar o futuro deste século sem pensar no problema do desenvolvimento rural. Os pequenos agricultores e suas famílias correspondem a 2,5 bilhões de pessoas. Não dá para jogar toda essa gente nas favelas. Se isso acontecer, teremos que lidar com uma tragédia de proporções inéditas”, pensa Sachs.
“Se há um país onde a saída da civilização do petróleo é possível, num período de 20, 30 anos, para a construção de uma civilização moderna de biomassa, esse país é o Brasil”. Sachs justificou essa opinião ao relacionar os componentes brasileiros favorecedores da mudança de civilização: a maior reserva de biodiversidade, enorme quantidade de terras cultiváveis, climas variados, dotação de recursos hídricos entre ótima e razoável na maioria das regiões, pesquisa agronômica e biológica de categoria internacional e indústria capaz de produzir equipamentos para a produção de etanol e biodiesel.
O fato de o País ter chegado praticamente à auto-suficiência em petróleo não significa que não deva avançar na substituição do mesmo quando possível. Trocado pelo álcool, que é mais barato, o petróleo pode ser vendido nos mercados mundiais. “E como o Brasil tem essa inovação que é o motor flex, nada impede que se avance rapidamente na área do etanol”, concluiu
Biodiesel
Sachs considera a situação mais complicada quando o assunto é o biodiesel: “Estão sendo analisados 13 ou 14 óleos diferentes. É evidente que o País precisará de estratégias diferenciadas por biomas, com um tipo de óleo no Trópico Úmido, outro no Semi-Árido e um terceiro no Cerrado. Certamente o óleo de dendê aparece como uma alternativa bastante interessante para o Trópico Úmido. Há uma experiência estrangeira muito bem sucedida como parâmetro: a reforma agrária da Malásia, baseada na produção de óleo de dendê”.
Há alguns anos, Sachs descreveu uma proposta de reforma agrária para regiões da Amazônia: numa cooperativa de 500 famílias, cada uma receberia 10 ha para dendê e outros 10 ha para atividades agroflorestais e pequenas lavouras de subsistência; cada vez que fossem atingidos 5 mil ha de dendê, uma indústria nacional construiria uma usina de esmagamento, com as seguintes condições: fornecimento das mudas, assistência técnica, exclusividade de compra e pagamento por um preço correspondente a um percentual do preço mundial do óleo. Estudos demonstraram que 10 ha de dendê dão emprego a um homem para o ano todo. Os outros 10 ha propiciam um ou dois empregos para outros membros da família. E um conjunto de 500 famílias possibilita o surgimento de uma vila agroindustrial com empregos industriais, comerciais, técnicos, sociais e no transporte.
No Semi-Árido as opções devem ser diferentes: “em vários Estados do Nordeste é provável que a escolha recaia sobre a mamona, na qual o Brasil já tem experiência, pois durante muitos anos essa cultura esteve vinculada à produção industrial”.


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