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Petróleo, o grande culpado

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quarta, 16 abril 2008 . O Estado de S. Paulo - André Meloni Nassar   
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Os preços dos alimentos se transformaram em preocupação mundial. Altos preços são um problema para os importadores líquidos de alimentos, que estão entre os países mais pobres do mundo - e para o brasileiro também, se deixarem algum resíduo inflacionário por aqui. Até o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI) e o presidente do Banco Mundial revelaram, recentemente, suas preocupações sobre o tema.

O problema maior, no entanto, não é as commodities estarem caras, mas sobrevalorizadas. A dica é a seguinte: quer saber o que vai acontecer com os preços dos alimentos? Siga os preços da energia. E a moral da história: os alimentos estão sobrevalorizados porque as políticas dos EUA para o etanol de milho e as européias para o biodiesel de colza encareceram os alimentos mais do que o esperado.

Desde que os preços do petróleo dispararam a partir de 2003 - nessa época o barril estava cotado abaixo dos US$ 30 e hoje já ultrapassou a barreira dos US$ 100 -, uma mudança estrutural ocorreu nos preços das commodities agrícolas: seus preços e os do petróleo passaram a andar juntos.

Isso é verdade para as commodities agrícolas que são usadas para biocombustíveis, como milho, óleos vegetais (soja, palma e colza) e açúcar (que é referência de preço para o etanol de cana-de-açúcar), mas é também verdade para as commodities não-energéticas, como café e algodão. A crescente integração financeira dos mercados, o movimento dos investidores institucionais em direção aos derivativos, o aumento dos custos dos fertilizantes agrícolas, fruto da subida dos preços do petróleo, e a própria desvalorização do dólar, por si só, já explicam o porquê dessa aproximação de tendências.

Quando, no entanto, investigamos mais a fundo, identificamos que as commodities agrícolas energéticas estão mais fortemente conectadas aos preços do petróleo e, mais importante, que existe uma relação de causalidade entre eles. Ou seja, que os preços do petróleo influenciam fortemente os preços das commodities agrícolas energéticas. O mesmo não foi encontrado na via contrária - preços das commodities determinando preços de petróleo.

Não há como negar, portanto, que o desenvolvimento do mercado de biocombustíveis promoveu uma integração mais intensa das commodities agrícolas energéticas com os preços do petróleo. Isso significa que uma subida nos preços do petróleo não deixaria de levar para cima as commodities agrícolas, sobretudo as energéticas. Essa relação íntima entre petróleo e commodities agrícolas energéticas deverá permanecer até que a oferta dos agrícolas volte a acompanhar a demanda.

Os biocombustíveis, dessa forma, têm, sim, sua parcela de responsabilidade na alta dos preços dos alimentos, na medida em que promoveram essa maior integração entre petróleo e commodities agrícolas energéticas. É bom termos em mente, contudo, que biocombustíveis não afetam preços de petróleo. Essa integração, ao contrário do que alguns estão falando, é boa, porque traz maior previsibilidade ao mercado de commodities agrícolas, que está entre os mais voláteis. Dado que os biocombustíveis não promovem aumento nos preços do petróleo, a única forma de conter o aumento do preços dos agrícolas é conter os preços do petróleo. Alguém põe fé em que isso seja possível?

O petróleo é, portanto, o grande culpado pelo aumento estrutural dos preços. Onde está a culpa, afinal, dos biocombustíveis? Está na sobrevalorização das commodities agrícolas energéticas em relação aos preços do petróleo. Para medir isso convertemos os preços das commodities agrícolas energéticas em peso equivalente de petróleo e os comparamos com os preços do petróleo na mesma unidade de medida. Esse procedimento é feito a partir do conteúdo de energia em cada produto. Um exemplo: o preço médio do açúcar na Bolsa de Nova York em 2007 foi de US$ 0,996 por libra. Isso equivale a US$ 320 por m3 de etanol, que é igual a US$ 0,62/kg de petróleo equivalente. O preço do petróleo nesse mesmo ano foi de US$ 71 por barril, ou US$ 0,56/kg.

Quando comparamos os preços de milho, óleos vegetais (colza, soja e palma) e açúcar com o petróleo, descobrimos que, de 2005 até os primeiros meses de 2008, com exceção do açúcar, os preços das commodities agrícolas estão se sobrevalorizando em relação ao petróleo. Em 2005, o milho, a preços de petróleo, valia US$ 0,49/kg, ante US$ 0,42/kg do petróleo. Hoje, o preço do milho é de US$ 1,05/kg, ante US$ 0,73/kg no caso do petróleo. A relação entre preços passou de 1,15 para 1,44. No caso do óleo de colza, matéria-prima para o biodiesel europeu, a relação subiu de 2,3 para 2,8. A relação nos óleos de soja e palma, substitutos da colza no prato do europeu, passou de 1,5 e 1,15 para 2,3 e 2. Em relação ao petróleo, milho e óleos de colza, soja e palma se valorizaram em 25%, 19%, 43% e 65%, respectivamente. O açúcar, na contramão dos demais, desvalorizou-se em relação ao petróleo.

Por que milho e oleaginosas estão ficando mais caros em relação ao petróleo e, assim, puxando os preços dos alimentos para cima? Os preços não deveriam andar juntos, já que eles são aditivos para gasolina e diesel? A explicação está nas políticas utilizadas por EUA e União Européia, que distorcem o mercado desses produtos. Se os mercados de biocombustíveis fossem abertos, os preços de milho e óleos de colza, soja e palma deveriam estar, hoje, 20%, 16%, 30% e 39% mais baixos, mantendo a relação que tinham com o petróleo em 2005.

Uma correção dos preços, porém, não significa que eles não teriam subido. Significa apenas que estariam menos valorizados. Se a idéia é encontrar um culpado pela alta dos alimentos, aponte-se o dedo para o petróleo.

Artigo baseado no documento de trabalho O Petróleo e a Formação dos Preços das Commodities Agrícolas, de autoria própria em conjunto com M. Moreira e L. Harfuch.

André Meloni Nassar é diretor-geral do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (amnassar@iconebrasil.org.br)

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Revista BiodieselBR
Comentarios (3)add comment

Ananias Baracuhy disse:

  Para cada barril de petróleo descoberto existe uma demanda de quatro barris de petróleo...o petróleo está em curva descendente e até hoje não existiu nenhum poderos que consiga revogar a lei de oferta e procura...

Com a escassez de petróleo que já era previsto pelos racionais,a bioenergia iria ganhar espaço para ser substituta do petróleo.Na atual fase elas são complementares mas a lógica é que em trinta anos a parcela energética vinda do petróleo será bem pequena por um motivo muito simples:o petróleo está deixando de existir...

Essas assombrações do Sr.Zeagler são choromingos de quem está vendo seu reinado cair...
O que está faltando são políticas de produção agrícolas efetivas pois os produtos agrícolas com valores que os remunerem,irão aparecer para alimentação e para energia,terras para tanto existe em várias partes do mundo.
As políticas de subsídios agrícolas praticadas pelos EUA e pela UE causaram a devastação das agriculturas dos países pobres em especial nos da África e uma boa parte da América Latina.Neste tempo aonde os produtos subsidiados apareciam naqueles países não aparecia nenhuma voz do tipo da do Sr.Zeagler para denunciar ao mundo que os subsídios agrícolas praticados por potências industriais estvão devastando as agriculturas dos países pobres...???e como consequência causando muita fome...isso sim é que é crime de lesa humanidade...

A revolução no campo está iniciada e o resta é aperfeiçoar os métodos de produção com produtividade pois será de lá que a humanidade terá que se valer também de bioenergia além de alimentos,é claro...

Lula diz que é só produzir mais,Mantega diz,será uma boa oportunidade para o Brasil tendo em vista a gigante potencialidade que o Brasil tem para produzir alimentos e bioenergia...Estão certos sim.
1

16.04.2008 - 11:30

Telmo Heinen disse:

  Há uma razão muito simples. O Petróleo nunca acabará, pela simples razão que não haverá nenhum ser humano VIVO para tocar fogo no último pingo de petróleo da Terra.
Para a nossa atmosfera alcançar 21,0 % de oxigênio, foi necessário "produzir" muito petróleo. Não precisa nem queimar a metade dele para o teor de Oxigênio da atmosfera terrestre cair para 18,0 % e nesta base ninguém sobreviverá...

Portanto, o petróleo nunca acabará!

Mas, é bom ir economizando desde já e principalmente eliminar os outros atos humanos que também causam o consumo do Oxigênio livre da nossa atmosfera!
2

16.04.2008 - 16:22

Milton M disse:

  É, pode ser que tenham razão os fatalistas, porém o que não se ouve falar é que toda produção agrícola em escala hoje é produzida a partir de fertilizantes e agrotóxicos derivados do petróleo, ou seja, a base da produção agropecuária mundial está calcada sobre um pilar que já apresenta fissões e muito pouco se vê a respeito da construção de alternativas viáveis, sabemos que elas existem, mas talvez a tecnologia para isso ainda não possa ser monopolizada então vamos assistir a muito sofrimento até esse momento, ser é que vamos chegar até ele pois algumas dessas alternativas envolveriam abrir mão de certos confortos da vida moderna, como famílias de 4 pessoas que pilotam 4 carros etc...a questão é estrutural, estamos vivendo um momento que necessita uma reorganização na forma de consumo que conhecemos.
3

23.04.2008 - 16:49

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