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Biodiesel

Plantadores de cana se tornam produtores de combustível no Brasil


The New York Times - 29 nov 1999 - 22:00 - Última atualização em: 09 nov 2011 - 19:21

Não há muito tempo, os moradores desta abundante região de plantação de cana no sul do Brasil precisavam manter os olhos grudados no preço do açúcar nos mercados mundiais para saber se os plantadores locais estavam contratando ou demitindo.

Hoje em dia, entretanto, a maioria das pessoas nesta pequena cidade parece mais preocupada com o preço do petróleo. E por uma boa razão: desde que os preços mundiais do petróleo começaram a subir no ano passado, a demanda por seus combustíveis alternativos, como um etanol baseado na cana, disparou, ajudando a alinhar os plantadores de cana brasileiros e tornando-os menos vulneráveis às alterações do mercado de açúcar.

“O etanol está a caminho de se tornar um produto como o petróleo, e o preço do petróleo é uma das principais razões disso”, disse José Fernandes Rio, um diretor da Usina Cerradinho, um dos oito moinhos de açúcar e destilarias de etanol de Catanduva, que está gastando bastante para aumentar a produção.

A crescente demanda por etanol – ou álcool, como falam os brasileiros – está abastecendo um boom de investimento na indústria de cana de açúcar do Brasil não visto desde a crise do petróleo da década de 70.

Naquela época, a ditadura militar do país tentou reduzir a dependência do petróleo estrangeiro oferecendo abundantes subsídios e brechas de impostos para os donos de moinhos para transformarem a cana em etanol, além de financiarem a construção de uma rede de distribuição para o combustível.

Apesar de a tensão do petróleo estar novamente ajudando a motivar uma onda de investimento na indústria de açúcar do Brasil, desta vez o governo não está pagando a conta. Com o dinheiro de uma recuperação nos preços mundiais do açúcar nos últimos anos, muitos moinhos estão gastando seu próprio dinheiro e emprestando de bancos para aumentar a produção e atualizar seus terminais, máquinas e destilarias a fim de melhorar o serviço aos mercados estrangeiros.

De acordo com uma recente pesquisa do Pró-Cana, um grupo de pesquisa em Ribeirão Preto que acompanha a indústria de açúcar e etanol, 12,5 bilhões de reais (US$ 5,1 bilhões) já foram destinados a 40 novos moinhos e destilarias para os próximos cinco anos.

Grande parte deste dinheiro será usado no oeste do Estado de São Paulo, uma região que abriga dezenas de moinhos de açúcar, gerando cerca de 100 mil vagas em uma indústria que emprega mais de um milhão de pessoas.

“De todas as ondas de investimento que a indústria teve, esta claramente é a mais sólida”, afirmou Maurílio Biagi Filho, um executivo da CrystalSev, um grande conglomerado de açúcar e etanol que está encerrando um terminal de etanol de US$ 10 milhões no porto de Santos.

“As pessoas têm dinheiro para investir, e tanto a demanda nacional quanto estrangeira está crescendo”, acrescentou Biagi, cuja família está no mercado de açúcar desde 1920. “Todos os ingredientes estão lá”.

Não há muito tempo, o futuro do etanol não parecia tão claro. Nos dias de glória da campanha pró-álcool do governo nos anos 80, os carros que só usavam etanol representavam quase 90% das vendas no Brasil.

Mas o consumo nacional de álcool começou a cair nos anos 90, quando uma fraca colheita e os altos preços do açúcar causaram uma falta de álcool que irritou os motoristas, fazendo muitos se voltarem aos carros abastecidos por gasolina.

Então, há três anos, a Volkswagen começou a vender carros no Brasil que usavam ou a gasolina ou o álcool, ou uma combinação dos dois. Atraídos pelo baixo preço do álcool – ele é vendido por pouco mais que a metade do preço da gasolina – os brasileiros vêm comprando esse tipo de carro flexível aos montes, ajudando a reviver o mercado nacional de etanol.

Hoje, todas as grandes montadoras no Brasil oferecem estes veículos híbridos, que agora representam 33% das vendas, um número que alguns analistas prevêem que pode chegar a 80% até o final do próximo ano.

Graças à popularidade dos motores bi-combustíveis, o consumo nacional de etanol deve crescer 50% nos próximos cinco anos, indicando que uma crescente porcentagem da plantação anual de cana do País será usada para fabricar combustível.

Este ano, por exemplo, um recorde de 57% da plantação deve ir para a produção de álcool, de menos da metade nos últimos anos, segundo a Datagro, uma empresa de consultoria do mercado situada em São Paulo.

“As pessoas diziam que a nossa única chance de vender mais álcool era aumentar a exportações”, afirmou Eduardo Pereira de Carvalho, presidente da Única, a maior associação de produtores de açúcar e etanol do Brasil. “Isso mudou da noite para o dia com os carros bi-combustíveis”.

Pelo fato de nenhum outro país ter uma rede de distribuição de álcool tão cara quanto a do Brasil, é improvável que os carros bi-combustíveis se tornem uma tendência internacional. Mas com os preços mundiais do petróleo em torno de US$ 50 por barril, os governos ao redor do mundo buscam formar de substituir a gasolina pelo etanol.

Quase uma dúzia de países, incluindo Canadá, Suécia e EUA, já começaram a misturar o álcool à gasolina, uma prática que é obrigatória no Brasil há anos. Isso ajuda a manter uma liderança nos preços nas bombas enquanto reduz as emissões de combustível, uma exigência para países que assinaram tratados ambientais como o Protocolo de Kyoto.

Outros países, como Austrália e Tailândia, se voltam ao Brasil para desenvolver suas próprias industrias, para lidar com a demanda para energia na Ásia, especialmente da China. A Índia, a segunda maior produtora mundial de açúcar depois do Brasil, também tenta disseminar o uso do etanol, para reduzir sua dependência no petróleo estrangeiro conforme sua indústria automobilística se expande ao longo de sua classe média.

Por enquanto, o Brasil, com seus baixos custos de produção, terra em abundância e uma bem estabelecida indústria de etanol, é o país mais beneficiado. Só no ano passado, por exemplo, suas exportações de álcool triplicaram para quase US$ 500 milhões conforme os preços do petróleo subiram, com os EUA e Índia no topo da lista de importadores.

E conforme aumenta a pressão da União Européia para cumprir a ordem da Organização Mundial do Comércio (OMC) para os subsídios de açúcar, tornando a produção menos rentável no País, mais produtores estrangeiros e casas de comércios devem ver o Brasil como uma forma de manter seus negócios vivos.

Theo Spettman, chefe-executivo da Suedzucker da Alemanha, o maior produtor de açúcar da Europa, disse em um seminário este mês em São Paulo que a companhia está em busca de oportunidades de investimento no Brasil. Caso isso aconteça, a Suedzucker seguirá os passos de companhias francesas como Louis Dreyfus, Tereos e Sucden, que investem no Brasil há anos.

“Os grandes jogadores da indústria de açúcar na Europa não vão deixar de ser grandes só porque os subsídios vão acabar”, disse Josias Messias, presidente do Pró-Cana, o grupo de pesquisa. “Eles sabem que terão que investir no Brasil”.