O Sol é o Limite |
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A seqüência de comentários que se segue é baseada na Teoria dos Grandes Números, com freqüência chamada de Análise de Ordem de Grandeza. A idéia é termos uma idéia do tamanho da coisa e não acertarmos a "resposta certa". Lembram-se das velhas questões dos exames vestibulares do tipo: "quantos litros de água cabem no Maracanã?" ? Pois é, elas servem para muitas coisas. Se o efeito estufa aumentar, como resultado da maior emissão de CO2, a atmosfera irá emitir mais energia para a Terra, que aumentará a evaporação da água que provocará mais nuvens e talvez alterando a quantidade de energia absorvida pela atmosfera que por sua vez... O primeiro passo na nossa trajetória é a determinação da quantidade de energia que chega à nossa porta, que é o limite superior da atmosfera da Terra. No final do século XIX, Wien, colega de Planck, chegou à conclusão que havia uma relação entre a temperatura de um corpo negro e o comprimento da máxima emissão de energia do mesmo. Esta relação, conhecida como lei do deslocamento de Wien, é tal que:
De posse de medições feitas na Terra que indicam que a emissão do Sol é máxima para
onde a constante tem o valor numérico:
Aproximadamente um terço desta energia é imediatamente refletida de volta para o exterior, pelas nuvens, pelo mar, etc, sem qualquer interação com a atmosfera. Ou seja, temos livre cerca de 230 W/m2 para aquecer a atmosfera e o solo. A experiência indica que a atmosfera absorve cerca de 70 W/m2 da radiação de ondas curtas provenientes do Sol, reduzindo para uns 160 W/m2 a parcela que alcança de fato o solo. Assim, para a Radiação proveniente do Sol, temos na média que: energia chegando na média em cada m2 da superfície = energia diretamente refletida pelas camadas superiores da atmosfera + energia que é absorvida pela atmosfera + energia que chega à superfície da Terra proveniente do Sol o que significa:
A situação fica um pouco mais complicada e talvez interessante pois a atmosfera e a própria Terra emitem radiação. No caso da Terra, a energia emitida pode ser também calculada pela lei de Stefan-Boltzmann, considerando que a temperatura média de uns 288 K (cerca de 15 C). Assim, a energia emitida pela Terra é:
Pela lei de Stefan-Boltzmann, a atmosfera que já absorveu 70 W/m2 provenientes do Sol, está a uma temperatura média de 3 C e portanto também emite radiação. O valor calculado para a energia que ela emite para a Terra é da ordem de uns 330 W/m2. Isto é, um balanço de energia para a atmosfera nos dará: energia absorvida do Sol + energia capturada pelo efeito estufa - energia emitida para a Terra = Saldo (ou déficit) de energia radiativa ou seja: Isto é, nestas contas, a atmosfera estaria se esfriando neste processo. Entretanto, como veremos, há outras parcelas em jogo. Mas antes de prosseguir, vejamos o Balanço de Radiação para a Terra. energia radiativa recebida da atmosfera + energia radiativa recebida do Sol - Energia emitida (radiação) = Saldo (ou déficit) de energia radiativa
A energia que chega à Terra vinda diretamente do Sol (160 W/m2) não incide perpendicularmente à superfície da Terra durante o dia todo, pois pela manhã bem cedo e à tarde, a inclinação dos raios solares é bastante grande. Supondo um ângulo médio de 45 graus, nossa estimativa se reduz para 113 W/m2 (= 160 cos 45). Como todo processo tem suas perdas, vamos supor que a eficiência do nosso processo de conversão de energia solar em energia elétrica seja de 15%, utilizando dados de John Shonle no seu livro "Environmental Applications of General Physics", publicado pela Addison-Wesley em 1975. Assim, teríamos cerca de 17 W/m2 para serem convertidos em eletricidade. Precisamos saber então qual é a área que poderemos usar para a usina solar. Segundo Shonle, este número é da ordem de 2,5x1013 m2, desprezando as áreas habitadas, industriais, agrícolas, montanhosas, etc. Isto nos permite obter como estimativa de potencial elétrico o valor:
As necessidades atuais do mundo são hoje da ordem de 1013 W. Vemos assim que o potencial solar é da ordem de 40 vezes maior que as necessidades do mundo. Isto é, o processo de conversão dos raios solares em energia elétrica é um processo irreversível no mundo, face ao seu potencial. Mais cedo ou mais tarde, precisaremos olhar melhor esta gigantesca fonte de energia. Hoje ele é ainda de reduzida aplicação face aos custos. Entretanto, com o eventual e também irreversível término do petróleo, os custos passarão a ser competitivos. Para finalizar este estudo, vejamos como a natureza gerencia o fato da atmosfera estar perdendo 100 W/m2, o que significa estar ela se esfriando, e a Terra estar ganhando 100 W/m2, isto é, se aquecendo, como vimos acima. Até este ponto, consideramos apenas a influência da Radiação Térmica na atmosfera. Entretanto, um outro fator bastante importante é a imensa evaporação da água dos mares e rios, o que acontece continuamente. Lembrando o valor da entalpia de vaporização, da ordem de 2400 kJ/kg (consulte uma tabela de propriedades termodinâmicas), e considerando que a precipitação anual de água (isto é, chuva!) na Terra é da ordem de 5x1017 kg (os oceanos contem cerca de 1021 kg de água), temos que a evaporação desta massa de água consome cerca de 3,8x1016 W. Considerando os 230 W/m2 que penetram na atmosfera provenientes do Sol, temos que a parcela de energia chegando à Terra é da ordem de:
Como podemos ver, não há equilíbrio radiativo entre a Terra e a atmosfera mas há uma possibilidade de equilíbrio se envolvermos convecção. A situação é frágil pois não entendemos tudo o que se passa. Por exemplo, se o efeito estufa aumentar, como resultado da maior emissão de CO2, etc, a atmosfera irá emitir mais energia para a Terra, que aumentará a evaporação da água que provocará mais nuvens e talvez alterando a quantidade de energia absorvida pela atmosfera que por sua vez.... Muito complicada esta análise pois um mecanismo alimenta outro, numa seqüência de ajustes. Um último ponto interessante é o dado que estas trocas não acontecem uniformemente pela Terra, pois a evaporação é grande nos oceanos e mínima nos desertos, o gelo dos pólos reflete muito a radiação infravermelha, etc. Além disto, os valores discutidos aqui, além de serem aproximados, variam na presença de nuvens, tornando o problema muito mais complexo. Isto é apenas um indício do complicador efeito da latitude e da longitude das regiões da Terra nas condições climáticas do planeta. Entretanto, estas "complicações" nos afetam diretamente e estudá-las é um dos problemas mais importantes deste século.
Fonte: Mecânica Online Edição 28 - abril de 2002 |