O
biocombustível é a grande aposta do Governo Federal para consolidar a
posição do Brasil como um dos grandes fornecedores de combustível no
mercado mundial. Um dos pilares dessa política, o biodiesel tem como
objetivos atender a demanda interna e buscar bons resultados nas
exportações. No entanto, já existem inúmeros problemas em relação a
irregularidades na comercialização e o setor busca as melhores maneiras
de fiscalização e legalização das usinas.
Em entrevista ao Projeto Brasil, o diretor da BiodieselBR.com
e responsável pela primeira fábrica de biodiesel do País abrangendo
todo o processo de produção, Univaldo Vedana, explicou como a
fiscalização é feita atualmente pela Agência Nacional de Petróleo
(ANP), contando que os documentos necessários para legalização de
usinas não são de difícil obtenção.
Segundo
Vedana, o grande problema da produção nacional de biodiesel está na
matéria-prima: somente a soja pode atender o mercado interno, mas seu
preço está alto e o seu uso em demasia pode prejudicar a indústria de
alimentos. O diretor da BiodieselBR.com
defende a utilização de novos insumos, respeitando a vocação agrícola
regional. Sua proposta é que as novas matérias-primas sejam plantadas
no período de entressafra na colheita da soja, pois assim haveria
produção específica para o biodiesel.
Para
ter condições de exportar biocombustíveis, Univaldo Vedana também
atenta para a necessidade de melhorias nas condições logísticas
brasileiras nos portos.
Projeto Brasil: Como deve ser o modelo de produção do biodiesel?
Univaldo Vedana: Desde
o começo, vemos o modelo de produção do biodiesel em dois caminhos:
pequenas usinas regionais para atender a demanda local, e grandes
usinas para atender o mercado interno e a futura exportação.
PB: Como fiscalizar as pequenas usinas regionais?
UV: A
ANP deve se encarregar disso, pois tem atribuições legais para
estabelecer toda essa fiscalização. Como instrumentos, já existem as
resoluções da ANP e a lei 11.116, que dá poderes e obriga qualquer
produtor de biodiesel a ter todos os registros exigidos por lei.
PB: Mas como é a fiscalização da manutenção desses registros?
UV: Começa
no momento em que o empresário produz biodiesel para uso e consumo
próprio em pequena escala: deve se fazer toda a regularização junto aos
órgãos do meio ambiente, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e
dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o registro especial na
Receita Federal como produtor de biodiesel e o registro da ANP. E ainda
tem todas as exigências que o empresário é obrigado a prestar como uma
grande usina, em termos de amostra e de qualidade do biodiesel. Não se
pode trabalhar à margem da lei por ser um produtor de 10 mil litros por
dia.
PB: Como estimular a legalização de usinas?
UV: A
ANP deve fazer seu trabalho normalmente, como em outubro de 2006,
quando fiscalizou de oito a dez usinas que estavam irregulares no Mato
Grosso. Nossa orientação é constituir a empresa e buscar todos os
registros conforme a lei manda para começar a trabalhar. Não são
registros impossíveis de serem obtidos perante os órgãos competentes, é
só uma questão burocrática.
PB: Há mercado para a região Norte investir em novas usinas?
UV: Sim.
No Norte, as pequenas usinas vão trabalhar em produção de biodiesel
para consumo próprio. As usinas que estão irregulares pretendem receber
matéria-prima dos produtores rurais, processar, industrializar e
devolver o biodiesel ao produtor rural para uso e consumo próprio. Não
vejo nenhum impedimento legal em prestar esse serviço ao produtor
rural, pois não se caracteriza uma venda – que só pode ser feita para
as distribuidoras, e não para o consumidor final.
PB:
Uma das grandes expectativas do biocombustível é a sua capacidade de
inclusão social. Como está essa questão atualmente, considerando a
agricultura familiar?
UV: A
agricultura familiar foi beneficiada por lei na produção de oleaginosas
para o biodiesel. Porém, não temos ainda uma produção expressiva de
grãos em cima da agricultura familiar. Esse projeto está começando,
temos um longo trabalho pela frente e muitos problemas a serem
resolvidos, como a escolha da melhor oleaginosa para cada região. O
Governo disse que a mamona poderia ser plantada do Oiapoque ao Chuí
para biodiesel e todos lucrariam, só que na realidade tem limitações em
algumas regiões. A natureza deve ser observada e seguida.
PB: O que é o Selo Combustível Social?
UV: O
Selo Combustível Social foi instituído pelo Decreto 5297, que
estabelece que as usinas devem produzir biodiesel com 10% a 30% das
matérias-primas oriundas da agricultura familiar, e recebem isenção de
33% a 100% do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição
para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS). A idéia do Governo
era incentivar a agricultura familiar, mas somente os plantadores de
mamona e dendê do Norte e Nordeste são premiados com 100% de isenção.
Ou seja, o Governo achou que só tem produtor pobre e com problemas
nessas regiões, discriminando os outros produtores do Brasil inteiro e
as outras oleaginosas. Teria que ser um decreto abrangente em todo
território nacional, favorecendo os pequenos produtores que produzissem
qualquer oleaginosa para o biodiesel.
PB: O que pode ser feito no biodiesel para gerar empregos?
UV: O
aproveitamento do óleo de cozinha usado, por exemplo, ainda é um
projeto embrionário. Mas isso é muito pequeno e o potencial é muito
grande. Há necessidade de incentivo à geração de empregos no
recolhimento do óleo de cozinha, porque isso envolve muitos
trabalhadores, cooperativas e associações de bairro, além de
conscientizar as donas de casa para jogarem o óleo de cozinha no ralo,
pois pode virar combustível e trazer um resultado econômico na família.
Em Goiás, a Granol está trocando quatro ou cinco litros de óleo de
cozinha usado por um litro novo. E temos alguma coisa sendo feita com a
prefeitura e alguns empresários de Indaiatuba, interior de São Paulo.
São iniciativas interessantes, mas precisamos difundir isso no Brasil
inteiro.
PB: Qual o principal problema para produção de biodiesel no Brasil?
UV: Há
problemas na produção de matéria-prima. Montar uma usina de biodiesel é
a parte mais fácil e rápida do projeto, o problema está no campo.
Precisamos de milhões de litros por mês de vegetais para transformar em
biodiesel, e temos somente óleo de soja para atender à grande demanda
interna. Exatamente em função de sua utilização em nível mundial para
biodiesel, o preço da soja aumentou de US$ 0,22 (R$ 0,46) por
libra/peso em outubro de 2006 para cerca de US$ 0,30 (R$ 0,72)
atualmente. Com o preço final do diesel em torno de R$ 1,70 e R$ 1,80,
o usineiro de biodiesel não consegue pagar as contas e lucrar.
PB: Mas há matéria-prima suficiente para suprir a demanda interna?
UV: Não,
só tem o óleo de soja. Mas se o Brasil produzir dois bilhões de litros
de biodiesel, por exemplo, faltará óleo de soja para a alimentação. No
setor alimentício, o Brasil amassa cerca de três bilhões de litros de óleo de soja por ano, uma parte é exportada e outra é consumo interno. Se
tomarmos 50% desse óleo e transformá-lo em combustível, vai ter
problema de abastecimento do mercado interno.
PB: Como equilibrar a utilização de insumos para alimentação e combustível?
UV: O
biodiesel brasileiro deve ser produzido sem mexer na safra de verão,
mantendo a produção atual de óleo de soja e de ração animal inclusive
para exportação. Para biodiesel, temos que plantar outras oleaginosas
específicas, como mamona, nabo forrageiro, pinhão-manso, linhaça,
girassol, palma, dendê, babaçu... Temos uma infinidade de plantas que
podem suprir essa demanda de combustível sem mexer na safra de verão.
PB: O que o Governo poderia fazer para estimular a produção?
UV: O
presidente Lula declarou em Iraquara, na Bahia, que precisa aperfeiçoar
o programa para que seja economicamente interessante. Um dos problemas
que o Governo Federal pode e deve mexer é a carga tributária: o Brasil
andou na contramão dos outros países na tributação do biodiesel, e
passou a cobrar uma carga tributária excessiva. As empresas que não têm
o Selo Combustível Social e vendem biodiesel a R$ 2, por exemplo, pagam
11% de PIS e Cofins por litro (R$ 0,22); o Imposto Cobrado sobre a
Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) também tem problemas. Para
realmente incentivar a produção de um novo combustível, deve haver
alguma isenção temporária, como fez a grande maioria dos países. Se
nada for feito, vamos ficar com o biodiesel patinando por mais um bom
tempo.
PB: Como deve ser feita a escolha de insumos?
UV: Temos
de trabalhar de acordo com a vocação agrícola de cada região e a
oleaginosa que melhor se adapte. A palma, por exemplo, tem boa
adaptação no Norte e no sul da Bahia, onde seu plantio deve ser
incentivado. Mas não se produz palma no resto do Brasil.
PB: Esse respeito à vocação regional não estimula a utilização da soja como insumo?
UV: A
soja é muito usada porque seu agronegócio vem se consolidando há 50
anos. Hoje, quem pensa em usina de biodiesel deve pensar também em óleo
de soja, porque é o único disponível. Precisamos utilizar nossas áreas
agrícolas que plantam soja no verão para produzir outras oleaginosas
quando a terra fica nua, no período de março a outubro. A soja é
colhida em fevereiro, março e abril praticamente no Brasil inteiro; até
novembro, pode se plantar girassol, nabo, granola, vinhaça e muitas
oleaginosas no período de entressafra do verão. Então, colhe-se a safra
específica para o biodiesel e planta-se de novo a safra de verão normal.
PB: Por que isso não é feito hoje em dia?
UV: O
produtor rural tem todas as condições de plantar: terra, tecnologia,
vontade de trabalhar e produzir; só precisa de garantia de compra em
contrato. Na região de Goiás, por exemplo, a Caramuru Alimentos, entre
2001 e 2004, incentivou os produtores a plantarem girassol em fevereiro
e março, garantindo a compra em contrato. Cerca de 80 mil hectares de
girassol foram plantados especificamente para atender a esse contrato.
Mas, com a valorização do Real, a Caramuru Alimentos botou o pé no
freio, porque compensava mais importar o óleo de girassol do que
plantar. Com isso, as regiões que plantavam 20 ou 30 mil hectares de
girassol na safrinha ficaram sem contrato e passaram a não plantar mais.
PB: Como funcionam os leilões de biodiesel?
UV: O
Governo criou os leilões como uma forma de mostrar que o biodiesel
realmente existe. Só podem participar do leilão as empresas com o Selo
Combustível Social, e as distribuidoras são obrigadas a comprar esse
biodiesel. Os leilões acontecem desde o ano passado para avaliar o
mercado do biodiesel, mas são passageiros. No futuro, o mercado será
livre e os produtores venderão diretamente para uma distribuidora.
PB: Qual a perspectiva para o Brasil exportar biodiesel?
UV: Não
resta dúvida de que o Brasil terá potencial para exportar biodiesel, só
que é um sonho por enquanto. Primeiro, temos que abastecer um mercado
interno muito grande. Por isentar PIS, COFINS e ICMS, a exportação pode
ocorrer, mas temos uma série de problemas de porto, infra-estrutura e
produção a serem resolvidos, já que o biodiesel exige tanques fechados
em navio separado e armazenagem específica no porto. Hoje, se
existissem condições de logística, o produtor de biodiesel preferiria
exportar a abastecer o mercado interno.
PB: Excluindo esses problemas logísticos, há alguma previsão de quando deve começar a exportação do biodiesel?
UV: Vai
levar alguns anos ainda. Não resta dúvida de que o mercado no Exterior
é do tamanho do mercado de petróleo, tanto para biodiesel quanto para
óleos que poderiam ser transformados em biodiesel em qualquer outro
lugar do mundo. Só que não podemos exportar se não atendemos o mercado
interno.
PB: Os Estados Unidos e a Europa seriam os grandes adversários do Brasil no mercado internacional de biocombustíveis?
UV: Não
acredito que sejam os EUA, porque eles têm um mercado interno enorme
para ser abastecido. No etanol, os EUA são importadores brasileiros, e
seguramente também serão compradores do nosso biodiesel quando tivermos
condições de exportar. A Europa também deve importar o biodiesel
brasileiro, pois precisa atender às suas normas de mistura até 2015 e
precisa de bilhões de litros.
William Correia - Projeto Brasil