Oportunidades para vender lá fora
Nos últimos anos, o Brasil, entrou definitivamente na briga para tornar-se o maior fornecedor mundial de alimentos. Já é o maior exportador de café, suco de laranja. açúcar, carne bovina e carne de frango. É o segundo do mundo em soja e o quinto em algodão. Em 2004, o agronegócio brasileiro exportou 39 bilhões de dólares, 27% mais que no ano anterior. Neste ano por causa da queda das cotações da soja, carro-chefe das exportações brasileiras, o crescimento deve ser mais modesto. mas ainda assim considerável - foram 20 bilhões de dólares no primeiro semestre 9% mais que no mesmo período do ano passado. Na soma de todas as commodities agrícolas, o Brasil é hoje o terceiro maior exportador do planeta, atrás dos Estados Unidos e da União Européia. E tem tudo para, nos próximos anos, conquistar uma parcela ainda maior do mercado global do agronegócio.
Atualmente o Brasil e outros países em desenvolvimento estão envolvidos em complicadas negociações comerciais para reduzir subsídios agrícolas e ampliar o acesso a mercados de países ricos. Como esses avanços devem demorar para virar realidade. o país precisa apostar- em outros mercados segundo o consultor Fabio Silveira, da MS Consult.
"A Europa e os Estados Unidos não podem ser o único eixo do agronegócio brasileiro", afirma Silveira. "Podemos negociar em alguns produtos específicos, mas o protecionismo nesses países vai continuar sendo uma realidade ainda por algum tempo. Para o consultor, as maiores oportunidades para o Brasil estão nas economias emergentes da Ásia, no Oriente Médio e no Leste Europeu. "Temos chance de crescimento significativo em mercados como China, índia e Rússia'', diz Silveira.
A mesma análise faz Mauro de Rezende Lopes, pesquisador do Centro de Estudos Agrícolas da Fundação Getulio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro. —Vai ser quase impossível o Brasil dar conta de toda a demanda por carne, cereais e oleaginosas; que será gerada nos países em desenvolvimento nos próximos anos". afirma Lopes. Em artigo que está publicando neste mês no boletim Cenários, da FGV, junto com a pesquisadora Marilene Silva de Oliveira, Lopes aponta que, na próxima década, os países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), que reúne as nações industrializadas, devem crescer 2,6% ao ano, ante 3% a 4% dos países em desenvolvimento - na China, a taxa deve superar 7% ao ano. A previsão é que, nos próximos 12 anos, 700 milhões de pessoas vão ser incorporadas ao mercado nos países em desenvolvimento, com renda crescente e vontade de elevar seu padrão de alimentação.
Para o Brasil, o mercado mais promissor é, sem dúvida, a China, sobretudo para a soja. o açúcar e o algodão. A China já é a maior importadora da soja brasileira e deverá comprar muito mais, pois sua produção interna não supre a demanda. O peso da China fica mais evidente quando se analisa o mercado de açúcar. Nos últimos cinco anos, o consumo chinês aumentou de 6,6 para 9 quilos per capita por ano. Num país com 1,2 bilhão de habitantes, só esse acréscimo gerou uma demanda adicional anual de 2.9 milhões de toneladas de açúcar - quase 20% do total que o Brasil exportou no ano passado. A China é também um mercado potencial para o álcool combustível, o etanol, cuja demanda no mundo tende a crescer por causa da alta dos preços do petróleo. "A maior loucura coletiva que fez a humanidade foi investir em um produto que vai acabar, que é o petróleo", diz o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, destacando o potencial do que chama de agroenergia - que inclui o etanol e o biodiesel obtido da soja, da palma e da mamona.
No algodão, outra demonstração da atratividade do mercado chinês. A produção mundial na safra 2005/2006 está estimada em 23 milhões de toneladas. Desse total, 9 milhões (quase 40%) devem ser consumidos pela China. No ano passado, o Brasil exportou apenas 15 000 toneladas de algodão para os chineses. "É uma quantidade ridícula e pode aumentar com a produção de plumas com um padrão adequado à exportação", diz Antonio Esteve, presidente da Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anca). O problema, segundo Esteve, é que o algodão brasileiro é considerado de padrão médio, com excesso de folhas e talos e sem uniformidade.
Adequar o produto às exigências dos clientes é uma rotina para empresas brasileiras com larga experiência em exportações. É o caso do setor de frangos, que já abastece mais de 130 países. A estrufura de desmontagem do frango nos abatedouros está preparada para atender o mundo inteiro. Conforme explica José Carlos Aguilera. diretor da gaúcha Avipal, os consumidores brasileiros são exceção: são poucos os países onde as pessoas compram o frango inteiro e dividem entre a família. O muçulmano come um frango inteiro sozinho - menor, é claro. A Europa e os Estados Unidos consomem principalmente peito. Na Ásia, vendem-se mais coxas, sobrecoxas e asas. "Como não se faz frango só com peitos ou coxas, é preciso atender todas as culturas. Quem vende para a Europa tem de vender para a Ásia". diz Aguilera.
Neste mundo globalizado, não dá para o Brasil abrir mão de brigar por maior acesso aos mercados dos países desenvolvidos, apesar das barreiras comerciais. Tome-se o setor de carne bovina. O Brasil abastece mais de 150 países e já é o maior exportador mundial. No entanto, por causa da febre aftosa, não consegue exportar carne in natura para Estados Unidos, Japão, México, Canadá, Coréia do Sul e Taiwan, que representam 60% das importações mundiais. "A abertura desses mercados é uma questão de tempo. Estamos fazendo o nosso dever de casa", afirma Antonio Camardelli, diretor executivo da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec).
Além da questão sanitária, outro problema do Brasil é que precisa melhorar sua credibilidade lá fora. segundo Guilherme Leite da Silva Dias, professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP). "Se você não faz direito no mercado interno, fica difícil convencer o comprador estrangeiro de sua seriedade", afirma Dias. Ele cita o exemplo do plantio de transgênicos. Os Estados Unidos, maiores produtores dessas variedades no mundo, tomaram precauções para separar as plantas geneticamente modificadas das convencionais. Com isso. conseguem dar ao comprador a garantia de que determinado produto contém ou não ingredientes transgênicos. 'A Argentina não consegue mais separar o transgênico do nãotransgênico, e estamos caminhando na mesma direção', afirma Dias.


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