No início desse mês de dezembro, o presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, assinou o Programa Biodiesel, que permite o uso do biodiesel na matriz energética brasileira a partir do início de 2005. O novo combustível é inteiramente nacional, produzido a partir de plantas como mamona. Entre as vantagens de seu uso, estão a diminuição das importações de petróleo para nosso mercado e redução das emissões de poluentes em até 16%. Entretanto, só pode ser utilizado misturado ao diesel. Na fase inicial do programa, o biocombustível será misturado ao óleo na proporção de 2%, mas até 2009 esse número deve subir para 5%. Por isso, a regulamentação do uso do biodiesel reabre uma antiga discussão: por que não permitir o uso do diesel em carros de passeio da frota nacional?
"A idéia não é despoluir o meio ambiente? Então, não vejo porque insistir na proibição do uso do diesel em carros de passeio", disse Lula, durante o lançamento do Programa Biodiesel. Porém, desde 1976, a lei brasileira permite a utilização do combustível apenas em veículos com carga útil igual ou superior a 1 tonelada, ou modelos que sejam classificados como utilitários. "O motivo é histórico. Na época em que a lei foi instituída, grande parte do petróleo vendido no Brasil era importado", afirma Geraldo Rangel, presidente da AEA (Associação de Engenharia Automotiva). Como o diesel abastece o setor de transporte, ele tem maior demanda do que a gasolina em nosso mercado. Hoje, 56% da frota brasileira utiliza o óleo combustível.
"No craqueamento do petróleo, sobrava um excedente de gasolina, tanto que abastecia os modelos leves do país e ainda sobrava para exportar", explica Rangel. O executivo acredita ser este o motivo para a proibição do uso do diesel em carros de passeio. "Hoje, essa situação mudou: nós importamos uma quantidade menor de petróleo e a proibição não faz mais sentido. A AEA é a favor da regulamentação dos modelos de passeio a diesel no Brasil", diz o executivo. Para ele, os motivos são inúmeros: "No aspecto técnico, o uso do diesel é vantajoso, uma vez que tem virtudes em termos de desempenho, conforto e economia. Sua liberação colocaria o Brasil em um patamar próximo ao de países europeus e dos Estados Unidos", diz.
Na Europa, cerca de 43% dos carros de passeio utilizam diesel e a expectativa é que, no ano que vem, esse número chegue a 50%. Isso porque, no Velho Continente, o combustível não é visto como aqui: no Brasil, temos imagens de caminhões e picapes barulhentos, com fumaça preta saindo pelo exaustor. Mas hoje, com tecnologias modernas, como o sistema de injeção do tipo "common rail", essa realidade mudou. "O conceito de motor ruidoso já é ultrapassado, porque o avanço dos novos sistemas a diesel é sensacional. Hoje, podemos dizer que esses motores já apresentam desempenho melhor do que o de propulsores a gasolina", opina Rangel. Opinião compartilhada por Gábor Deak, presidente da Delphi do Brasil, empresa que desenvolve motores com a tecnologia "common rail".
Para o executivo, a proibição do uso do diesel no Brasil vai na contramão do desenvolvimento do país, pois impede a criação de empregos e de tecnologias para competirmos no mercado internacional. Outro ponto importante que deve ser esclarecido em relação ao diesel é seu nível de emissão. Segundo Geraldo Rangel, o combustível não polui menos do que a gasolina. "O que sai do cano de escape não é a mesma coisa, por isso as regras de emissões são diferentes. Entretanto, se respeitadas, o resultado final para o meio ambiente será o mesmo. É preciso uma inspeção veicular forte para controlar esse aspecto", diz. Mas, no caso da adição do biodiesel, é diferente, pois este sim é um combustível mais limpo.
Rangel afirma que a grande vantagem do diesel em relação à gasolina é econômica. "O combustível é mais barato na produção e conversão. Independente dos subsídios do governo, a sociedade economizará com o uso do diesel", diz. Mas a utilização do óleo combustível nos carros de passeio não parece estar tão próxima, apesar das afirmações de Lula. Entretanto, Rangel acredita que o Programa Biodiesel já é um grande passo para que isso aconteça. "O Brasil já produz modelos a diesel para exportação. Se o governo liberar o uso do óleo combustível, as montadoras precisarão de pouco tempo para se adequar à demanda nacional", afirma.
Entramos em contato com todos os fabricantes que produzem automóveis de passeio no Brasil. Entretanto, a maior parte deles não quis opinar sobre o assunto. Isso porque algumas não acreditam na regulamentação do diesel para modelos leves, outras afirmam que uma opinião pode atrapalhar futuras negociações com o governo. Outro ponto estrutural importante que diz respeito à utilização do óleo combustível em carros de passeio é a rede de distribuição. "Isso não é problema, pois as refinarias produzem muito diesel para suprir o transporte público", afirma Rangel. O problema é a qualidade.
O diesel brasileiro está longe de ter a mesma qualidade daquele produzido na Europa. O teor de enxofre é o grande problema de nosso óleo. "Ainda temos muito que evoluir, e essa evolução demanda investimentos por parte das refinarias e da Petrobras", diz Geraldo Rangel. A estatal brasileira de petróleo tem um programa denominado "Evolução do Diesel". Entramos em contato com a empresa, que prometeu divulgá-lo, mas até o fechamento desta matéria não obtivemos resposta.
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