Os ganhos com contratos de poluição
O mercado europeu de direitos de emissão de CO2 deve alcançar US$ 5 bilhões em 2005. Numa manhã de segunda-feira de maio, seis corretores com suas gravatas meio tortas trabalhavam, presos aos telefones do escritório de Londres da Natsource LLC, enquanto os preços piscavam nas telas de seus computadores. Esses são corretores que não negociam ações, bônus, ouro ou petróleo. O que eles negociam é poluição. Mais precisamente, eles compram e vendem o direito de empestear a atmosfera com gás carbônico (CO2), o gás causador do efeito estufa que a Nacional Academy of Sciences dos Estados Unidos diz ser o causador do aquecimento global.
Por comissões que eles preferem não revelar, os corretores da Natsource ajudam as empresas poluidoras a negociar a prerrogativa legal de lançar toneladas de CO2 na atmosfera. Seu preço mais recente: cerca de 29 euros (US$ 35) a tonelada, inferior ao preço pago para encher de gasolina o tanque de um carro em Londres. Um desdobramento da Lei Federal do Ar Limpo dos Estados Unidos, de 1990, o mercado de direitos de poluição foi muito tempo deixado de lado nos recônditos das finanças mundiais. Agora, puxada pelo Protocolo de Quioto sobre aquecimento planetário e pela sede por lucros de Wall Street, essa polêmica ponta do mercado de derivativos - e os perigos que pode representar ao meio ambiente e à saúde humana - está crescendo como nunca.
O mercado de poluição permite que usinas geradoras de energia elétrica, refinarias e fábricas comprem e vendam o direito de poluir - forma alternativa que as autoridades reguladoras adotaram para não ter que limitar as emissões em cada uma dessas unidades industriais. A exemplo dos contratos futuros de trigo, das opções de ações e de outros tipos de derivativos, o valor desses instrumentos financeiros deriva de outra coisa - que, neste caso, são os níveis de poluição.
O CO2, o metano, o óxido de nitrogênio, o dióxido de enxofre, o hexafluoreto - os direitos de emitir todos esses tipos de gases nocivos são negociados com fins lucrativos nos dias de hoje. O que começou em 1973 - com um programa de negociações instituído pelo governo dos Estados Unidos e destinado a reduzir a presença do chumbo na gasolina - cresceu e passou a incluir tudo, desde empréstimos corporativos vinculados aos níveis de poluição até contratos futuros de esterco de porco.
As transações explodiram. Prevê-se que o mercado europeu de direitos de emissão de CO2, que não existia quatro anos atrás, vai alcançar US$ 5 bilhões em 2005, segundo a European Climate Exchange (Bolsa Européia de Clima), com sede em Amsterdã, na Holanda. As negociações do mercado norte-americano de direitos de emissão de dióxido de enxofre (SO2), o principal causador da chuva ácida, totalizam US$ 7 bilhões anuais e operam há 10 anos.
Para se ter uma idéia da dimensão dessas cifras, basta levar em conta que toda a safra 2002-2003 de trigo norte-americana foi avaliada em US$ 5,7 bilhões pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.
Empresas de energia elétrica como a E.ON AG, bancos de investimentos como o Goldman Sachs Group Inc., a Merrill Lynch & Co. e o Morgan Stanley e empresas de fundos de hedge como a Citadel Investment Group LLC acorreram avidamente ao mercado de poluição. Muitas delas estão buscando uma vantagem competitiva nesse jovem e obscuro mercado dos direitos europeus de emissão de CO2, onde os preços quadruplicaram este ano. Os preços das licenças de 2005 para emissão de CO2 alcançaram sua alta recorde de € 29,50 por tonelada a 7 de julho, a partir de seu patamar mais baixo de € 6,20 por tonelada, computado a 10 de janeiro passado.
Nesse cenário, o risco se apresenta de várias maneiras. A chuva na Espanha, uma frente fria na França, o preço do carvão nos Apalaches ou do petróleo com baixo teor de enxofre no Texas - qualquer punhado de coisas pode desencadear um turbilhão dos preços das emissões. Os versados nessa bolsa dizem que os perigos potenciais nada são se comparados aos lucros potenciais.
"É a versão atual da Corrida do Ouro da Califórnia", diz Dirk Forrister, 48, diretor executivo lotado em Londres da Natsource, uma corretora de commodities de Nova York especializada em direitos de emissão.
Por comissões que eles preferem não revelar, os corretores da Natsource ajudam as empresas poluidoras a negociar a prerrogativa legal de lançar toneladas de CO2 na atmosfera. Seu preço mais recente: cerca de 29 euros (US$ 35) a tonelada, inferior ao preço pago para encher de gasolina o tanque de um carro em Londres.
Um desdobramento da Lei Federal do Ar Limpo dos Estados Unidos, de 1990, o mercado de direitos de poluição foi muito tempo deixado de lado nos recônditos das finanças mundiais. Agora, puxada pelo Protocolo de Quioto sobre aquecimento planetário e pela sede por lucros de Wall Street, essa polêmica ponta do mercado de derivativos - e os perigos que pode representar ao meio ambiente e à saúde humana - está crescendo como nunca.
O mercado de poluição permite que usinas geradoras de energia elétrica, refinarias e fábricas comprem e vendam o direito de poluir - forma alternativa que as autoridades reguladoras adotaram para não ter que limitar as emissões em cada uma dessas unidades industriais. A exemplo dos contratos futuros de trigo, das opções de ações e de outros tipos de derivativos, o valor desses instrumentos financeiros deriva de outra coisa - que, neste caso, são os níveis de poluição.
O CO2, o metano, o óxido de nitrogênio, o dióxido de enxofre, o hexafluoreto - os direitos de emitir todos esses tipos de gases nocivos são negociados com fins lucrativos nos dias de hoje. O que começou em 1973 - com um programa de negociações instituído pelo governo dos Estados Unidos e destinado a reduzir a presença do chumbo na gasolina - cresceu e passou a incluir tudo, desde empréstimos corporativos vinculados aos níveis de poluição até contratos futuros de esterco de porco.
As transações explodiram. Prevê-se que o mercado europeu de direitos de emissão de CO2, que não existia quatro anos atrás, vai alcançar US$ 5 bilhões em 2005, segundo a European Climate Exchange (Bolsa Européia de Clima), com sede em Amsterdã, na Holanda. As negociações do mercado norte-americano de direitos de emissão de dióxido de enxofre (SO2), o principal causador da chuva ácida, totalizam US$ 7 bilhões anuais e operam há 10 anos.
Para se ter uma idéia da dimensão dessas cifras, basta levar em conta que toda a safra 2002-2003 de trigo norte-americana foi avaliada em US$ 5,7 bilhões pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.
Empresas de energia elétrica como a E.ON AG, bancos de investimentos como o Goldman Sachs Group Inc., a Merrill Lynch & Co. e o Morgan Stanley e empresas de fundos de hedge como a Citadel Investment Group LLC acorreram avidamente ao mercado de poluição. Muitas delas estão buscando uma vantagem competitiva nesse jovem e obscuro mercado dos direitos europeus de emissão de CO2, onde os preços quadruplicaram este ano. Os preços das licenças de 2005 para emissão de CO2 alcançaram sua alta recorde de € 29,50 por tonelada a 7 de julho, a partir de seu patamar mais baixo de € 6,20 por tonelada, computado a 10 de janeiro passado.
Nesse cenário, o risco se apresenta de várias maneiras. A chuva na Espanha, uma frente fria na França, o preço do carvão nos Apalaches ou do petróleo com baixo teor de enxofre no Texas - qualquer punhado de coisas pode desencadear um turbilhão dos preços das emissões. Os versados nessa bolsa dizem que os perigos potenciais nada são se comparados aos lucros potenciais.
"É a versão atual da Corrida do Ouro da Califórnia", diz Dirk Forrister, 48, diretor executivo lotado em Londres da Natsource, uma corretora de commodities de Nova York especializada em direitos de emissão.
A corrida dos contratos de poluição do século 21 poderá, em última instância, prejudicar o meio ambiente também, segundo um estudo de 2002 encomendado pela Clean Air Trust, um grupo sem fins lucrativos de Washington que promove a adoção de rígidas leis de qualidade do ar. As transações de direitos de poluição sufocam a inovação dos controles de emissão, concluiu esse estudo.
Daniel Becker, diretor de aquecimento global e energia no Sierra Club de São Francisco, um grupo preservacionista fundado há 113 anos, diz que a melhor maneira de defender o meio ambiente não são as negociações - é a redução das emissões derivadas de combustíveis fósseis, o fomento ao desenvolvimento de fontes de energia alternativas, como a energia eólica e solar, e a fiscalização do cumprimento dos limites de poluição. "Se criarmos uma instância dinâmica de negociações, mas destruirmos o planeta Terra, não estaremos conseguindo o que queremos", diz Becker.


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