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Biodiesel não é álcool

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segunda, 06 dezembro 2004 . O Estado de S. Paulo   
Catálogo do Biodiesel 2008 / 2009
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Com a perspectiva de adoção do biodiesel no Brasil, tem sido sugerida sua analogia com o álcool de cana-de-açúcar, que depois de 25 anos de desenvolvimento superou a dependência do apoio governamental e hoje constitui um exemplo de sustentabilidade.

Tal similaridade poderia orientar as ações do governo no fomento ao novo biocombustível, entretanto, existem semelhanças e diferenças.

Do ponto de vista do usuário, o biodiesel, corretamente especificado, pode ser usado pelos motores convencionais, sem adaptação, o que é uma vantagem relevante ante o álcool.

Pelo lado da produção, o biodiesel é notavelmente mais complexo que o álcool. Enquanto a fermentação e a destilação são feitas há séculos, o processo de transesterificação, adotado para produzir biodiesel, desenvolveu-se apenas nas últimas décadas, envolvendo reações químicas e processos de separação sofisticados.

A produção de álcool depende basicamente de matéria-prima agrícola, já o biodiesel requer o aporte de metanol, produto de manuseio perigoso. Existem estudos para substituir o metanol por etanol, contudo com resultados ainda limitados.

O balanço energético mostra outra diferença importante: enquanto, no caso do álcool de cana, para cada unidade de energia investida se obtêm cerca de dez, para o biodiesel essa relação é pouco conhecida, aparentemente inferior a três para os cultivos anuais e cerca de seis para as palmáceas.

No âmbito das semelhanças, pode ser citada a crença de que estes biocombustíveis sejam panacéias para uma gama de problemas, que incluem a questão agrária.

Isso ocorreu com o álcool quando se acreditava ser viável sua produção em microdestilarias e hoje passa com o biodiesel, quando se espera que pequenos produtores sejam capazes de produzir seu próprio combustível. Pode ser que no futuro tal expectativa se viabilize, mas na atualidade nada assegura sua possibilidade.

A produção de biocombustíveis, infelizmente, exige uma escala mínima de produção, boa produtividade agrícola e adequado nível tecnológico para garantir o atendimento às especificações impostas pelos motores modernos.

Além disso, pretender distribuir renda simultaneamente à introdução de inovações tecnológicas desse calibre pode ser temerário. Outra interessante semelhança se refere à confusa proposição de matérias-primas, que com freqüência tem desconhecido as aptidões locais.

Nos anos 70 se indicavam a mandioca, a batata-doce, o sorgo e a madeira para fazer álcool e, agora, se propõem quase todas as oleaginosas para o biodiesel, como se isso não influenciasse decididamente a viabilidade do processo. Parece evidente que cabem distintas opções regionais, mas palavra deve ser dada aos agrônomos e apenas um forte apoio à pesquisa nesse campo vai orientar um sólido programa de biodiesel.

De todo modo, uma indicação interessante: as palmáceas, como o dendê, são mais produtivas que os cultivos anuais, permitem obter óleo mais barato, melhor para biodiesel, e subprodutos de interesse energético.

Sobre matérias-primas e equívocos históricos em biocombustíveis, cabe lembrar a construção de uma destilaria de álcool de mandioca em Curvelo nos anos 80, cuja única utilidade foi mostrar a inviabilidade da rota adotada.

É no campo econômico que as diferenças entre o álcool e o biodiesel se acentuam. O álcool compete com a gasolina, o mais caro dos derivados, e o biodiesel visa a substituir um dos mais baratos e mais essenciais à economia.

O álcool precisou de suporte durante anos para se viabilizar como combustível, mas num contexto de preços deprimidos do açúcar e capacidade ociosa nas usinas.

Sempre que o mercado de açúcar se mostrou melhor, os usineiros pressionaram para redirecionar sua produção e, corretamente, faturar mais vendendo o produto mais caro. Ou seja, a decisão sobre o que produzir foi resolvida pelo mercado e todas as vezes que houve intervenção os resultados foram questionáveis.

Com o biodiesel a proposta tem sido diferente. Não apenas é preciso viabilizar o uso de um combustível mais caro, o que não é nenhum absurdo em princípio, mas, paradoxalmente, queimar um produto com um atraente valor de mercado e deslocar um combustível de baixo preço. Se for levado em conta o custo de oportunidade da matéria-prima, como fica a viabilidade global do processo de substituição?

É difícil entender, seria como se alguém recomendasse o plantio de madeira de lei para vender como lenha. Seria essa uma política de renda, de inclusão social? Seria uma política energética?

O biodiesel deve entrar na matriz energética brasileira por suas vantagens energéticas, ambientais e sociais. Que seja num marco de racionalidade, com um mínimo de consistência econômica e uma correta orientação tecnológica. Um país que construiu a história de sucesso do álcool não precisa cometer todos os erros de novo.
Revista BiodieselBR
Comentarios (2)add comment

neirie ester de oliveira disse:

  Sou simpatizante das destilarias com base amilácea, no caso a de mandioca. Porém, cabe uma maior informação como relação as pequenas industrias familiares, cuja proposta está sendo amplamente divulgada aos pequenos agricultores, porém, estão esquecendo de que do ponto de vista economico, pequenas unidades torna-se totalmente inviável.
1

16.05.2008 - 13:33

Telmo Heinen disse:

  É muitomais viável utilizar a batata para fazer álcool de base amilácea. A mandioca não pode ser armazenda nem por duas semanas enquanto a batata seja a doce ou a inglesa, pode ser armazenada por muitas semanas.
Isto possibilita o transporte para um pouco mais longe enquanto na mandioca este fator é altamente limitante.
Além disto a Fábrica precisa ter ao seu lado algum confinamento de bovinos ou até de suinos, para consumo dos resíduos da extração do álcool.

No caso de Suinos poderiam ser aqueles do tipo BANHA (Menos exigentes em proteina) e cuja banha serviria não menos do que para fazer biodiesel (O melhor biodiesel existente) e de sobra tem-se Carne para o pessoal das comunidades envolvidas.

Att, telmo heinen @yahoo.com.br
2

17.05.2008 - 07:57

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