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Usina de biodiesel substitui mamona por óleo de soja

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terça, 05 agosto 2008 . O Estado de São Paulo   
Revista BiodieselBR
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Não há movimento de caminhões no pátio da usina de biodiesel da Brasil Ecodiesel, em Floriano. As evidências são de que a fábrica funciona em ritmo lento e a produção é mínima. Há denúncias na cidade de que a empresa começou a demitir parte dos funcionários. Essa usina de biodiesel foi montada para processar a mamona produzida no projeto Santa Clara. O problema é que não há mamona suficiente para fazer a fábrica produzir - além disso, segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP), o biodiesel produzido apenas com mamona é muito viscoso e danifica os motores.

A empresa Brasil Ecodiesel admite que está produzindo biodiesel com óleo de soja. "O óleo de soja ainda representa mais de 90% dos óleos utilizados para a produção de biodiesel da Brasil Ecodiesel em suas unidades industriais", diz comunicado da empresa enviado ao Estado. O comunicado é ambíguo, pois não especifica qual é a matéria-prima usada na produção do biodiesel na usina de Floriano. "A companhia pretende reduzir o percentual de utilização do óleo de soja na medida em que sua estratégia de originação (sic) agrícola seja expandida, elevando o percentual de utilização dos óleos de mamona, girassol e, no longo prazo, pinhão manso", diz o comunicado.

Há um motivo para a fabricação do biodiesel da mamona por agricultores familiares. A produção de combustível de mamona ou de outras oleaginosas, no regime da agricultura familiar, concede ao empreendedor o "selo combustível social", que dá direito a incentivos fiscais: isenção da contribuições para Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e para o Programa de Integração Social (PIS). Também dá direito a financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), do Banco do Nordeste (BnB) e do Banco da Amazônia (Basa) a juros mais baixos.

O secretário de governo da prefeitura de Floriano, Edilberto Batista de Araújo, não tem dúvidas de que o futuro da usina da Brasil Ecodiesel é a soja. Segundo ele, o cultivo está em expansão no sul do Piauí. "Temos cerca de 2 milhões de hectares de cerrado, área propícia à produção de soja. Esta é uma das últimas fronteiras agrícolas do País."

Agricultor ganha R$ 164 por mês
Prefeita de uma das cidades da região diz que miséria ‘está fluindo’ a cada dia.
A queda dos rendimentos dos agricultores do projeto Santa Clara está afetando o comércio da região. "Já estou tendo prejuízo, pois as pessoas ficam sem pagar suas contas", reclama Teodoro Alves Bezerra, proprietário do Mercadão Bezerra. A loja fica na pequena cidade de Eliseu Martins, a menos de 20 quilômetros do empreendimento. O comerciante explica que os agricultores recebem R$ 164 por mês da empresa Brasil Ecodiesel, mas a maioria paga prestações que fizeram para comprar móveis e outros utensílios domésticos. "No fim, eles ficam com pouco dinheiro."

Plantar mamona era uma atividade que não existia em Canto do Buriti ou em Eliseu Martins, antes do projeto Santa Clara. "Nessa região nunca se falou em plantio de mamona", informa Teodoro Bezerra. "As culturas daqui sempre foram de milho, feijão e mandioca", reconhece. Ele não vê futuro para a mamona.

"Os próprios agricultores de Santa Clara não acham que é bom negócio plantar mamona. Eles só plantam porque está no contrato", revela o comerciante, ao se referir ao acordo entre a empresa Brasil Ecodiesel e os seus "parceiros".

A prefeita de Eliseu Martins, Terezinha Dantas (PSDB), lembra que, no início do projeto Santa Clara, muita gente se beneficiou. Mas agora, segundo ela, a realidade mudou. "A cada dia, a miséria está fluindo", diz. "É um estado de calamidade, pois eles recebem R$ 164 por mês. Esse dinheiro dá para o quê?", questiona. Ela diz que a prefeitura também está ajudando os agricultores. "Às vezes, damos medicamentos para o posto de saúde de lá", informa.

Para complementar a renda, alguns agricultores se transformam em "tapadores de buracos" na rodovia que liga Canto do Buriti a Eliseu Martins. A rodovia estadual corta o projeto Santa Clara e alguns de seus trechos estão intransitáveis. Quando a reportagem do Estado passou pelo local, os "agricultores" Raimundinho e Ana Rita estavam em plena atividade. Ele retirava terra na margem da estrada e ela, grávida, tapava os buracos, usando uma pá. Antes de cada carro passar, ela jogava um pouco de terra nos buracos, na esperança de ganhar alguns trocados dos motoristas.

"A gente fica aqui enquanto não colhe a mamona", disse Raimundinho, tentando se justificar. Mesmo com as dificuldades atuais do projeto Santa Clara, onde a colheita de mamona é cada vez menor, os dois "parceiros" da empresa Brasil Ecodiesel não querem abandonar o empreendimento. "De onde eu vim, não davam o dinheirinho que a gente recebe aqui", explicou o "tapador de buracos", numa referência aos R$ 164 que recebe da Brasil Ecodiesel.

Embora algumas famílias tenham abandonado o projeto, a maioria absoluta não "arreda o pé" do local, na esperança de se tornar proprietária definitiva do lote em que trabalha. A área do projeto de 40 mil hectares foi doada pelo governo do Piauí à Brasil Ecodiesel, mediante o compromisso de que, após 10 anos, os agricultores se transformassem em proprietários de seus lotes.

"Eles dizem que no contrato que assinaram ficou acertado que a empresa também dará a eles R$ 9 mil depois de 10 anos", informou Teodoro Bezerra. A empresa Brasil Ecodiesel nega a existência do compromisso de pagar R$ 9 mil aos seus parceiros. A esperança de se tornar proprietário de um pequeno pedaço de terra é o que mantém os trabalhadores no projeto Santa Clara.

Orgulho e reclamações

"Os meninos não querem sair daqui", diz Nauzita Andrade de Souza. Ela e o marido, Pedro José de Souza Filho, receberam o presidente Lula em sua residência, em agosto de 2005, durante a primeira colheita de mamona do empreendimento.

Mesmo feliz onde está, Nauzita reclama. "Eu acho bom, mas o dinheiro é muito pouco", diz, ao lembrar que a empresa Brasil Ecodiesel paga apenas R$ 164 por mês para cada família. O casal tem de pagar prestação de R$ 59. Assim, a renda líquida mensal familiar é de apenas R$ 105.

Pedro não esquece a visita de Lula. "Depois que o presidente veio aqui, surgiu o boato de que ele tinha me dado R$ 10 mil. Muita gente vinha à minha casa para ver se eu tinha ganho uma geladeira ou fogão", relembra.



Revista BiodieselBR
Comentarios (3)add comment

Paulo Gonçalves disse:

  Está claro que todos estes transtornos e prejuízos não passam de consequências da ação de amadores, os quais investem indiscriminadamente sem estudos técnicos ou econômicos. Todo negócio tem seus segredos, guardados pelas pessoas certas. Procurem-nas! oleosgorduras@yahoo.com.br
1

8.08.2008 - 18:57

euclides de oliveira pinto neto disse:

  A propaganda feita em torno da usina de biodiesel a partir da mamona, foi em função das eleições presidenciais de 2006. Quando o Pinóquio apregoava aos quatro cantos que "nunca nesste paiizzz ninguém realizou tanto em tão pouco tempo", tinha a necessidade de angariar votos. Típico projeto eleitoreiro, após as "eleições"?!?! (feitas nas urnas eletronicas brasileiras.....) o agricultor ficou abandonado. Por que não implantam uma outra cultura de oleaginosa, com ciclo de produção mais curto ? Por que não aproveitam o clima da região para produção de frutas, para exportação ? Qual a verdadeira intenção em manter os agricultores enganados pelas falsas promessas ?
2

12.08.2008 - 22:43

wilson de Oliveira disse:

  Oleaginosa com ciclo de produção mais curto. Sugiro seja feito um teste com a semente de maxixe. Ciclo mais curto do que o maxixe eu desconheço. De uma roça de mine e pequeno agricultor - é o fruto que chega primeiro.
3

13.08.2008 - 08:21

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