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Expedito Parente: Combustível para o social.


Diário do Nordeste - 25 set 2007 - 07:04 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:23

O desenvolvimento de um combustível capaz de oferecer uma alternativa viável em termos ambientais, estratégicos e, principalmente, sociais, marca a trajetória de Expedito José de Sá Parente, um dos homenageados com o Troféu Sereia de Ouro, do Sistema Verdes Mares

Uma tecnologia com três propósitos: social, ambiental e estratégico. Assim o engenheiro químico Expedito José de Sá Parente, 66 anos, um dos homenageados deste ano com o Troféu Sereia de Ouro, define o biodiesel, combustível em cuja pesquisa é pioneiro, atuando desde os anos 70 e só mais recentemente colhendo os frutos do reconhecimento de uma tecnologia que, ele não tem dúvidas, colocará o Brasil em destaque no cenário internacional na nova era econômica que se aproxima. Uma nova etapa da história, na qual a produção se baseará não mais no petróleo que motiva guerras e acirra ânimos entre grandes multinacionais, e sim nas energias limpas, como a solar, a eólica e a força dos biocombustíveis.

O início dessa trajetória se deu nos anos 70, quando Expedito Parente se dedicava, na Universidade Federal do Ceará, a pesquisas relacionadas à produção de álcool, então em voga, também por questões políticas e econômicas, como a grande alternativa à gasolina, em meio a uma grave crise internacional do petróleo. O pesquisador cearense já procurava utilizar matérias-primas diferentes, como mandioca e madeira, para a produção de álcool. Até que percebeu que o problema exigia uma solução mais ampla.

O álcool é um combustível solitário, só pra veículos de passeio. Não é coletivo, não serve pra caminhão, ônibus, trem, pra produção de energia elétrica... Já o biodiesel, como sucedâneo do diesel mineral, é um combustível coletivo, muito mais plural. Isso eu vi na época, vi que o álcool não iria diminuir nossa dependência do petróleo´, afirma Expedito, fazendo questão de relativizar o momento de inspiração que, em um domingo de 1977, pela observação do fruto do ingá, de semente oleaginosa, lhe rendeu o primeiro lampejo de trabalhar, utilizando óleo de algodão e metanol, no que viria a ser a tecnologia do biodiesel. ´Isso é de somenos importância. Essa foi a inspiração, em um fim de semana, um momento de descontração, que lhe permite ter boas idéias. Mas toda concepção advém do encontro entre uma necessidade e um acaso. No meu caso, ter um sucedâneo para o óleo diesel, de forma plural, coletiva. Em vez de concentrador de riqueza, um combustível distribuidor de riqueza´.

Apesar de ter autonomia para trabalhar na universidade, a idéia demorou a ganhar visibilidade. Produzido de forma artesanal, o biocombustível contou com apoio da Companhia Energética do Ceará para um de seus primeiros testes, nos veículos de manutenção da empresa. Mais tarde viriam também testes com apoio da Aeronáutica. Os resultados estimularam a continuidade da pesquisa e a solicitação de registro de patente no Instituto Nacional de Propriedade Industrial, apresentada em 1980, mesmo ano do lançamento do biodiesel, e concedida três anos depois. Apesar do pioneirismo mundial na patente da produção de biodiesel pelo processo industrial da transesterificação, mais uma vez a repercussão foi tímida. E, apesar de um teste em um avião militar brasileiro em 1984, a tecnologia entrou em domínio público, por não ter sido explorada comercialmente, mesmo 10 anos após a patente.

Enquanto isso, o filão do biocombustível era explorado em outras partes do planeta. Em 1999, o próprio Expedito Parente faz essa constatação na Alemanha, diante de um posto de combustível oferecendo biodiesel. Enquanto no Brasil não conseguira chamar atenção, sua idéia fora aproveitada e desenvolvida fora do País. Motivo para desânimo, diante de tanta espera e de tamanha contradição? Parente diz que não.

´A minha vida não tem retrovisor, eu não olho pra trás. Sempre olhei pra frente. E meu maior compromisso é com a felicidade. Não posso ter raiva de nada, nem obrigar que as pessoas enxerguem as coisas. Essa missão não é minha´, contrapõe. ´Eu simplesmente aposto que um dia vai chegar. E, enquanto isso, vou fazendo outras coisas, muitas coisas. Houve uma espera, sim, pelo biodiesel, mas não fiquei esperando. Esperar não é viver´, diz, lembrando o trabalho no desenvolvimento e na divulgação do leite de soja, iniciativa que chegou a beneficiar até três milhões de crianças em São Paulo, e os muitos anos dedicados à vida acadêmica, do ensino à pesquisa.

Biodiesel: vitória da perseverança

Apesar da diversidade de atividades, a convicção da viabilidade e do potencial social do biodiesel levou o engenheiro a buscar parceiros como o Sebrae para, ainda em 1999, criar a empresa Tecbio e construir um protótipo de usina produtora do combustível. O mesmo modelo que em 2003, com a mudança no Governo Federal, finalmente encontrou acolhida em Brasília. ´No início do governo Lula, levamos o protótipo para o Congresso Nacional, e conseguimos chamar atenção. O governo acolheu o projeto, porque percebeu a função social do biodiesel. Hoje, a gente saiu da posição de louco pra posição de pioneiro, visionário. O tempo foi que resolveu isso aí, o cenário atual do mundo, da energia, das condições climáticas do planeta. Tudo isso dá uma visibilidade maior´.

Repercussão que se concretizou na concessão do Blue Sky Award, o mais importante prêmio de tecnologia e ciência da Organização das Nações Unidas, entregue ao engenheiro cearense em 2005, na China, pela descoberta do bioquerosene, no mesmo contexto. A multinacional da aviação Boeing continua investindo em pesquisas sobre o bioquerosene, conforme atestou Parente em uma reunião no ano passado, nos Estados Unidos, com representantes da empresa, da Agência Espacial Norte-americana (Nasa) e do governo norte-americano. E, mais recentemente, tornou a ser convidado pela Boeing, desta vez para o vôo inaugural do modelo 787.

Hoje a Tecbio produz plantas industriais e responde por mais de 70% do biodiesel produzido no Brasil, vendendo sua produção para a Petrobras e colaborando com a meta de 2% de biocombustível no óleo diesel, a ser atingida até o ano que vem. Outra empresa do grupo fabrica equipamentos de menor porte, com custo entre R$ 400 mil e R$ 1,2 milhão e capacidade de produção entre 100 e 500 litros de biodiesel por hora. Investimento que, assinala o pesquisador, deve se tornar cada vez mais acessível, conforme o avanço das pesquisas. ´O programa do biodiesel tem que ser aperfeiçoado, corrigir defeitos, para que suas missões sejam melhor exercidas. Mas hoje, no Brasil, existe muita boa vontade, tanto do Governo Federal quanto da maioria dos estaduais, como o do Cid Gomes, que tem apoiado a mamona, com atitudes concretas´.

Apesar dos fortes interesses de potências mundiais e multinacionais do petróleo, combustível que continua a motivar guerras como a do Iraque, Expedito Parente também se mostra otimista quanto ao futuro do biodiesel em escala global. ´Pra mim, não cabe visão apocalíptica. Precisamos de soluções para um planeta sustentável, e a opinião pública vai forçar que haja políticas públicas para essa energia sustentável´, aposta. ´O contraponto a essas guerras pelo petróleo está na energia solar direta e indireta, como os biocombustíveis. Vamos entrar na era solar de energia, e o Brasil, que já produz 45% da sua matriz solar, vai inaugurar essa nova era. Não tem quem segure. As multinacionais do petróleo, que se lasquem´, diz, como bom cearense, o cientista que prepara um livro a ser editado pela Unesco, ´A lógica e as missões dos biocombustíveis´.

Sereia de Ouro

Apesar de contar com várias premiações - entre as quais a Medalha Nacional do Conhecimento, a ser entregue em cerimônia esta semana, em Brasília -, Parente considera o Troféu Sereia de Ouro uma homenagem singular.

´Para mim, representa algo muito especial, porque é uma premiação na minha terra. Todas as outras foram fora do Ceará, ou fora do Brasil. Essa tem um sabor especial, da coisa de casa´, justifica o cientista. ´Além disso, fui um dos participantes da implantação da Unifor, trabalhei com o Grupo Edson Queiroz durante cinco anos. Foi um pacto, muito mais que um contrato, para a implantação da área de Tecnologia da Unifor. Então, por ter sido participante de um dos grandes empreendimentos do grupo, que é a Unifor, esse prêmio tem também esse sabor especial´.