Créditos de carbono: cada um paga pelo que consome
Imagine a seguinte cena: Você estaciona em um posto de combustível. Este tem sido um ano bem movimentado, você dirigiu muito, tanto a trabalho quanto a lazer. Quando coloca um cartão na bomba, aparece em uma tela o aviso de que excedeu a sua concessão anual de carbono. Para encher o tanque, precisará comprar alguns créditos de carbono, além de pagar pela gasolina. Bem, ao menos você tem tomado banhos menos demorados em casa...
A sua vizinha, a senhora Rossini, não dirige e, no ano passado, gastou parte das economias na compra de um isolamento melhor para a casa. O investimento foi recompensado: ela possui créditos no cartão de energia e isso significa que ela vai ganhar um dinheirinho extra. Os créditos que carbono que você adquiriu no posto de combustível foram comprados dela.
O cenário não é improvável e pode estar perto de se tornar realidade. Cientistas e pesquisadores britânicos trabalham para desenvolver um esquema que emita uma concessão de carbono e um cartão eletrônico de ratificação de energia para todos os cidadãos, o que os tornaria aptos a negociar as próprias emissões – assim como farão os países signatários do Protocolo de Kyoto após 2008.
A idéia foi debatida no Parlamento e apresentada a funcionários da tesouraria. O ministro do meio ambiente, Elliot Morley, disse ao jornal London’s Daily Telegraph, antes da conferência do G8 sobre mudanças climáticas em julho, que era tempo de se “pensar o impensável” para reverter o aquecimento global.
Ele também falou à revista ambientalista americana Grist que “a concessão pessoal de carbono é uma idéia intelectual muito atraente”. Morley acredita que o plano seria caro e que poderia levar dez anos para funcionar, mas “isso não deveria nos impedir de estudar os argumentos” – afirmou.
Solução? - Este é um meio “virtualmente garantido” de ajudar a Grã-Bretanha a alcançar sua meta de reduzir em 60% as emissões de gases do efeito estufa até 2050. É o que defendem os membros da Comissão de Desenvolvimento Sustentável, órgão de aconselhamento independente do governo Blair.
A proposta, desenvolvida pelos ecologistas Mayer Hillman e Tina Fawcett no livro “Como podemos salvar o Planeta”, publicado em 2004, não conta com avanços tecnológicos, novos impostos por carbono ou mudanças improváveis no comportamento humano.
Em vez disso, identifica primeiro quanto dióxido de carbono (CO2) a nação pode emitir por ano, para, então, definir suas metas. Depois atribui uma parte de carbono a cada pessoa. Nesse caso, todo o mundo seria responsável por atingir o alvo nacional. Um o esquema separado, mas provavelmente semelhante, seria necessário para controlar os negócios e as emissões de governo.
Fawcett, pesquisadora do Instituto Mudanças Ambientais da Universidade de Oxford e do Centro de Pesquisa em Energia Reino Unido, explica como o esquema poderia controlar as emissões de carbono provenientes da energia consumida em casa e em viagens pessoais - metade o total britânico.
Todos os cidadãos receberiam um cartão eletrônico para medir sua cota anual de carbono. Sempre que comprassem petróleo, pagassem a conta de gás ou de eletricidade ou embarcassem em um avião, por exemplo, teriam de passar o cartão em uma máquina que descontaria parte do crédito – ou, se preferissem, comprariam alguns créditos.
A concessão provavelmente seria distribuída mensalmente, para as pessoas não consumissem tudo de uma vez, e seria a mesma para todos os adultos, do cidadão comum à rainha. Fawcet diz que o âmago da questão está em todos terem os mesmo direitos e responsabilidades sobre a emissão de dióxido de carbono.
Pagar para consumir - Os grandes consumidores de energia, aficionados por ar-condicionado, veículos de quatro rodas e feriados na Tailândia poderiam (pelo menos inicialmente) manter o padrão de vida a que estão acostumados. Mas pagariam um preço. Eles comprariam créditos de carbono diretamente dos “pequenos consumidores” ou em pontos de venda conectados com o “banco de carbono” nacional.
Os pesquisadores estão estudando uma maneira de fazer o custo dos créditos variarem conforme a oferta e a demanda. Se a procura for alta ou o governo restringir a quantidade de créditos para alcançar a meta nacional de emissões, o preço subirá, e, consequentemente, influenciará o comportamento das pessoas. Ao menos, essa é a esperança.
Os “pequenos consumidores” de energia, por outro lado, poderão vender uma parte de sua concessão – talvez em um banco ou nos correios. A pesquisadora diz que o plano pode resultar em uma distribuição de dinheiro – dos ricos, que tendem a ser grandes consumidores de energia, aos pobres.
Esta é umas das razões pela qual ela acredita que as concessões pessoais de carbono seriam mais justas do que um imposto de carbono. “Um imposto seria profundamente injusto porque as pessoas pobres gastariam uma parcela maior da sua renda para pagar energia do que as ricas”, mesmo sendo, em geral, responsáveis por emissões menores, avalia. Ela acrescenta que capacitar as pessoas para gerenciar suas cotas de carbono pode ser mais popular do que pagar mais um imposto.
Dúvidas - As perguntas ainda são muitas. Haveria cobrança de carbono ao se usar o transporte público? (provavelmente bem menor do que a por dirigir o próprio carro). E quanto as pessoas que vivem em áreas rurais e que são obrigadas a dirigir regularmente; ou as pessoas que não possuem dinheiro para tornar o sistema energético de casa mais eficiente? Fawcett diz que é preciso se pensar melhor nos efeitos sobre grupos particulares, mas teme que isenções demais tornem a idéia impraticável.
Os críticos dizem que o esquema desencadearia um “pesadelo de Orwellian”, por causa de burocracia e micro regulamento. A pesquisadora não concorda e destaca que, durante a Segunda Guerra Mundial, o governo introduziu um sistema de racionamento de comida a dezenas de milhares de revendedores, durante meses. Com computadores e um número limitado de combustível, transporte e energia, um sistema semelhante, porém menos doloroso, poderia ser introduzido hoje, acredita.
Mas o que realmente atinge as pessoas é ter de alcançar as metas de 2050. Fawcett explica que cada britânico terá de reduzir sua emissão pessoal média de 5,4 toneladas por ano para quatro toneladas até 2020, e para duas toneladas até 2050.
Ela diz que tudo isso não é tão draconiano quanto parece: inovação tecnológica e casas mais sustentáveis podem ajudar bastante na redução. Mas o maior problema ainda serão os aviões. Uma viagem com retorno de Londres para Nova York consome mais de quatro toneladas de dióxido de carbono. Se a viagem for para Sidney, são 11 toneladas. “Esses são alguns números desconfortáveis que nós temos de confrontar”.
O problema dos aviões é a maneira como emitem o CO2 - proporcionalmente três vezes mais prejudicial do que as emissões provenientes de outras fontes. “Não há solução tecnológica para isso no horizonte da aviação”, diz a pesquisadora. “Então a única coisa a ser feita é viajar menos de avião”, complementa.
E a Austrália? Nos cálculos de Fawcett – se as emissões pessoais correspondem à metade do total, como na Grã-Bretanha – em 2002, cada australiano emitiu o equivalente a nove toneladas de CO2 (isso corresponde a 5,4 toneladas de cada britânico mais duas toneladas para cada pessoa do planeta). Em termos de emissões, apenas os cidadãos dos Estados Unidos fazem pior.
Fawcett diz que é preciso medir a dificuldade de se abraçar o plano contra o custo de não se fazer nada. Com relatórios sobre os efeitos do aquecimento global surgindo todos os dias, ela sente-se arduamente sozinha em seu senso de urgência.
Com informações do Sydney Morning Herald


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